Foto: Praça dos Três Poderes em Brasília, com o Executivo ao Centro
A imagem da “Praça dos Três Poderes” – Executivo, Legislativo e Judiciário -, é o simbolismo perfeito dos Poderes que representam a República brasileira. Cada qual com as funções específicas e respectivos limites definidos na Carta Magna. Assim, obviamente, as decisões que deles emanam devem estar sintonizadas, respeitosamente, com os padrões estabelecidos no conjunto das leis.
É interessante registrar que parece que os grandes mentores deste fantástico projeto de Brasília, o Urbanista Lúcio Costa e o extraordinário Arquiteto Oscar Niemeyer, projetaram os Palácios dos Três Poderes de forma que cada Poder passa a ideia de estar em estado de alerta permanente e passando um ao outro uma mensagem: “Vá devagar… estou aqui de olho”! A realidade é que cada Poder desenvolve o exercício de protagonismo institucional na busca inquietante de exibir a sua força e capacidade de assumir decisões que impactam.
Quando se imagina que a turbulência política passou adiante e que tudo estará voltando à normalidade, eis que algo acontece e gera para o país a concepção de um novo clima político. Assim aconteceu ao longo da última semana, exatamente em 29 de abril de 2026, quando foi rejeitada por 42 votos a 34, a indicação de Jorge Messias para o STF, num episódio incomum e politicamente significativo no Senado Federal.
O episódio pode sinalizar uma inflexão relevante no cenário político nacional. O que está em jogo, neste momento, vai muito além de vitórias ou derrotas pontuais do Governo dentro do Congresso. Trata-se da redefinição de poder, da capacidade de governabilidade e, sobretudo, do rumo político-eleitoral do país
As recentes dificuldades do governo no Senado não devem ser encaradas apenas como fatos isolados. Elas sinalizam um desgaste mais profundo na articulação política, revelam fissuras na base de apoio e indicam que o ambiente institucional tende a se tornar mais imprevisível.
Quando o governo perde capacidade de coordenação, o sistema político rapidamente se reorganiza e, nesse movimento, surgem novos protagonistas e novas agendas. Em outras palavras, é preciso fechar para balanço e depois começar no dia seguinte com novas tomadas de decisões.
A atitude dos partidários do governo de atribuir a responsabilidade pela derrota na votação do seu indicado ao STF, exclusivamente à liderança do Senado pode simplificar excessivamente uma dinâmica política mais complexa. Na verdade, o que houve nesse caso, pode ter sido excesso de confiança, ou subestimaram o poder de reação do outro Poder.
O primeiro ponto em jogo é a governabilidade. Sem maioria sólida e com uma base heterogênea, o Executivo passa a depender de negociações mais complexas, muitas vezes mais custosas politicamente. Ao governo cabe o reconhecimento de que as decisões do Legislativo nem sempre guardam coerência com as suas posições e que existe o detalhe de uma autonomia do outro lado que precisa ser compreendida.
O segundo aspecto central é o reposicionamento das forças políticas. Partidos e lideranças começam a calibrar as estratégias, já mirando o próximo ciclo eleitoral. O apoio que hoje parece firme pode se tornar volátil amanhã, dependendo do custo-benefício político. E, nesse caso, o pula-pula pode começar em breve.
Outro ponto sensível é o impacto econômico indireto. A instabilidade política prolongada tende a gerar cautela em investimentos, volatilidade nos mercados e incerteza entre agentes econômicos. Ainda que não haja uma crise imediata, o ruído político constante compromete a previsibilidade, um dos ativos mais importantes para qualquer economia.
Quando os Poderes entram em tensão permanente, o custo final recai sobre a sociedade, que paga pela instabilidade com menos crescimento, menos previsibilidade e menos oportunidades E, geralmente, quando entram em rota de colisão, é aí onde mora o perigo!
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público (Salvador-BA).
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

5 Comentários
Sempre oportunos artigos. O último parágrafo diz tudo. Se não houver coerência de nada adiantará as divergências. O pior é que isso só piora no dia a dia… ou melhor, dia e noite!!!
Bom dia, caro Agenor!
Mais do que exercer o papel de editor, sinto-me, a cada domingo, um leitor atento e privilegiado ao acompanhar seus editoriais. Seus textos revelam lucidez, sensibilidade e um olhar profundamente analítico sobre os acontecimentos que moldam o presente e influenciam o futuro do nosso país.
Com inteligência e equilíbrio, você consegue revisitar fatos recentes, interpretar os movimentos da política nacional e provocar no leitor uma reflexão necessária sobre os desafios e caminhos da sociedade brasileira. Seus editoriais não apenas informam — eles despertam consciência, ampliam horizontes e nos convidam a enxergar além das manchetes do cotidiano.
O texto “Editorial – O Olhar Atento dos Poderes e a Nova Tensão Política” é mais uma demonstração da sua capacidade de unir conhecimento, visão crítica e clareza na exposição dos fatos. A analogia com a Praça dos Três Poderes foi brilhantemente construída, transmitindo ao leitor a permanente vigilância e o delicado equilíbrio que sustentam a democracia brasileira.
Além disso, a forma como você contextualiza os recentes acontecimentos políticos, especialmente os desdobramentos no Senado Federal, mostra maturidade intelectual e profundo entendimento das engrenagens institucionais do país. Seu editorial vai além da narrativa política: ele evidencia os reflexos dessas tensões na governabilidade, na economia e, sobretudo, na vida da população.
Parabéns pela consistência, pela coragem e pela qualidade dos seus escritos. Em tempos de tanta polarização e superficialidade, ler seus editoriais é encontrar um espaço de reflexão séria, responsável e necessária.
Continue nos brindando com esse olhar atento, crítico e comprometido com a boa informação.
Grande abraço!
Excelente crônica, amigo Agenor. Parabéns. (Salvador-BA).
Quando um lado não tem “estatura” suficiente pra enxergar o que é bom para o país e o seu povo, realmente fica difícil. O mundo todo tá errado quando admira e aplaude nosso presidente, enquanto a Direita continua na sua sanha, de quanto pior melhor pra eles. (Salvador-BA).
O que estava em jogo aí nesta decisão do Alcolumbre professor, é que ele fez um conchave com os aliados para que não houvesse a cpmi do banco master porque iria cair muita gente, e agora já foi a tona o envolvimento do Ciro Nogueira e aí vai dar prosseguimento pela PF no caso que as maior fraude financeira que já houve no país, está é a verdade. (Uibaí-BA).