Diante das frequentes tensões do cotidiano político e das incertezas provocadas pelas oscilações econômicas, o brasileiro não vive apenas um cenário de preocupação, vive sob pressão constante. Entre crises que se sucedem e expectativas que não se consolidam, instala-se uma sensação persistente de instabilidade. Assistimos diariamente, na verdade, a muito blá, blá, blá, em todas as esferas de governo e poucas entregas. E, nesse contexto, uma pergunta se impõe com crescente urgência: estamos, de fato, construindo o futuro ou apenas reagindo ao presente?
A dinâmica política brasileira, especialmente em períodos de maior turbulência, tem reforçado uma lógica preocupante: a da reação contínua. Governos operam pressionados por entregar respostas imediatas, o Congresso se movimenta ao ritmo das urgências do momento, e o debate público se limita, muitas vezes, à superfície dos acontecimentos. Com uma ressalva: só debatem e aprovam, inclusive com urgência urgentíssima aquilo que é do estrito interesse deles.
Nesse ambiente, o planejamento de longo prazo perde espaço para medidas emergenciais. São ações necessárias, muitas vezes inevitáveis, mas que, isoladas, não corrigem distorções históricas nem reposicionam o país em uma trajetória consistente de desenvolvimento. Daí fica para trás tudo que for de essencial e estruturante.
As decisões direcionadas para conter as crises imediatas, embora necessárias não substituem as estratégias imprescindíveis para estabelecer as regras do desenvolvimento. Programas são interrompidos, prioridades são redefinidas a cada ciclo político e políticas públicas deixam de ser projetos de Estado para se tornarem iniciativas circunstanciais. O país passa a administrar crises recorrentes sem alterar, de forma estrutural, as bases que as produzem.
Os efeitos recaem diretamente sobre a população, sobretudo as camadas mais vulneráveis. A ausência de continuidade fragiliza resultados, a instabilidade compromete a confiança e a percepção de futuro se enfraquece. Ou seja, nada se enxerga de positivo sobre o adiante do agora. Nada além se vislumbra, e uma inércia termina tomando conta do sistema, de tudo e de todos, infelizmente.
Governar é, inevitavelmente, lidar com o presente. Crises existem e exigem respostas. O problema não está na urgência, mas na sua transformação em método permanente de gestão. Quando o imediato se torna regra, o estratégico deixa de existir.
Ao mesmo tempo em que enfrenta os desafios do presente, é impositivo estar conectado com a construção das bases para o desenvolvimento num futuro que chega sempre veloz, e que não admitirá os improvisos do passado.
Pensar o futuro exige mais do que intenção. Exige capacidade de sustentar políticas, atravessar ciclos políticos e reconhecer que transformações estruturais – como na educação, na infraestrutura e na produtividade – não produzem efeitos imediatos, mas definem o destino de uma nação.
O Brasil já demonstrou, em diferentes momentos, capacidade de avançar. O que tem faltado não é impulso, mas continuidade. Entre avanços e recuos, consolidou-se uma cultura de curto prazo que limita conquistas e perpetua instabilidades.
Um detalhe importante, porém, jamais poderá ser esquecido. Não se pode priorizar o combate às crises do momento, deixando de lado a definição da trajetória que deseja construir para o país do futuro. Porque, como consequência, na ausência de um projeto de futuro, o presente deixa de ser ponto de partida e passa a ser o próprio destino.
É nesse ponto que se impõe uma escolha silenciosa, mas decisiva: priorizar apenas o combate às crises do presente ou definir, com clareza, a trajetória que se deseja construir. Porque, na ausência de um projeto de futuro, o presente deixa de ser ponto de partida e se transforma em limite. E um país que transforma o presente em limite, abdica, silenciosamente, do próprio futuro.
Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público (Salvador-BA).
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

2 Comentários
Caro Agenor, o editorial reafirma sua capacidade de provocar reflexão qualificada ao abordar, com clareza, a tensão entre reagir ao presente e construir o futuro. Ao destacar que a ausência de continuidade fragiliza resultados e que o país segue administrando crises sem enfrentar suas causas estruturais. Você conduz o leitor a uma questão central: qual trajetória desejamos, de fato, construir? Trata-se de uma análise pertinente e necessária, que reforça a importância de transformar o presente em ponto de partida – e não em limite – para o futuro.
Artigo por demais importante. Relata a inércia do presente com eles apenas trocando farpas e puxando a sardinha para suas brasas, e com referência ao futuro apenas interessados com suas candidaturas para conquistar uma condição de vida cheia de faculdades. Ao povo, impostos e deficiências nos serviços públicos. ou seja, eles não estão nem ai para presente ou futuro.