
Mais uma vez as negociações de um acordo para encerrar o conflito entre EUA e Israel contra o Irã fracassaram. Neste fim de semana, o chanceler iraniano foi embora de Islamabad e a delegação norte-americana sequer viajou para o Paquistão, que tem servido de mediador entre as partes envolvidas na guerra. O cenário segue o mesmo há semanas: sem confrontos militares diretos, mas com o Irã bloqueando o Estreito de Ormuz e os EUA bloqueando os portos iranianos.
Sem guerra – EUA e Irã não têm interesse em retomar a guerra neste momento, embora a possibilidade de um recomeço dos combates seja elevada nos próximos dias e semanas diante da tensão na região. Os dois lados buscam, com os respectivos bloqueios, elevar o custo do conflito para o adversário, conseguindo desta forma mais concessões em negociações. Combates militares poderiam ser retomados, mas, em algumas semanas, os dois países inevitavelmente precisariam voltar para a mesa de negociações.
Duplo bloqueio – Os EUA e o Irã têm pagado um preço elevado pelo bloqueio. O problema é que tanto Washington quanto Teerã acreditam ser capazes de sobreviver por mais tempo ao atual status quo e que o adversário acabará capitulando em algum momento. Mas, ao calcularem da mesma forma, ambos ficam mais reticentes em fazer concessões agora, à espera de uma capitulação futura do inimigo.
Status quo insustentável – Em algum momento, no entanto, o status quo será insustentável tanto para os EUA quanto para o Irã. Para os EUA, o aumento dos preços do petróleo, do gás e dos fertilizantes impacta a economia mundial e especialmente regional. O risco inflacionário é enorme, e o retorno a um patamar de preços pré-guerra é cada vez mais difícil. Para o Irã, com a economia em crise, o bloqueio aos portos na prática destrói o que resta do país, inviabilizando ainda mais uma reconstrução.
Quem se moverá primeiro? – Cada um dos lados terá de tomar uma decisão em breve, em um cenário de teoria dos jogos, no qual ambos preferem aguardar qual peça o adversário irá mexer. Na prática, tanto os EUA quanto o Irã podem optar por negociar e fazer fortes concessões ou podem escalar o conflito com o objetivo de alterar o cálculo do adversário, que não tem acontecido com o bloqueio.
Perdedor – Mas quem agir primeiro tende a perder. Isto é, se os EUA quebram o cessar-fogo e atacam o Irã, será visto como o responsável pela retaliação iraniana, que tende a aprofundar ainda mais o impacto econômico internacional. O inverso também ocorre: se o Irã quebrar a trégua, será visto em todo o mundo como o responsável pelo aprofundamento da crise e também internamente, pelo enorme efeito da retomada dos bombardeios norte-americanos e israelenses. Portanto, ninguém se move.
Fragilidade – Caso os EUA aceitem fazer concessões, entrarão com uma maior fragilidade nas negociações e terão dificuldades em conseguir emplacar suas demandas. Mais uma vez, o inverso ocorre com os iranianos se optarem por fazer concessões. Tendem a ser vistos como fracos, e os meses de conflito pouco terão servido para o regime, além da sobrevivência.
Primeira etapa – Um acordo seria possível neste momento com foco na questão nuclear. Basicamente, os dois lados levantariam os bloqueios em uma primeira etapa. Aliás, este era o plano do Paquistão que o Irã respeitou ao anunciar a reabertura do Estreito de Ormuz, mas os EUA sabotaram ao anunciar que manteriam o bloqueio aos portos iranianos. Ainda há espaço, no entanto, para os dois lados levantarem o bloqueio.
Acordo nuclear – Uma vez na mesa de negociações, o mais simples seria um foco na questão nuclear e o levantamento de sanções, seguindo a receita do JCPOA, que é o nome do acordo negociado por Barack Obama e as outras potências com o Irã em 2015. Os parâmetros seriam outros, naturalmente, e tenderiam a envolver uma moratória no enriquecimento de urânio pelos iranianos em troca do levantamento de sanções. O obstáculo seguiria sendo os 400 quilos de urânio enriquecido a 60% que o Irã possui, bem próximo do nível necessário para a fabricação da bomba atômica.
Hezbollah – O apoio ao Hezbollah tende a ser negociado em outra frente, no diálogo entre Líbano e Israel — e a possibilidade de colapso é enorme. Já o Estreito de Ormuz seria mais simples, com o fim dos bloqueios. Na prática, queiram os EUA ou não, o Irã, junto com Omã, sabe que manterá indefinidamente a capacidade de abrir e fechar a passagem independentemente do que for delineado no acordo. Ainda que as linhas de um acordo sejam conhecidas, a probabilidade maior neste momento é uma escalada militar diante da tensão em Ormuz, ainda que nenhum dos lados queira e ambos paguem um preço elevado por isso.
Fonte: https://view.assinanteoglobo.com.br
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