
Por: Florisvaldo F. dos Santos Articulista do Blog do Florisvaldo – Informação com Imparcialidade.
Quem deve responder por uma tragédia provocada por uma arma de fogo? Apenas quem aperta o gatilho? Ou também aqueles que, diante de sinais evidentes de perigo, contribuíram para que aquele disparo se tornasse possível?
A recente condenação do pai de um adolescente responsável pela morte de quatro pessoas, nos Estados Unidos, reacendeu um debate que ultrapassa as fronteiras daquele país. Ao entender que ele ignorou sucessivos sinais de alerta sobre o comportamento do filho e, ainda assim, lhe proporcionou acesso à arma utilizada no ataque, a Justiça estabeleceu um importante precedente: a responsabilidade pode alcançar quem, por negligência ou omissão, cria as condições para que uma tragédia aconteça.
Sob o aspecto jurídico, a decisão representa um avanço. A Justiça reafirma que determinadas condutas não podem ser tratadas como simples descuido quando delas decorrem consequências irreparáveis. Contudo, por mais importante que seja essa condenação, ela desperta uma reflexão inevitável: estamos aperfeiçoando a punição ou ainda falhando na prevenção?
A verdade é que nenhuma tragédia começa no instante em que o gatilho é acionado. Ela costuma iniciar muito antes, quando sinais de perigo são ignorados, quando responsabilidades são negligenciadas, quando o diálogo é substituído pela indiferença e quando decisões equivocadas permitem que o risco cresça silenciosamente.
A Justiça exerce um papel indispensável. Ela pune, corrige e reafirma os limites da lei. Mas sua atuação acontece depois que vidas já foram perdidas. A prevenção, por sua vez, depende da família, da escola, da comunidade, das instituições públicas e da própria sociedade. Uma sentença pode produzir justiça; somente a prevenção é capaz de preservar vidas.
Esse episódio também conduz a outra discussão, igualmente necessária: a facilidade de acesso a armas de alto poder letal. Não se trata, aqui, de negar direitos ou de alimentar divisões ideológicas. Trata-se de reconhecer que toda liberdade deve caminhar lado a lado com a responsabilidade.
A liberdade é um dos maiores patrimônios de uma sociedade democrática. Porém, ela jamais significou ausência de limites. Quanto maior o potencial de causar danos, maior deve ser o compromisso com o uso responsável. Esse princípio vale para a condução de um veículo, para o exercício de uma profissão, para a guarda de medicamentos e, com ainda mais razão, para a posse e o acesso a armas capazes de tirar vidas em poucos segundos.
Há quem sustente que o problema não está na arma, mas exclusivamente em quem a utiliza. É um argumento legítimo e merece respeito. Entretanto, também é legítimo perguntar se o acesso facilitado a instrumentos de elevado poder letal não amplia as consequências de impulsos, conflitos, desequilíbrios emocionais ou atos de violência que, de outra forma, talvez produzissem resultados menos devastadores.
Toda arma utilizada para matar percorreu um caminho. Primeiro foi concebida e fabricada. Depois foi comercializada dentro dos limites estabelecidos pela legislação. Em seguida, alguém decidiu adquiri-la, guardá-la ou disponibilizá-la. Finalmente, chegou às mãos de quem resolveu transformá-la em instrumento de morte. Em cada uma dessas etapas existe uma decisão humana e, consequentemente, uma parcela de responsabilidade.
É evidente que a culpa principal pertence àquele que pratica o crime. Nada diminui essa responsabilidade. Mas isso não impede a sociedade de refletir sobre todas as circunstâncias que contribuíram para que o crime pudesse acontecer. Prevenir é, justamente, interromper esse caminho antes que ele termine em tragédia.
A condenação do pai talvez entre para a história como um marco jurídico. Mais do que estabelecer uma punição exemplar, ela lança um alerta às famílias, aos legisladores e a toda a sociedade: nenhuma lei, por mais rigorosa que seja, conseguirá devolver as vidas perdidas.
O verdadeiro desafio continua sendo evitar que novas tragédias aconteçam.
Porque nenhuma tragédia surge por acaso. Ela é construída por uma sucessão de escolhas, de omissões e de responsabilidades compartilhadas.
No fim das contas, a responsabilidade não começa quando o gatilho é acionado. Ela começa muito antes: nas leis que aprovamos, na educação que oferecemos, nos valores que transmitimos às novas gerações, no cuidado que dedicamos aos sinais de sofrimento e nas decisões que tomamos diariamente.
A Justiça pode condenar os culpados.
Mas somente uma sociedade consciente será capaz de impedir que novas vítimas precisem existir.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

2 Comentários
PRIMEIRO lugar quem foi displicente. SEGUNDO lugar quem não teve os devidos cuidados. TERCEIRO lugar quem não evitou com sua irresponsabilidade a tragédia. E por aí vai..
Parabéns ao nobre amigo Editor Florisvaldo, pela perfeição e clareza do seu artigo, sobre tema tão importante na vida das pessoas. A Justiça americana considera o jovem a partir de 16 anos responsável pelos crimes que comete e nada mais correto do que ter condenado o pai desse jovem que matou 4, como corresponsável. O nosso código penal precisamente urgentemente se ajustar a essas regras. A violência aqui no Brasil está crescendo assustadoramente! (Salvador-bA).