
Por: Florisvaldo F. dos Santos
Na noite de São João, recebi uma mensagem do meu velho amigo Dilmo Bantim Moreira.
Poucas palavras.
Mas palavras que carregavam cinquenta e sete anos de amizade.
“Mestre Florisvaldo, boa noite. Compartilho contigo uma noite de ‘terra da garoa’ como há muito tempo não via em Sampa.”
Confesso que fiquei alguns minutos olhando aquelas imagens.
Não pelas fotografias em si.
Mas porque elas tinham o poder de fazer aquilo que nem a mais sofisticada máquina do tempo conseguiria.
Levar-me de volta a 1969.
Naquele ano, um jovem de apenas dezenove anos desembarcava em São Paulo trazendo na bagagem muitos sonhos e quase nenhuma roupa apropriada para enfrentar o inverno paulista.
Esse jovem era eu.
Vinha de Cansanção, no sertão baiano.
Uma terra onde o sol parecia nunca tirar férias.
Onde o calor fazia parte da paisagem.
Onde o mormaço era companheiro diário.
Até então, eu conhecia apenas três estações do ano: calor, mais calor e muito calor.
Foi em São Paulo que descobri outra estação.
A estação da garoa.
Nunca esquecerei aquele frio.
Nem aquela chuva miúda que parecia não molhar ninguém, mas, quando percebíamos, já havia encharcado o paletó, os cabelos e até os pensamentos.
Naquele tempo, São Paulo fazia jus ao apelido de Terra da Garoa.
Era uma cidade cinzenta.
Elegante.
Silenciosa.
A garoa não chegava impondo sua força.
Chegava quase pedindo licença.
Embaciava as vitrines.
Escondia o topo dos edifícios.
Transformava os postes em pequenos pontos luminosos perdidos na neblina.
Foi também naquela São Paulo que conheci Dilmo.
Não me lembro do dia exato.
Nem da hora.
Mas lembro perfeitamente do que nasceu ali.
Uma amizade sincera.
Daquelas que dispensam apresentações.
Daquelas que sobrevivem às mudanças de endereço, às obrigações da vida, ao passar das décadas e até aos longos períodos de silêncio.
O tempo fez sua parte.
Mudou a cidade.
Mudou nossas vidas.
Mudou nossos cabelos.
Mudou nossas prioridades.
São Paulo deixou de ser a mesma.
A velha garoa tornou-se cada vez mais rara.
As avenidas ficaram maiores.
Os edifícios multiplicaram-se.
A velocidade tomou conta da cidade.
Mas há coisas que o tempo não consegue mudar.
Na madrugada de 23 de junho deste ano, enquanto caminhava por São Paulo, Dilmo encontrou uma cena que parecia esquecida pelo tempo.
A velha garoa havia voltado.
Não para molhar a cidade.
Mas para molhar nossas lembranças.
Ao ver aquela paisagem envolvida pela névoa, ele poderia simplesmente admirá-la e seguir seu caminho.
Mas fez algo muito mais bonito.
Lembrou-se de um amigo.
Fotografou a cena.
Pegou o celular.
E fez a garoa viajar centenas de quilômetros.
Quando aquelas imagens chegaram até mim, percebi que não estava recebendo apenas fotografias.
Estava recebendo um abraço.
Existem amizades que conversam todos os dias.
Outras passam semanas ou meses sem uma palavra.
Mas basta um gesto.
Uma lembrança.
Uma fotografia.
E tudo continua exatamente de onde havia parado.
Foi isso que senti.
As imagens mostravam uma São Paulo envolvida pela garoa.
Eu, porém, enxergava muito mais.
Via o rapaz baiano chegando assustado pelo frio.
Via os primeiros passos numa cidade desconhecida.
Via sonhos sendo construídos.
Via uma amizade começando.
E compreendi que a garoa daquela noite não estava apenas caindo sobre São Paulo.
Ela estava lavando a poeira que o tempo havia depositado sobre nossas memórias.
Hoje tenho 76 anos.
Dilmo continua sendo aquele amigo que Deus colocou em meu caminho quando eu ainda tentava descobrir meu lugar no mundo.
As fotografias que ele me enviou não registraram apenas uma cidade.
Registraram uma história.
A nossa história.
No fim das contas, talvez São Paulo já não seja mais a mesma Terra da Garoa.
Talvez a garoa apareça cada vez menos.
Mas descobri que existe uma chuva que nunca deixa de cair.
É aquela que um amigo faz nascer dentro da alma quando, em meio à correria da vida, encontra uma paisagem, lembra-se de você e decide compartilhá-la.
Porque a garoa passa.
Mas a verdadeira amizade…
Essa permanece para sempre.

Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

1 comentário
Mestre Florisvaldo, para quem se diz não muito habituado a crônicas, você está se ‘saindo melhor que a encomenda’!
Vamos nesse fraterno abraço, digital e espiritual, trocando impressões, lembranças e regando essa amizade bacana!!!