
Por: Florisvaldo F. dos Santos
11 de agosto. Dia do Advogado, Dia do Garçom e Dia do Pendura.
O que essas três datas, aparentemente tão diferentes, fazem juntas no calendário?
A pergunta me levou de volta à memória de um lugar que conheço há mais de três décadas: o velho Centro de São Paulo, especialmente aquele quadrilátero formado pelo Largo São Francisco, Rua Direita, Rua Líbero Badaró e Rua José Bonifácio.
Para quem apenas passa por ali, pode ser apenas mais uma parte da cidade. Para quem teve a oportunidade de conviver com aquele pedaço de São Paulo, porém, o quadrilátero guarda nomes, vozes, personagens e histórias que o tempo não consegue apagar.
Há lugares que a gente visita. E há lugares que passam a morar dentro da gente.
O Largo São Francisco é um deles.
Ali está a tradicional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, cuja história se mistura à própria história de São Paulo e do Brasil. Mas a vida daquela instituição nunca esteve limitada às suas arcadas. Ela atravessava as portas, ganhava as calçadas, chegava aos restaurantes e se prolongava nas mesas, onde estudantes discutiam Direito, política, futebol, literatura e a própria vida.
Era uma época em que o Centro tinha outro ritmo.
O quadrilátero da memória
Caminhar pela Rua Direita, atravessar a Líbero Badaró, chegar à José Bonifácio e retornar ao Largo São Francisco era percorrer, de certa maneira, uma pequena cidade dentro da grande São Paulo.
Ali se encontravam estudantes, advogados, comerciantes, funcionários públicos, jornalistas, trabalhadores e tantos personagens anônimos que davam vida às ruas.
Talvez aquele quadrilátero tenha tido, ao longo dos anos, algumas testemunhas privilegiadas.
Na Rua Líbero Badaró, a Casa Godinho, fundada em 1888 e instalada naquele endereço desde 1924, atravessou gerações vendo passar diante de suas portas uma cidade que mudava sem perder completamente seus antigos hábitos.
E, na Rua José Bonifácio, a Joalharia Conde de Monte Cristo também fazia parte daquela paisagem comercial que ajudava a dar identidade ao velho Centro.
Mas havia outra testemunha, algumas portas adiante.
O Restaurante Itamarati tornou-se ponto de encontro de estudantes, advogados e personagens do mundo jurídico. Entre suas mesas, o Direito se misturava à conversa, à boemia e à irreverência do tradicional pendura.
Quando a conta virava tradição
O 11 de agosto, além de marcar a tradição jurídica brasileira, transformou-se também em uma data de irreverência estudantil.
No chamado pendura, estudantes de Direito frequentavam restaurantes próximos à Faculdade e, dentro da tradição, deixavam a conta “pendurada”.
Com o tempo, a prática ganhou diferentes formas, versões e controvérsias. Mas permaneceu como parte do folclore acadêmico do Largo São Francisco.
E o Itamarati tornou-se um dos cenários mais conhecidos dessa história.
Mas toda história de restaurante tem personagens que quase nunca aparecem quando dela se fala.
Os garçons.
Mirandinha, testemunha de uma época
Talvez ninguém conheça melhor a vida de um restaurante do que um bom garçom.
Ele vê quem chega, quem parte, quem comemora, quem se preocupa, quem conversa demais e quem prefere permanecer em silêncio.
Escuta histórias que jamais serão registradas.
No Itamarati, um desses personagens foi José Moreira Miranda, o Mirandinha, que trabalhou durante cerca de quatro décadas no restaurante e acompanhou gerações de estudantes, advogados e figuras ligadas ao mundo jurídico.
Mirandinha não era apenas quem levava a bandeja.
Era testemunha de uma época.
Viu estudantes chegarem e, anos depois, retornarem como advogados. Viu amizades nascerem. Viu conversas começarem como brincadeira e terminarem em negócios. Viu o Direito sair das salas de aula e ganhar as mesas do restaurante.
Enquanto o advogado e o estudante apareciam naturalmente como protagonistas, o garçom observava tudo de um lugar privilegiado:
entre uma mesa e outra, ele via a cidade passar.
Talvez seja por isso que sua presença seja tão importante nesta história.
Três testemunhas
E então percebo que aquele quadrilátero teve, de certa maneira, três testemunhas privilegiadas.
Uma Casa Comercial, um Restaurante e um Garçom.
A Casa Godinho guardou a memória do comércio.
O Itamarati guardou a memória das mesas.
E Mirandinha guardou a memória das pessoas.
Cada qual à sua maneira, testemunhou fragmentos de uma São Paulo que o tempo foi transformando.
E acima de todos eles, silencioso, estava o Largo São Francisco.
Ele viu estudantes chegarem, advogados se formarem, comerciantes abrirem suas portas, garçons servirem suas mesas e gerações inteiras atravessarem suas calçadas.
Não sei se aquela São Paulo era melhor.
Talvez fosse apenas diferente.
Algumas fachadas permanecem. Outras desapareceram. Novos estabelecimentos chegaram, enquanto alguns nomes ficaram apenas na lembrança de quem os conheceu.
Mas a memória tem uma maneira curiosa de conservar aquilo que o tempo modifica.
Basta uma esquina, um nome, uma fachada ou uma data no calendário.
E, de repente, o passado volta a caminhar ao nosso lado.
Afinal, o que eles têm em comum?
Talvez essa seja a resposta para a pergunta que abriu esta crônica.
O que têm em comum o advogado, o pendura e o garçom?
Têm em comum um lugar.
Um quadrilátero de ruas onde a vida acadêmica encontrou o comércio, onde o Direito encontrou a boemia e onde as histórias encontraram quem pudesse contá-las — ou simplesmente guardá-las.
Talvez seja por isso que o calendário tenha aproximado essas três lembranças.
Porque, no velho Largo São Francisco, o advogado, o estudante e o garçom sempre estiveram mais próximos do que poderia parecer.
O advogado precisava da mesa.
O estudante precisava do restaurante.
E o restaurante precisava do garçom.
Eram tempos em que uma cidade também se fazia assim: nas ruas, nas conversas e ao redor de uma mesa.
Hoje, quando a memória me leva novamente por aquele quadrilátero, talvez eu encontre uma São Paulo diferente daquela que conheci.
Mas ainda consigo imaginar o Largo São Francisco movimentado, estudantes entrando e saindo, vozes ocupando as calçadas, o Itamarati recebendo seus frequentadores e um garçom passando entre as mesas com a bandeja nas mãos.
E compreendo que algumas histórias não terminam quando fecham suas portas.
Elas continuam abertas dentro de nós.
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