
Por: Florisvaldo F. dos Santos
Há notícias que informam. Outras assustam. E algumas, quando começam a se repetir, deixam de ser apenas notícia e passam a exigir reflexão.
Foi com esse sentimento que recebemos a notícia da morte de Rachel Furtado, de 46 anos, após sofrer um mal súbito no Parque da Cidade, em Brasília.
Rachel era triatleta e praticante habitual de atividades físicas. Naquele dia, havia terminado seu treino de corrida, conversado com pessoas e ido até o carro buscar o celular. Na volta, passou mal e foi encontrada caída. Um médico que estava no local iniciou as manobras de reanimação, posteriormente continuadas pelas equipes de emergência. Ela chegou a ser encaminhada ao hospital, mas não resistiu.
E, novamente, o coração interrompe uma vida ligada ao esporte.
Não é a primeira vez que este Blog aborda o assunto – e gostaríamos que não houvesse motivos para voltar a ele.
Quando publicamos a morte do jovem fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, manifestamos nossa preocupação diante de uma vida interrompida tão precocemente. Depois, em “Músculos, medalhas e o preço da vaidade”, diante de outros casos de mortes precoces no fisiculturismo, ampliamos a reflexão para os excessos, os limites do corpo e os riscos que podem acompanhar a busca pelo desempenho e pela aparência.
O caso de Rachel, entretanto, nos leva por outro caminho.
Até que haja uma conclusão médica, não existe razão para relacionar sua morte a excesso de treinamento, uso de substâncias ou qualquer outra hipótese. Fazer isso seria irresponsável.
Mas o episódio deixa uma pergunta inquietante:
Estar em boa forma significa necessariamente estar protegido?
A medicina nos mostra que não.
Embora a morte súbita entre atletas seja rara, algumas doenças cardiovasculares podem permanecer silenciosas e somente serem descobertas por investigação médica — ou, tragicamente, diante de um evento inesperado.
Isso não transforma o exercício físico em vilão. Muito pelo contrário. Seus benefícios à saúde são amplamente reconhecidos.
O alerta é outro: aparência saudável e bom condicionamento físico não são certificados absolutos de saúde.
Medimos quilômetros, tempo, velocidade, peso, massa muscular, calorias e batimentos cardíacos. Relógios e aplicativos acompanham quase tudo.
Mas será que conhecemos, com a mesma atenção, aquilo que o nosso corpo não mostra?
Avaliação médica, histórico familiar, atenção a sintomas e acompanhamento adequado à intensidade da atividade física não eliminam todos os riscos. Podem, entretanto, ajudar a identificar condições que permanecem silenciosas.
E há ainda uma segunda reflexão: estamos preparados quando o inesperado acontece?
Quantos parques, academias, clubes e espaços esportivos possuem protocolos de emergência, pessoas capacitadas para uma reanimação e acesso rápido a um desfibrilador?
Quando escrevemos anteriormente que “o coração não conhece medalhas”, nossa preocupação estava voltada aos excessos e aos limites do corpo.
Hoje acrescentamos:
O coração também não pede licença.
Não pergunta a idade, não consulta o cronômetro e tampouco se impressiona com a aparência saudável de quem corre, nada, pedala ou levanta pesos.
Não se trata de praticar esporte com medo. Trata-se de praticá-lo também com prevenção.
Porque cuidar da saúde não é apenas treinar, alimentar-se bem ou perseguir resultados. É conhecer o próprio corpo — inclusive aquilo que ele pode estar silenciosamente escondendo.
E nós, que tanto cuidamos daquilo que aparece no espelho, estamos cuidando com a mesma atenção daquilo que ele não consegue mostrar?
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade
