Por: Florisvaldo F. dos Santos
Há datas que convidam à comemoração. Outras parecem pedir algo mais: reflexão.
Neste 5 de setembro, Dia da Amazônia, talvez seja esse o melhor olhar para a maior floresta tropical do planeta. Não apenas contemplar sua grandeza, seus rios, sua biodiversidade e a imensidão verde que atravessa fronteiras, mas procurar entender os sinais que ela nos envia.
O Dia da Amazônia foi instituído nacionalmente pela Lei nº 11.621, de 19 de dezembro de 2007. A escolha da data remete à criação da antiga Província do Amazonas, em 5 de setembro de 1850, durante o Império de Dom Pedro II.
Passados mais de 170 anos daquele episódio histórico, a dimensão da palavra Amazônia tornou-se muito maior.
Segundo o IBGE, o Bioma Amazônia ocupa aproximadamente 49,5% do território brasileiro. É o maior bioma do país e abriga a maior floresta tropical do mundo, extraordinária biodiversidade e uma rede hidrográfica de dimensões igualmente impressionantes.
Mas sua importância não termina onde termina a floresta.
A umidade produzida e transportada pela Amazônia ajuda a abastecer outras regiões do Brasil e da América do Sul. Aquilo que acontece entre as árvores e os rios amazônicos, portanto, pode produzir reflexos a milhares de quilômetros dali.
Talvez por isso seja cada vez mais difícil falar da Amazônia como se estivéssemos falando de um lugar distante.
O ALERTA QUE VEM DO PACÍFICO
Neste Dia da Amazônia de 2026, uma preocupação adicional atravessa o horizonte.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM), organismo especializado das Nações Unidas, informou nesta semana que o El Niño está firmemente estabelecido e deverá se intensificar nos próximos meses, podendo atingir intensidade muito forte. Segundo a entidade, a probabilidade de o fenômeno persistir até fevereiro de 2027 é próxima de 100%.
No Brasil, boletim elaborado por INPE, INMET, ANA, Cemaden e outros órgãos federais aponta tendência de chuvas abaixo da média nas regiões Norte e Nordeste entre setembro e novembro. As temperaturas devem permanecer acima da média em praticamente todo o país. Na Amazônia Legal, a combinação de calor elevado e menor volume de chuvas pode intensificar o déficit hídrico e aumentar o risco de incêndios florestais.
E existe uma razão concreta para acompanhar esse cenário com atenção.
Estudo divulgado pelo MapBiomas e noticiado pela Agência Brasil neste 4 de setembro mostra que 38% das localidades habitadas analisadas na Amazônia tiveram alta exposição aos efeitos do último El Niño. Naquele período, a redução dos níveis dos rios trouxe consequências para transporte, acesso à água, pesca e outras atividades diretamente dependentes dos sistemas fluviais.
Isso não significa afirmar que os mesmos efeitos ocorrerão agora, nem que atingirão toda a Amazônia com a mesma intensidade. A própria OMM ressalta que a força de um El Niño, isoladamente, não determina a gravidade dos impactos em cada região. Outros fatores oceânicos e atmosféricos também interferem nesse complexo sistema.
Mas previsão também serve para uma coisa essencial: permitir que nos preparemos antes que o problema chegue.
A FLORESTA TAMBÉM TEM GENTE
Quando pensamos na Amazônia, é comum imaginarmos árvores gigantescas, rios intermináveis e animais silvestres.
Às vezes esquecemos que a Amazônia também é casa.
Casa de povos indígenas, comunidades tradicionais, ribeirinhos e milhões de brasileiros que vivem em grandes cidades, pequenas comunidades, margens de rios e igarapés.
E é justamente aí que preservação ambiental e qualidade de vida se encontram. Em Manaus, por exemplo, o desafio de levar saneamento às populações que vivem próximas aos igarapés mostra que cuidar da Amazônia também significa cuidar de quem nela vive.
Proteger a Amazônia não pode significar apenas proteger árvores. Significa também garantir água tratada, coleta e tratamento de esgoto, saúde, dignidade e melhores condições de vida.
Talvez esse seja um dos grandes desafios amazônicos do nosso tempo: preservar sem abandonar quem vive na região e desenvolver sem destruir aquilo que torna possível a própria vida.
E chegamos novamente ao 5 de setembro.
Podemos celebrar a Amazônia com fotografias de sua beleza, com o verde quase infinito visto do alto ou com a imponência de seus rios. Tudo isso é verdadeiro e merece admiração.
Mas talvez a melhor homenagem seja outra.
É compreender que a Amazônia não precisa apenas ser admirada. Precisa ser conhecida, pesquisada, protegida e utilizada com responsabilidade.
Porque o El Niño passará, como outros passaram.
As consequências das nossas escolhas, porém, podem permanecer por muito mais tempo.
E a floresta, silenciosamente, continuará fazendo aquilo que sempre fez: respirando, produzindo umidade, alimentando rios, abrigando vidas e ajudando a regular o clima.
A questão que fica neste Dia da Amazônia talvez seja muito simples:
Estamos sabendo ouvir os sinais de que ela nos dá?
Fontes consultadas: Organização Meteorológica Mundial (OMM/WMO); Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); Instituto Nacional de Meteorologia (INMET); Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA); Cemaden; IBGE; Agência Brasil/MapBiomas; legislação federal; g1 e Águas de Manaus.
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