Por: Florisvaldo F dos Santos
Durante mais de vinte anos, Lionel Messi fez com a bola coisas que muitas vezes pareciam desafiar a lógica. Driblou adversários, atravessou defesas, quebrou recordes e encontrou espaços onde aparentemente eles não existiam.
Mas existe um adversário que nenhum jogador conseguiu driblar para sempre: o tempo.
Nesta segunda-feira, 31 de agosto de 2026, aos 39 anos, Messi anunciou sua aposentadoria definitiva da seleção argentina, encerrando uma relação de mais de duas décadas com a camisa azul e branca de seu país.
Não está deixando o futebol. Pelo menos, ainda não.
Está fechando um ciclo que começou em 2005 e terminou dentro de campo em 19 de julho de 2026, justamente numa final de Copa do Mundo.
Não foi a despedida perfeita que talvez os argentinos imaginassem. A Espanha venceu a Argentina por 1 a 0, na prorrogação, e ficou com o título.
Messi chorou.
Mas nem todo choro de derrota significa fracasso.
O TEMPO MUDOU O JOGADOR, NÃO O TALENTO
A Copa do Mundo de 2026 apresentou um Messi diferente daquele que o mundo conheceu nos grandes anos de Barcelona.
Aos 39 anos, naturalmente já não tinha a mesma explosão física do jovem que recebia a bola e partia em direção ao gol deixando adversários pelo caminho.
O tempo diminuiu sua velocidade. Em compensação, parecia ter ampliado sua capacidade de compreender o jogo.
Messi já não precisava correr mais do que os outros.
Precisava pensar antes deles.
E pensou.
Naquela que seria sua sexta e última Copa do Mundo, marcou oito gols, conquistou a Chuteira de Prata e ajudou a conduzir novamente a Argentina à decisão.
Encerrou sua participação em Mundiais com 34 partidas e 21 gols. Na final, aos 39 anos e 25 dias, tornou-se o jogador de linha mais velho a disputar uma decisão de Copa do Mundo.
Os números impressionam. Mas talvez não expliquem completamente o que representou vê-lo, aos 39 anos, ainda tentando levar seu país ao topo do futebol mundial.
ANTES DA GLÓRIA, HOUVE DERROTAS
Messi chegou à Copa de 2026 sem precisar provar mais nada.
Durante boa parte da carreira, entretanto, não foi assim.
Era extraordinário no Barcelona. Ganhava praticamente tudo pelo clube. Mas, na Argentina, as cobranças se acumulavam.
E a comparação com Diego Maradona parecia inevitável.
Messi chegou à final da Copa de 2014 e perdeu para a Alemanha. Também sofreu derrotas em sucessivas decisões da Copa América.
Até que, em 2016, depois de mais uma final perdida para o Chile, anunciou que não jogaria mais pela seleção.
Tinha apenas 29 anos e parecia cansado de tentar sem conseguir.
A despedida durou pouco mais de dois meses.
Messi voltou.
E ainda bem que voltou.
Em 2021, finalmente conquistou a Copa América — e não poderia haver cenário mais simbólico para um argentino: a decisão contra o Brasil, no Maracanã.
Depois veio a Finalíssima de 2022.
E então, o Catar.
A Argentina conquistou a Copa do Mundo depois de 36 anos, derrotando a França em uma das finais mais marcantes da história da competição.
Messi finalmente levantou a taça que faltava.
Em 2024, conquistou novamente a Copa América.
Poderia ter parado ali.
Preferiu tentar mais uma vez.
A ÚLTIMA COPA
Talvez por isso a Copa de 2026 tenha adquirido um significado diferente.
Messi não estava mais tentando responder aos críticos. Não precisava provar que poderia ser campeão mundial. Já era.
Jogava porque ainda acreditava que poderia ajudar.
E ajudou.
Com menor capacidade física, continuava enxergando espaços, antecipando jogadas e sendo decisivo. Marcou oito gols no torneio e foi peça fundamental na campanha que levou a Argentina novamente à final.
O futebol, porém, nem sempre respeita o roteiro que gostaríamos de escrever.
A Espanha venceu por 1 a 0, na prorrogação, e impediu o bicampeonato argentino.
Messi não levantaria outra Copa.
Talvez nem precisasse.
DEZ ANOS ENTRE DUAS DESPEDIDAS
O futebol, às vezes, produz coincidências que parecem escritas para uma crônica.
Em 2016, nos Estados Unidos, Messi anunciou pela primeira vez que deixaria a seleção depois de perder a final da Copa América Centenário para o Chile.
Dez anos depois, novamente nos Estados Unidos e no mesmo estádio de Nova York/Nova Jersey, disputou sua última partida pela Argentina.
Outra final.
Outra derrota.
Mas havia uma enorme diferença entre aqueles dois momentos.
Em 2016, Messi estava indo embora porque acreditava que não conseguira. Em 2026, vai embora sabendo que conseguiu.
Entre uma despedida e outra, conquistou duas Copas América, uma Finalíssima e, principalmente, a Copa do Mundo.
Talvez por isso as lágrimas de 2026 tenham significado algo diferente.
Não eram apenas as lágrimas de quem acabara de perder uma final. Eram também as de alguém que possivelmente sabia estar encerrando uma das histórias mais importantes de sua vida.
SABER A HORA DE PARAR
Messi encerra sua trajetória pela seleção argentina depois de 207 partidas e 125 gols. Foi campeão mundial em 2022, campeão da Copa América em 2021 e 2024 e vencedor da Finalíssima de 2022.
Os números ajudarão a contar sua história.
Mas jamais contarão tudo.
Não registrarão completamente as cobranças, as comparações com Maradona, as derrotas, a primeira despedida, o retorno, as lágrimas, o Maracanã, o Catar e, finalmente, aquela noite de julho de 2026.
Durante muitos anos, discutiu-se se Messi precisava ser colocado ao lado de Maradona.
Talvez já não seja necessário.
Maradona construiu sua história.
Messi construiu a dele.
E há uma última lição nessa trajetória que ultrapassa as quatro linhas de um campo de futebol.
Grandes campeões precisam saber vencer. Precisam também aprender a perder. Mas existe um momento em que precisam tomar uma decisão talvez ainda mais difícil: reconhecer que chegou a hora de parar.
O próprio Messi, ao anunciar sua decisão, deixou claro que sentia ter entregado tudo o que podia à seleção e que uma nova geração merecia ocupar aquele espaço.
Aos 39 anos, fez sua escolha.
A camisa 10 da Argentina será vestida novamente. Outros jogadores chegarão, outros gols serão marcados e outras Copas serão disputadas.
É assim que o futebol continua.
Lionel Messi deixa a seleção não como alguém que venceu sempre, mas como alguém que perdeu, caiu, voltou, insistiu e finalmente venceu.
Talvez esteja justamente aí uma das partes mais humanas de sua genialidade.
Porque até os gênios envelhecem.
Até os gênios perdem.
E, um dia, até os gênios precisam saber a hora de parar.
Colaboração: Cristiano Souza
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade


1 comentário
A decisão de Lionel Messi de se aposentar da seleção argentina coroa uma trajetória genial e profundamente humana. O texto mostra com muita sensibilidade que, mesmo sem o título na final de 2026, ele conseguiu vencer o seu maior crítico: o peso das antigas cobranças. Ao contrário do adeus doloroso de dez anos atrás, o craque agora deixa os gramados internacionais consagrado e em total paz com a sua própria história.