Por: Florisvaldo F. dos Santos
Mais uma notícia envolvendo violência doméstica contra a mulher voltou a ocupar espaço no noticiário. Desta vez, o nome que ganhou destaque foi o do ex-jogador Jadson, conhecido por sua trajetória no futebol brasileiro.
Segundo as informações divulgadas, ele foi preso após uma denúncia de violência doméstica. O caso segue sob investigação, as versões apresentadas pelas partes ainda estão sendo analisadas pela Justiça e, por respeito ao devido processo legal, não cabe aqui antecipar qualquer julgamento.
Mas a notícia provoca uma reflexão que vai muito além de um nome, de um clube ou de um episódio específico.
Estamos ficando mais violentos?
A pergunta parece simples, mas talvez não tenha uma resposta simples.
Todos os dias somos alcançados por notícias de agressões, conflitos familiares, violência contra mulheres e feminicídios. A repetição desses acontecimentos pode produzir a sensação de que a sociedade está se tornando cada vez mais violenta.
Mas será que é exatamente isso que está acontecendo?
Ou será que estamos, finalmente, enxergando e registrando aquilo que durante muito tempo permaneceu escondido dentro das casas, dos relacionamentos e das famílias?
O que os números realmente dizem?
Os dados recomendam cautela antes de qualquer conclusão.
Enquanto alguns indicadores apontam redução dos homicídios de mulheres ao longo da última década, a violência praticada dentro do ambiente doméstico permanece como um dos maiores desafios da sociedade brasileira. Ou seja, o problema continua grave, mas ele não pode ser explicado por uma única causa nem resumido à ideia de que “os homens estão cada vez mais violentos”.
Talvez a pergunta correta seja outra:
Estamos diante de uma sociedade mais violenta ou de uma sociedade que passou a enxergar melhor uma violência que antes era silenciosa?
Provavelmente exista um pouco das duas coisas.
Os relacionamentos estão mais tóxicos?
As relações entre homens e mulheres mudaram profundamente nas últimas décadas. A mulher conquistou maior autonomia, independência e liberdade para decidir sobre a própria vida. Com isso, comportamentos que antes eram tratados como “problemas de casal” passaram a ser reconhecidos como formas de violência.
Isso pode fazer com que hoje sejam denunciadas situações que, em outras épocas, permaneciam escondidas.
Há uma diferença importante entre a violência existir e a sociedade deixar de aceitá-la como algo normal.
Talvez algumas coisas não estejam necessariamente acontecendo mais.
Talvez estejamos simplesmente deixando de considerá-las aceitáveis.
A mídia aumentou a violência ou a nossa percepção dela?
Nunca tivemos acesso a tanta informação.
Uma ocorrência que há poucas décadas permaneceria restrita a um bairro hoje alcança milhões de pessoas em poucos minutos. Essa exposição permanente cria a sensação de que vivemos uma epidemia incontrolável de violência.
Mas a mesma visibilidade que amplia nossa percepção também rompe o silêncio de milhares de vítimas.
O desafio não está apenas em noticiar.
Está em informar sem transformar tragédias em espetáculo.
A lei consegue mudar comportamentos?
O Brasil avançou no fortalecimento da legislação de proteção às mulheres. As penas ficaram mais rigorosas e os mecanismos de proteção foram ampliados.
Tudo isso é necessário.
A punição é necessária.
A proteção às vítimas é indispensável.
Mas talvez exista uma pergunta anterior a todas elas:
O que estamos fazendo para impedir que a violência aconteça?
Porque a lei atua, quase sempre, depois que alguém ultrapassou o limite.
Educar para o respeito, para o diálogo, para lidar com frustrações e para compreender que ninguém é dono de ninguém talvez seja o verdadeiro caminho da prevenção.
A pandemia nos tornou melhores?
Foi durante a pandemia que ouvi uma frase que nunca esqueci.
Alguém dizia que, depois de tanto sofrimento, quando tudo aquilo terminasse, as pessoas certamente seriam melhores.
Eu não tinha tanta certeza.
Naquele momento desenvolvi uma teoria muito simples.
Pensava que as pessoas que já eram boas poderiam tornar-se um pouco melhores diante de tanta dor coletiva. Mas aquelas que já carregavam dentro de si intolerância, egoísmo, violência ou dificuldade de conviver continuariam sendo como eram — e talvez algumas se tornassem ainda piores.
Não apresento isso como uma verdade científica.
É apenas uma reflexão de quem observou o comportamento humano durante um dos períodos mais difíceis da nossa geração.
Hoje, olhando para o mundo ao nosso redor, continuo acreditando que as crises não criam necessariamente um novo caráter.
Elas apenas iluminam o caráter que já existia.
O espelho que a pandemia deixou
Durante aqueles meses vimos gestos extraordinários de solidariedade.
Vimos profissionais arriscando a própria vida para salvar desconhecidos.
Vimos vizinhos ajudando vizinhos.
Mas também vimos intolerância, egoísmo, violência e incapacidade de conviver com as diferenças.
A pandemia não inventou essas pessoas.
Ela apenas revelou, com mais intensidade, aquilo que já habitava dentro delas.
Talvez o mesmo aconteça com muitos relacionamentos.
Momentos de pressão aproximam alguns casais.
Outros apenas expõem rachaduras que já existiam.
Depois da notícia, ficam as perguntas
Talvez uma notícia como essa não deva servir apenas para alimentar indignação momentânea.
Ela pode nos levar a perguntas maiores.
Estamos ensinando nossos filhos a respeitar o outro?
Estamos preparando as pessoas para lidar com o “não”, com a frustração e com o fim de uma relação?
Estamos formando cidadãos capazes de dialogar antes de agredir?
A violência contra a mulher precisa ser enfrentada com firmeza. Isso não está em discussão.
Mas combatê-la não significa transformar todos os homens em suspeitos, assim como defender as mulheres não significa abandonar o devido processo legal ou substituir a Justiça pelo tribunal das redes sociais.
Significa reconhecer um problema real, proteger quem precisa ser protegido, responsabilizar quem efetivamente cometer violência e, sobretudo, trabalhar para que ela não aconteça.
Porque depois que a violência acontece, a Justiça pode agir.
Antes dela acontecer, a responsabilidade é de toda a sociedade.
E talvez a pergunta mais importante não seja se a pandemia nos tornou melhores.
Talvez seja outra:
O que fizemos com tudo aquilo que ela nos ensinou sobre nós mesmos?
Blog do Florisvaldo – Informação com Imparcialidade

4 Comentários
Acredito que pandemia x redes sociais andam juntos, afinal as redes sociais explodiram na pandemia, pois estávamos isolados e as redes eram nossa “liberdade” com isso as pessoas se tornaram corajosas em “dizer” tudo o que pensam na internet. As vezes vejo notícias e ao ler os comentários me assunto com a raiva que as palavras são escritas, um ódio crescente e perigoso. Então pra mim não, a pandemia não nos tornou melhores, ela só fez aflorar em cada um aquilo que ele já era e em conjunto com a valentia que se vê nas redes sociais eu temo pelo futuro, principalmente da minha filha.
O problema não é a pandemia. nem será. O problema é de dona humanidade que desde o princípio dos tempos. apresenta os piores momentos que se possa imaginar. Aquela infame doença poderia ter mudando um pouco o sentimento de empatia e solidariedade, mas. ficou tudo pior e piorado. infelizmente, a mulher tem sofrido brutalidades nunca vistas. QUE VERGONHA TUDO ISSO!
Florisvaldo, bom dia!
Li o seu artigo e gostaria de parabenizá-lo pela sensibilidade e profundidade da reflexão.
Um texto maduro, necessário e que cumpre perfeitamente o papel de propor a reflexão antes do julgamento apressado. Parabéns pelo trabalho no Blog!
David Verissimo – Brasília/DF
Você foi longe e filosofou com profundidade, amigo! São muitas e complexas as perguntas geradas pelo seu texto, que nos oferecem a oportunidade de ampliar a busca de respostas a todos esses questionamentos. A pandemia gerou muitos problemas, mas não acredito ter melhorado em nada o caráter das pessoas. Meus cumprimentos pelo belo artigo! (Salvador-BA).