Vem surpreendendo o mundo a repentina mudança de postura nas relações entre alguns governantes e o enfraquecimento do conceito de soberania de Estado que, durante décadas, orientou a convivência entre as nações. Como se diz no popular, era cada um no seu quadrado e todos num respeito mútuo aos seus direitos!
Pequenos choques decorrentes de discordâncias de pontos de vista ou de diferenças nas posições políticas internacionais sempre existiram. Muitas vezes, porém, eram contornados pela habilidade diplomática e pelo diálogo entre os governos. Episódios que, em determinadas circunstâncias, sequer chegavam ao conhecimento dos cidadãos dos países envolvidos, e principalmente do resto do mundo. E tudo seguia de forma normal.
Atualmente, o que se observa é diferente. Presidentes utilizam as redes sociais como verdadeiros palanques para manifestações pouco diplomáticas, com palavras marcadas pela grosseria, indelicadeza e deselegância. Para ser ainda mais direto, algumas dessas manifestações chegam a revelar falta de educação e parecem incompatíveis com o nível de responsabilidade que se espera de autênticos estadistas. E isso tem nome bem direto: verdadeira falta de respeito.
O bom exercício da soberania significa ter liberdade para definir os próprios caminhos, defender os interesses nacionais e tomar decisões de acordo com as necessidades da sociedade. Não significa, entretanto, fechar as portas para o mundo, recusar o diálogo ou transformar diferenças de interesses em obstáculos permanentes ao relacionamento com outras nações.
Uma nação não fortalece sua soberania afastando-se do mundo. O verdadeiro exercício da independência nacional exige presença, participação e capacidade de negociação. Isolar-se pode até produzir a sensação momentânea de autonomia, mas, na prática, reduz oportunidades, limita parcerias e diminui a capacidade de influência de um país.
O fato de um país possuir condições favoráveis no campo dos recursos naturais, dimensão territorial vantajosa e potencialidade econômica relevante, não lhe permite assumir papel de protagonista isolado no conjunto das nações. Principalmente, porque nenhum país é autossuficiente em tudo.
Por isso, não basta ao Brasil responder às crises quando elas surgem ou posicionar-se por meio de bate-bocas públicos diante de decisões ou manifestações de governantes de outros países, como se tem observado recentemente.
Uma nação verdadeiramente soberana não é aquela que se omite, se afasta ou transforma toda divergência em confronto. É aquela que conhece seus interesses, sabe defendê-los e possui competência para negociar.
Cooperação não significa submissão. Diálogo não significa concordância absoluta. Relações comerciais não significam abandono de princípios. E estabelecer parcerias não representa renunciar à independência nacional.
O Brasil precisa estar atento, portanto, à prática de dois extremos igualmente prejudiciais: a submissão automática aos interesses externos e o nacionalismo exacerbado que transforma qualquer relação internacional em ameaça à soberania.
Entre esses dois caminhos existe uma posição mais madura: a defesa firme dos interesses nacionais acompanhada de disposição para construir acordos que também beneficiem o país.
Ao abordar esse tema, é impossível não recordar uma das figuras mais emblemáticas da diplomacia brasileira: José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão do Rio Branco.
Nomeado pelo Presidente Rodrigues Alves para o cargo de Ministro das Relações Exteriores, em 1902, Rio Branco permaneceu à frente da diplomacia brasileira até 1912. Em um período marcado por importantes questões territoriais, defendeu a negociação e a diplomacia como instrumentos fundamentais para a solução dos conflitos de fronteira do Brasil com seus vizinhos. Seu legado permanece atual.
Uma grande nação não se constrói levantando muros diplomáticos, mas estabelecendo pontes capazes de proteger seus interesses, ampliar suas oportunidades e fortalecer sua presença internacional.
O Brasil precisa olhar para o mundo sem submissão, relacionar-se sem isolamento e defender sua soberania sem transformar diferenças em inimizades. Precisamos entender que o presente não é mais igual ao passado, e que o futuro já está aí a todo instante.
O desejável é que todo o contexto de possíveis conflitos diplomáticos e políticos que assistimos todos os dias possa ser substituído pela elegância de saber sentar-se à mesa para encontrar soluções construtivas.
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público (Salvador-BA).
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

2 Comentários
Tosa verdade bem dita. Artigo muito bem centrado numa verdade a olhos vistos. Que isso tenha uma correção de rumo sem demora!
Agenor, seu grande mérito está justamente em reunir, condensar e apresentar, com clareza e equilíbrio, elementos que nos levam à reflexão. Um editorial oportuno, que provoca o leitor a pensar sobre soberania, diálogo e o papel do Brasil no mundo. Parabéns pela lucidez e pela contribuição!