
Por: Florisvaldo F. dos Santos
Neste sábado, 15 de agosto de 2026, a EMEF Humberto de Campos, localizada na Avenida Professor Xavier de Lima, 644, no Jardim Samara, Distrito de Vila Matilde, em São Paulo, abriu suas portas para receber alunos, familiares e moradores da região para o Dia da Família na Escola.
Realizado das 9h às 13h, sob a coordenação da diretora Alexandra e de sua equipe, o evento teve como principal objetivo aproximar a família da comunidade escolar, fortalecendo a parceria entre responsáveis, alunos, professores e demais profissionais da unidade, além de resgatar valores de convivência, participação e pertencimento.
A programação foi diversificada e preparada para acolher diferentes gerações. Jogos, oficinas, danças, atividades recreativas e apresentações relacionadas à cidadania proporcionaram momentos de integração entre crianças, jovens, adultos e idosos.
Mais do que receber as famílias dentro da escola, a iniciativa procurou mostrar que a escola também pertence à comunidade — e que sua história é construída por todos aqueles que, de alguma maneira, passam por ela.
Quando uma exposição se transforma em reencontro
Entre as diversas atividades realizadas durante a manhã, uma chamou especialmente a atenção dos visitantes: a exposição fotográfica de Gonçalo Alves Correia.
Organizada por Floresgomes José de Assunção, com o apoio de Florisvaldo F. dos Santos, a exposição reuniu aproximadamente 3 mil fotografias produzidas por Gonçalo ao longo de mais de seis décadas de dedicação à fotografia.
Aos 88 anos, Gonçalo possui um acervo pessoal com mais de 5 mil registros, cuidadosamente conservados, muitos deles verdadeiros documentos da transformação social e urbana da região.
Morador da Vila Matilde e profundamente ligado ao Jardim Samara, Gonçalo iniciou sua atividade como fotógrafo na década de 1960.
Durante muitos anos, manteve seu estúdio na Rua Delfina da Cunha, 29, no Jardim Samara. Com suas câmeras, registrou casamentos, batizados, cerimônias religiosas, festas, construções, escolas, estabelecimentos comerciais e incontáveis acontecimentos do cotidiano.
Sem talvez imaginar a dimensão histórica que aquele trabalho alcançaria, Gonçalo foi documentando as transformações da região e, principalmente, as pessoas que fizeram parte dela.
O resultado pôde ser visto na exposição.
“Você se achou em alguma foto?”
A pergunta parecia simples:
“Você se achou ou se identificou com alguma foto aqui exposta?”
Foi essa a pergunta feita por Florisvaldo F. dos Santos, representando o Blog do Florisvaldo – Informação com Imparcialidade, durante a cobertura do evento e enquanto conversava com os visitantes da exposição.
E a resposta, repetida por muitos deles, quase sempre era positiva.
Alguns encontraram a própria imagem quando ainda eram jovens. Outros reconheceram pais, irmãos, amigos, filhos ou parentes. Houve também quem se emocionasse ao identificar lugares e acontecimentos que já não existem da mesma forma.
Entre os registros que despertaram lembranças estavam fotografias relacionadas à tradicional Danceteria TOCO, Sociedade Amigos do Jardim Samara, e à Escola Virgem do Pilar, locais nos quais Gonçalo realizou inúmeros trabalhos fotográficos.
A exposição acabou proporcionando algo que talvez nem seus organizadores pudessem dimensionar previamente: pessoas foram à escola para participar de uma atividade comunitária e terminaram encontrando pedaços da própria história pendurados diante dos olhos.
Quatro gerações diante da mesma câmera
Um dos aspectos mais emocionantes da exposição foi perceber a dimensão do tempo registrada pelas lentes de Gonçalo.
Ao longo de sua trajetória, ele fotografou jovens que mais tarde constituíram suas famílias. Depois fotografou seus filhos. Vieram os netos e, em alguns casos, os bisnetos.
Assim, uma mesma família pôde atravessar diferentes gerações pelas lentes do mesmo fotógrafo.
Durante a exposição, Gonçalo recebeu pessoalmente muitos desses visitantes. Aos 88 anos, acompanhou relatos, reencontros e manifestações de carinho de pessoas que fizeram questão de agradecer pelo trabalho realizado durante tantos anos.
E talvez esteja justamente aí a importância maior de seu acervo.
Uma fotografia antiga pode parecer apenas um pedaço de papel preservado pelo tempo. Mas, quando alguém se reconhece nela, deixa de ser apenas fotografia. Torna-se lembrança, testemunho e história.
Uma homenagem de quem também faz parte dessa história
A exposição recebeu ainda visitantes que compareceram especialmente para prestigiar Gonçalo e que, por sua própria trajetória, também possuem uma profunda ligação com a Vila Matilde.
Entre eles estava o jornalista, empresário e produtor de eventos Mauro Borges, acompanhado da esposa, Lucia Borges, e do filho Maurinho, que também atua como fotógrafo. Morador da Vila Matilde há mais de 60 anos, Mauro acompanhou boa parte das transformações da região registradas pelas lentes de Gonçalo.
Outra presença marcante foi a de Joaquim Carlos Pires do Amaral, o “Vovô Amaral”, figura conhecida no meio artístico por sua longa atuação como apresentador de televisão e que, assim como Mauro Borges, reside na Vila Matilde há mais de seis décadas. Ele também fez questão de comparecer pessoalmente para homenagear o fotógrafo.
A presença de antigos moradores tornou aquele encontro ainda mais simbólico. Não estavam ali apenas para prestigiar um amigo ou admirar fotografias antigas. De alguma maneira, eles próprios faziam parte da história que aquelas imagens contavam.
Foram manifestações que ajudaram a demonstrar que o trabalho desenvolvido por Gonçalo ultrapassou os limites de seu antigo estúdio e se incorporou à memória afetiva de muitas famílias da região.
A escola também guarda a memória de seu bairro
Ao promover o Dia da Família na Escola, a diretora Elisangela e sua equipe proporcionaram muito mais do que uma manhã de atividades.
A EMEF Humberto de Campos transformou-se, por algumas horas, em espaço de encontro entre passado e presente.
Crianças brincavam enquanto pais e avós procuravam rostos conhecidos nas fotografias. Antigos moradores recordavam lugares, festas e personagens. Histórias eram contadas diante das imagens e memórias que talvez estivessem adormecidas voltavam à tona.
A escola cumpria, assim, uma de suas funções mais bonitas: além de ensinar, acolher a comunidade e ajudá-la a reconhecer sua própria história.
A repercussão da exposição foi tamanha que a diretora Alexandra informou que estudará a possibilidade de uma nova apresentação do acervo, vinculada a outra atividade da unidade escolar.
Se isso acontecer, será uma nova oportunidade para que outras pessoas façam a mesma descoberta.
Talvez cheguem diante de milhares de fotografias apenas por curiosidade.
E talvez, de repente, parem diante de uma delas e possam responder à mesma pergunta:
“Você se achou aqui?”
Porque, depois de mais de seis décadas fotografando a Vila Matilde e seus moradores, pode-se dizer que Gonçalo Alves Correia não guardou apenas fotografias. Guardou pessoas, famílias e um pedaço da memória de toda uma comunidade.
Veja alguns registros do evento

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