Por: Florisvaldo F dos Santos
O Brasil do século XX foi construído sob a lógica da produção. Produzir significava gerar riqueza, movimentar a economia, empregar pessoas e fortalecer o país. O empresário industrial, o produtor rural e o empreendedor do comércio sentiam orgulho em afirmar que suas atividades sustentavam centenas ou milhares de famílias. Havia um sentimento coletivo de participação no crescimento nacional.
As grandes indústrias, o avanço da agropecuária, a mecanização do campo e a expansão urbana transformaram o país em um ambiente de oportunidades. O emprego formal, regido pela Consolidação das Leis do Trabalho – a conhecida CLT -, representava estabilidade, previsibilidade e segurança para milhões de trabalhadores.
Naturalmente, aquele sistema também possuía falhas. Muitas empresas enfrentavam elevada carga tributária, encargos trabalhistas complexos e dificuldades para manter a competitividade. Ainda assim, o vínculo empregatício tradicional estabelecia uma relação relativamente clara entre empregador e empregado: de um lado, o empresário assumia custos e responsabilidades; do outro, o trabalhador contava com direitos assegurados, como férias, décimo terceiro salário, FGTS, aposentadoria e proteção previdenciária.
Com a chegada do século XXI, o mercado sofreu profundas transformações. A tecnologia acelerou processos, reduziu distâncias e criou novas formas de contratação. Nesse contexto, ganhou força a chamada “pejotização”, modelo em que profissionais deixam de atuar como empregados celetistas para prestarem serviços como pessoas jurídicas.
Os defensores desse sistema argumentam que ele proporciona maior flexibilidade, redução de encargos e ganhos financeiros mais elevados para ambas as partes. Muitas empresas passaram a enxergar na contratação via pessoa jurídica uma forma de sobreviver em um ambiente econômico cada vez mais competitivo. Da mesma forma, inúmeros profissionais passaram a preferir a autonomia de gerir seus próprios contratos, horários e rendimentos.
Por outro lado, a pejotização também trouxe consequências importantes. Em muitos casos, o trabalhador perde garantias históricas conquistadas ao longo de décadas. Sem férias remuneradas, sem estabilidade previdenciária consistente e sem proteção trabalhista tradicional, parte dos profissionais passou a viver sob uma relação mais instável e vulnerável às oscilações do mercado.
O desafio, portanto, não está em defender cegamente o passado ou glorificar automaticamente o presente. O verdadeiro debate precisa ocorrer em torno do equilíbrio entre modernização econômica e proteção social. Afinal, um país forte depende tanto da liberdade econômica quanto da segurança mínima para quem trabalha e produz.
Ao mesmo tempo, outra transformação chama atenção: a mudança no conceito de produtividade e contribuição econômica. Durante boa parte do século XX, produzir significava fabricar bens, cultivar alimentos, gerar empregos e movimentar cadeias produtivas inteiras. A indústria contratava operários; o campo empregava trabalhadores; o comércio absorvia mão de obra; e o crescimento econômico era percebido de forma concreta na vida das pessoas.
Hoje, entretanto, vivemos a era da influência digital. Muitos dos chamados “influencies” movimentam cifras milionárias utilizando apenas um celular e milhões de seguidores. Trata-se de uma nova economia, legítima e extremamente poderosa sob o ponto de vista da comunicação e do marketing.
Contudo, surge uma reflexão inevitável: qual é o impacto estrutural desse modelo para o crescimento produtivo do país? Enquanto setores tradicionais produzem alimentos, máquinas, tecnologia, energia e empregos diretos, parte significativa da economia digital se sustenta na visibilidade, no entretenimento e na publicidade.
Não se trata de desmerecer o universo digital, que possui enorme importância econômica e social. O problema surge quando uma sociedade passa a valorizar excessivamente a aparência do sucesso, em detrimento da produção concreta de riqueza, inovação industrial e geração consistente de postos de trabalho.
O Brasil precisa encontrar um ponto de equilíbrio entre tradição e modernidade. Nem o saudosismo industrial resolverá sozinho os desafios atuais, nem a digitalização da economia pode substituir completamente os setores que sustentam a produção nacional.
O país continuará necessitando da força do agronegócio, da indústria, do comércio, da tecnologia e dos serviços. Precisará de empresários dispostos a investir, produzir e empregar. Precisará de trabalhadores qualificados e protegidos. E também deverá compreender que a economia digital pode ser complementar, mas dificilmente será suficiente para substituir integralmente os pilares produtivos que historicamente impulsionaram o desenvolvimento brasileiro.
Mais importante do que escolher entre o passado e o presente, talvez seja compreender que nenhuma nação cresce de maneira sólida sem produção, responsabilidade social e geração real de oportunidades.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade


4 Comentários
Hoje minha maior preocupação está no futuro da minha filha, passamos a ela os mesmos valores com os quais fui criada, mas ela nasceu na era tecnológica e não posso dizer que isso não assusta. O poder da internet e seus influencers. Resta apenas acreditar e crer em Deus que estamos fazendo o certo e o melhor por ela. Longe das más influências sejam pessoais ou da internet.
Boa tarde Florisvaldo!
Observei a sua preocupação em relação à nossa economia. Ao falar desse tema, lembro-me de grandes economistas como Roberto Campos, Delfim Netto, Rômulo Almeida, Paulo Guedes, entre outros que marcaram a história econômica do país.
No entanto, muitas vezes a economia brasileira foi conduzida por pessoas sem formação específica na área. Já no início da República, por exemplo, um dos primeiros Ministros da Fazenda foi o jurista Dr. Rui Barbosa. Depois dele, tivemos outros nomes vindos de diferentes áreas, como Zélia Cardoso de Mello e até mesmo um médico ocupando funções ligadas à economia. Atualmente, temos um ministro que, segundo declarações, estudou economia por apenas 30 dias.
Na minha opinião, a economia brasileira encontra-se estagnada, e esse modelo de governo tem demonstrado sinais de fracasso econômico, o que acaba gerando preocupação para as famílias brasileiras.
Outro ponto que muito me preocupa é perceber um povo cada vez mais doutrinado, especialmente os jovens. Vejo também uma sociedade cada vez mais dividida entre pobres e ricos, pretos e brancos, além de conflitos envolvendo questões religiosas.
Diante de tudo isso, acredito que somente Deus poderá nos salvar.
Essa é a minha opinião.
João da Masceno
Essa assunto é global e mexe com todo mundo. No Brasil não é diferente. Porém, Brasil está perdido nas selvas, dirigido por um trapaceiro que não tem estudo e nem caráter para ser Presidente. Hoje, na Zona Sul. vi funcionários da Prefeitura com placas anunciando emprego para pessoas com deficiência. Isso é muito animador. Se o Prefeito Ricardo Nunes sabe que pessoas nesse condição podem trabalhar e ganham seu pão sem depender na bolsa família, cesta básica, e assim por diante, por que Lula não sabe disso? Ele só pensa em poder pelo qualquer custo. Outubro está aqui. Não podemos errar. Todos trabalhadores, junto fazem economia crescer e gera mais emprego ainda.
Eu tendo a ver a pejotização de forma mais positiva, principalmente porque o mercado mudou muito. Hoje muitos profissionais preferem ter autonomia, negociar diretamente seus ganhos e não ficar presos ao modelo tradicional da CLT. Em vários casos, a contratação PJ permite renda maior, flexibilidade e até mais oportunidades para empresas conseguirem contratar. Claro que existem abusos, mas o problema não está necessariamente no modelo em si, e sim na falta de equilíbrio e de regras que evitem precarização.
Mas também acho que quem escolhe esse modelo precisa ter consciência das responsabilidades que vêm junto com essa liberdade. O profissional PJ precisa se programar financeiramente para lidar com eventuais percalços, como doenças, acidentes, períodos sem contrato e até pensar na própria aposentadoria, muitas vezes através de uma previdência privada ou planejamento financeiro. É uma relação que exige mais autonomia, mas também mais responsabilidade individual