
Quarenta e oito anos se passaram.
Pode parecer muito tempo. E é.
Mas algumas lembranças resistem de tal maneira que, quando provocadas, parecem apenas adormecidas, à espera de uma oportunidade para voltar.
Foi o que aconteceu comigo ao recordar umas férias passadas em Cansanção, no sertão da Bahia, em 1978. Naquele período, estava sendo desenvolvida no município uma etapa do Projeto Rondon, iniciativa que levava estudantes universitários e profissionais a diferentes regiões do interior brasileiro.
Eu havia deixado Cansanção em 1969, quando me transferi para São Paulo. Nas férias, porém, retornava à minha terra e reencontrava familiares, amigos, lugares e costumes que continuavam fazendo parte das minhas raízes.

Por: Florisvaldo F dos Santos
Naquelas férias de 1978, uma circunstância aparentemente simples acabaria me aproximando dos integrantes do Projeto Rondon: minha amizade com Nico do Nestor — e o seu famoso Jeep.
A Cansanção daquele tempo
Para compreender o significado da chegada daqueles jovens, é preciso voltar à Cansanção de quase meio século atrás.
O município havia sido criado inicialmente em 1952, desmembrado de Monte Santo, mas essa primeira emancipação foi anulada em 1954. Cansanção voltou a ser elevada à categoria de município pela Lei Estadual nº 1.018, de 12 de agosto de 1958, sendo oficialmente instalada em 7 de abril de 1959.
Em 1978, portanto, o município ainda era jovem.
A realidade era muito diferente da atual. Os recursos nas áreas de saúde, educação, cultura e lazer eram limitados. Não havia as facilidades de comunicação que hoje consideramos indispensáveis. Muito antes de celulares, internet ou redes sociais, cartas e telegramas desempenhavam papel fundamental na comunicação entre quem permanecia no sertão e aqueles que haviam partido para outras cidades e estados.
As distâncias não eram medidas apenas em quilômetros.
Eram medidas também pelo tempo necessário para uma notícia chegar.
Hoje, ao olhar para aquele período com a compreensão que o passar dos anos nos proporcionou, outra circunstância me provoca uma inquietação.
Vivíamos sob a ditadura militar.
Em 1978, o Brasil estava no governo do general Ernesto Geisel e, embora já experimentasse um processo de abertura política anunciado como “lento, gradual e seguro”, ainda convivia com restrições às liberdades, mecanismos de repressão e censura. O próprio AI-5, símbolo daquele período autoritário, somente deixaria de vigorar no final daquele ano.
Curiosamente, grande parte daquela realidade nacional parecia muito distante do cotidiano de uma pequena cidade do sertão.
Em Cansanção, onde os meios de comunicação eram escassos e as informações chegavam com dificuldade, muitos acontecimentos nacionais passavam distantes da nossa percepção. À limitação dos meios disponíveis somava-se uma realidade mais ampla: o próprio país vivia sob restrições à circulação de determinadas informações.
Mas essa é uma constatação que pertence muito mais ao olhar de hoje do que ao jovem que eu era naquele momento.
Naquelas férias de 1978, eu não estava pensando em ditadura, censura ou abertura política. Estava simplesmente de volta à minha terra, revendo amigos e vivendo acontecimentos que somente décadas depois passaria a enxergar dentro de um contexto histórico muito maior.
Foi nesse cenário que jovens vindos de outras regiões chegaram ao município levando conhecimentos, experiências e, principalmente, disposição para conhecer uma realidade muito diferente daquela em que viviam.
O Projeto Rondon
A ideia que daria origem ao Projeto Rondon surgiu em 1966, tendo entre seus principais idealizadores o professor Wilson Choeri, da então Universidade do Estado da Guanabara. Em 11 de julho de 1967, um grupo de universitários partiu para Rondônia naquela que ficaria conhecida como Operação Zero.
A proposta aproximava estudantes universitários das diferentes realidades encontradas no interior do país. Ao mesmo tempo em que colocavam conhecimentos acadêmicos à disposição das comunidades, aqueles jovens conheciam um Brasil que muitas vezes existia para eles apenas nos livros, nos mapas ou nas estatísticas.
Ao longo dos anos, o projeto ganhou dimensão nacional.
E, em 1978, essa experiência chegou também a Cansanção.
Quando a memória encontra um Jeep
Minha aproximação com o grupo não aconteceu por intermédio de nenhuma autoridade ou instituição.
Aconteceu de maneira muito mais simples — e talvez por isso tenha permanecido tão viva em minha memória.
Meu amigo Nico do Nestor, filho de seu Nestor, um dos mecânicos mais conhecidos da cidade, possuía um Jeep que chamava atenção por onde passava. Para os padrões daquele tempo e daquela Cansanção, não era simplesmente um veículo.
Era quase um personagem.
Por intermédio de Nico e das nossas andanças, terminei me aproximando dos jovens que participavam do Projeto Rondon.
Aos poucos, fui me “enturmando”.
Vieram as conversas, os deslocamentos, as brincadeiras e aquela convivência espontânea que não perguntava de onde cada um vinha antes de começar uma amizade.
Décadas depois, ao decidir recuperar essa história, percebi que minhas próprias lembranças não seriam suficientes.
Quase meio século havia transcorrido.
Era preciso procurar outras memórias.
A primeira memória que fomos buscar
Uma das primeiras contribuições veio de Izidório Menezes, morador de Cansanção e testemunha da presença do Projeto Rondon no município naquele período.
Suas lembranças ajudaram a recuperar detalhes que o tempo poderia ter apagado.
Segundo Izidório, os integrantes do Projeto ficaram alojados no Colégio João Cordeiro. A chegada daqueles jovens, vindos de outras regiões e trazendo hábitos diferentes dos encontrados no sertão, provocou inicialmente a natural curiosidade da população. Com a convivência, porém, o estranhamento foi cedendo lugar à aproximação e ao entrosamento com os moradores.
Izidório recorda atividades e orientações em áreas como saúde, educação, agricultura, agronomia e veterinária, alcançando não apenas moradores da sede, mas também comunidades da zona rural.
Entre suas lembranças está ainda um ponto de atendimento instalado na Rua Senhora Santana, na casa de Felipão, além dos veículos utilizados nos deslocamentos — entre eles Rural, Fuscas e o inesquecível Jeep de Nico do Nestor, que acabou se incorporando informalmente à movimentação daqueles dias.
Mas suas recordações não ficaram restritas ao trabalho desenvolvido pelo Projeto.
Houve também convivência.
Izidório se lembra do contato dos visitantes com manifestações da cultura local, entre elas o reisado, e guarda na memória nomes de participantes, como Norma e Nagata, que acabaram fazendo parte daquele pequeno capítulo da história de Cansanção.
São detalhes aparentemente simples, mas preciosos para quem, 48 anos depois, tenta remontar uma história que não ficou preservada apenas em documentos.
Ficou também na memória de quem estava lá.
Outra testemunha de uma Cansanção que se transformava
A contribuição de Izidório trouxe de volta lugares, pessoas e acontecimentos. Mas havia outra memória que poderia nos ajudar a compreender não apenas a presença daqueles universitários, mas a própria Cansanção que os recebeu.
Foi quando recorremos a João da Macena, hoje com 88 anos, testemunha de diferentes momentos da história e do desenvolvimento do município.
Ao longo de sua trajetória, João da Macena exerceu diferentes funções públicas em Cansanção. Iniciou suas atividades como coletor de impostos, foi vereador, presidiu a Câmara Municipal e chegou a assumir, interinamente, a Prefeitura.
Essa longa convivência com a vida administrativa, política e social do município lhe proporcionou uma visão privilegiada das transformações ocorridas ao longo das décadas e, particularmente, das condições existentes naquele final dos anos 1970.
Ao ser convidado a recordar a passagem do Projeto Rondon, João também abriu seu baú de memórias.
E nele reapareceu um personagem que já atravessava esta história desde o começo:
Nico do Nestor.
“Histórias sobre seu amigo Nico é o que não faltam”
João começou seu relato de maneira espontânea:
“É verdade, Florisvaldo! Histórias sobre seu amigo Nico do Nestor é o que não faltam!”
Também se recordou do famoso Jeep e de outra paixão automobilística de Nico.
Filho de seu Nestor, um dos principais mecânicos da cidade, Nico teve posteriormente um Ford Galaxie 500, que trazia no para-brisa a frase “Lady Laura”, numa referência à conhecida música de Roberto Carlos.
João recorda ter recebido de Nico diversas caronas em seus deslocamentos entre Cansanção e Monte Santo, cidade que ele frequentou durante muitos anos.
Mas as lembranças não param nos automóveis.
Nico tinha fama de namorador.
Na época, namorava uma moça de Cansanção, neta do senhor Ireno. Enciumado com o namoro da neta, seu Ireno costumava brincar, à sua maneira:
“Essas moças de hoje namoram até com bicho que pula de pau em pau.”
A referência era a Nico.
Mais do que uma passagem bem-humorada, a lembrança de seu Ireno abre outra janela para compreender o encontro entre os moradores e aqueles jovens universitários.
Os “causos” de seu Ireno
Segundo João da Macena, seu Ireno teve uma participação muito especial durante a permanência dos integrantes do Projeto Rondon.
Os universitários, vindos de uma realidade cultural bastante diferente daquela encontrada no sertão baiano, gostavam de ouvi-lo contar suas histórias e seus “causos”.
E seu Ireno tinha repertório.
Falava sobre personagens antigos da cidade, entre eles seu Gonzaga, que possuía uma venda e também exercia a função de delegado do município, e João Belo, proprietário de um daqueles tradicionais estabelecimentos conhecidos como “secos e molhados”.
Nessas vendas encontrava-se praticamente de tudo: feijão, farinha, açúcar, rapadura, café e querosene dividiam espaço com medicamentos populares da época e os mais diversos utensílios e apetrechos utilizados nas roças e fazendas.
E, naturalmente, nas histórias contadas por seu Ireno não podiam faltar assombrações, almas penadas, lobisomens e tantos outros relatos que povoavam — e ainda povoam — o imaginário popular, especialmente nas pequenas comunidades do interior.
A cena é simbólica.
De um lado, universitários chegavam ao sertão trazendo conhecimentos acadêmicos.
Do outro, sentavam-se para ouvir um homem da terra contar histórias transmitidas pela experiência e pela tradição oral.
Talvez aí esteja uma das maiores riquezas daquele encontro:
o conhecimento viajava nos dois sentidos.
“Talvez pegando numa caneta pela primeira vez”
Quando deixa os “causos” e passa a avaliar os resultados do Projeto Rondon, João da Macena guarda uma lembrança ainda mais significativa.
Segundo ele, o projeto representou um avanço importante para pessoas humildes do município, algumas das quais não sabiam sequer assinar o próprio nome.
João recorda que moradores tiveram a oportunidade de receber ensinamentos básicos e, em alguns casos, pegar numa caneta talvez pela primeira vez para aprender a escrever — ou, como se dizia naquele tempo, “desenhar” — o próprio nome.
Pode parecer pouco para quem observa essa realidade quase meio século depois.
Para quem não sabia assinar, porém, escrever o próprio nome representava muito mais do que juntar letras.
Representava identidade, autonomia e dignidade.
Saúde, agricultura e orientação
João também destaca que a atuação não se limitava à alfabetização.
Havia orientações relacionadas à saúde e transmissão de conhecimentos úteis à população. No meio rural, o contato alcançava áreas como agricultura, agronomia e veterinária.
Os universitários e estagiários percorriam diferentes pontos do município, entrando em contato tanto com pequenos agricultores familiares quanto com fazendeiros da região.
Era novamente o encontro entre dois conhecimentos: o acadêmico e aquele adquirido pelo sertanejo na convivência diária com a terra.
Nem todos os resultados daquele trabalho podem ser medidos hoje. Muitas ações se perderam no tempo, assim como documentos, fotografias e nomes de participantes.
Mas algumas consequências permanecem guardadas em um arquivo que não depende de papel:
a memória das pessoas.
O que ficou depois de 48 anos?
Quando comecei a remexer nessas lembranças, imaginei escrever sobre a passagem do Projeto Rondon por Cansanção.
Durante o caminho, percebi que estava procurando algo maior.
Estava tentando reencontrar a Cansanção de 1978.
A cidade dos poucos recursos, das cartas e telegramas, das vendas de secos e molhados, dos causos contados pelos mais velhos, do reisado, das estradas percorridas por veículos que hoje despertariam curiosidade — e de um Jeep que, quase meio século depois, continua aparecendo nas lembranças de diferentes pessoas.
E, inevitavelmente, reencontrei também personagens.
Alguns ainda estão aqui para contar suas histórias.
Outros partiram.
Entre eles, Nico do Nestor, meu amigo de infância e companheiro de tantas lembranças, falecido há cerca de dois anos.
Talvez, se aquele Jeep não existisse — ou se Nico não fosse exatamente o Nico que conheci —, minha aproximação com aqueles universitários jamais tivesse acontecido da mesma maneira.
É curioso perceber como acontecimentos aparentemente pequenos podem atravessar décadas.
Um amigo.
Um Jeep.
Um grupo de jovens desconhecidos.
Uma pequena cidade do sertão baiano.
E umas férias que pareciam ser apenas mais umas férias.
Memória não é documento — mas também conta a História
Não pretendo transformar minhas recordações, nem as de Izidório Menezes ou João da Macena, em documento histórico absoluto.
A memória humana guarda algumas coisas, modifica outras e inevitavelmente perde detalhes pelo caminho.
Talvez justamente por isso tenha sido tão importante ouvir outras pessoas.
Uma lembrança encontrou outra.
A minha trouxe Nico, o Jeep e a aproximação com aqueles jovens.
Izidório recuperou lugares, atividades, nomes e cenas da convivência com os integrantes do Projeto.
João trouxe de volta a cidade, seus personagens, seus “causos” e, principalmente, a dimensão que aquela experiência teve para parte da população.
São memórias diferentes que, colocadas lado a lado, ajudam a recompor um pequeno pedaço da história de Cansanção.
João da Macena, depois de acompanhar pessoalmente aquela experiência, resumiu sua avaliação em poucas palavras:
“No período em que tive o prazer de conviver e acompanhar, posso considerar o Projeto como fantástico!”
Quarenta e oito anos depois, talvez já não seja possível reconstruir cada dia, cada atendimento ou identificar todas as pessoas que participaram daquela experiência.
Mas ainda é possível reconstruir aquilo que permaneceu.
As lembranças.
As amizades.
Os personagens.
Os ensinamentos.
E aquele encontro entre dois mundos que, por algum tempo, dividiram as mesmas ruas de Cansanção.
Quanto a mim, ao olhar novamente para 1978, descubro que aquela história nunca desapareceu.
Estava apenas guardada na memória, esperando quase meio século para ser contada.
Colaboração: Izidorio Menezes, João da Macena e Eliane Fernandes.
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