
Por Florisvaldo Ferreira dos Santos
Há assuntos aos quais gostaríamos de não precisar voltar. A morte inesperada de pessoas jovens, ligadas ao esporte, é um deles.
Nesta semana, tomei conhecimento de mais uma notícia que me inquietou: o fisiculturista Mateusz Chmura, de 33 anos, morreu após passar mal e desmaiar no palco de uma competição em Telford, na Inglaterra, no domingo, 18 de outubro.
Segundo reportagem do ge, o atleta disputava as finais britânicas da Physical Culture Association (PCA). Recebeu atendimento no local e foi levado ao hospital, mas não resistiu. A entidade confirmou o falecimento, sem divulgar a causa da morte.
Esse último ponto precisa acompanhar qualquer reflexão sobre o episódio. Sem uma conclusão médica divulgada, não há fundamento para atribuir a morte a anabolizantes, excesso de treinamento, problemas cardíacos ou qualquer outra hipótese.
A preocupação é legítima. A especulação não pode ocupar o lugar da informação.
Este Blog já abordou o assunto em três publicações. Em maio, noticiamos a morte de Gabriel Ganley, aos 22 anos, registrando a perda de um jovem que construía sua trajetória no fisiculturismo.
Em julho, no artigo “Músculos, medalhas e o preço da vaidade”, ampliamos a discussão para os limites do corpo e os riscos da busca por resultados a qualquer custo. Também ressaltamos que nenhuma morte deve ser automaticamente associada ao uso de substâncias: cada caso exige investigação própria.
Em setembro, com “O coração não pede licença: quando a boa forma não é garantia de proteção”, voltamos à prevenção e ao preparo dos espaços esportivos para situações de emergência.
Agora, a morte de Mateusz renova essa inquietação.
Diante dessa notícia, uma pergunta não me sai do pensamento: quantos outros “Mateusz Chmura”, em diferentes partes do mundo, podem ter perdido a vida de maneira inesperada, durante ou após uma atividade esportiva, sem que suas histórias alcançassem a mesma repercussão?
Não temos essa resposta. Tampouco podemos presumir que essas mortes tenham uma causa comum. Mas a pergunta merece reflexão: nossa percepção fica limitada às histórias que chegam ao noticiário, enquanto outras perdas talvez permaneçam conhecidas apenas pelas famílias e pelas comunidades atingidas.
A dimensão da divulgação não mede a dimensão da dor. Cada vida interrompida merece respeito, investigação e atenção àquilo que pode ser aprendido em favor da prevenção.
Por trás do nome de um competidor existem familiares, amigos, projetos e uma história que não cabe no resultado de uma prova.
A reflexão que retomamos é sobre o cuidado que deve acompanhar a prática esportiva.
Avaliações médicas individualizadas, conhecimento do histórico familiar e atenção aos sintomas fazem parte desse cuidado. O American College of Cardiology orienta que sinais como dor no peito, desmaios, palpitações e falta de ar sejam discutidos com um profissional de saúde antes da continuidade dos exercícios. Também esclarece que uma parada cardíaca pode acontecer sem aviso prévio.
A responsabilidade também precisa estar presente na organização dos eventos. Existem planos de emergência, equipes preparadas e equipamentos acessíveis? Essa pergunta vale para o ambiente esportivo em geral e não constitui acusação contra os responsáveis pela competição em Telford, onde houve atendimento ao atleta.
No Brasil, a cidade de São Paulo oferece um exemplo concreto dessa preocupação. A Prefeitura instituiu o Protocolo Municipal de Assistência à Saúde em Corridas de Rua, por meio da Portaria SMS nº 671/2026, abrangendo também caminhadas organizadas, maratonas e modalidades semelhantes abertas ao público.
A norma exige planejamento médico antecipado, recursos de socorro distribuídos pelo percurso e definição dos fluxos de remoção hospitalar. A estrutura deve considerar o número de participantes, as características da prova e as condições ambientais. Prevê ainda a possibilidade de recomendar adiamento, suspensão ou cancelamento diante de riscos à saúde ou insuficiência da capacidade de resposta. Sua entrada em vigor ocorre 60 dias após a publicação.
Embora corridas de rua e fisiculturismo tenham características distintas, essa iniciativa traz à reflexão um princípio que deve acompanhar qualquer modalidade: a segurança dos participantes precisa fazer parte do planejamento do evento.
A existência de regras, por si só, não elimina todos os riscos. É preciso que elas se traduzam em fiscalização, equipes preparadas e capacidade de resposta.
Também precisamos refletir sobre a linguagem da superação. Incentivar dedicação é importante. Transformar qualquer limite em fraqueza pode dificultar decisões prudentes, como interromper uma atividade e procurar orientação.
Nenhum atleta deveria sentir vergonha de dizer que não está bem.
À família e aos amigos de Mateusz Chmura, nosso respeito e nossa solidariedade. A causa de sua morte cabe à apuração médica. A nós, como espaço de informação e reflexão, cabe tratar sua história com dignidade e renovar o compromisso com a prevenção.
Que a comoção encontre continuidade no cuidado. Porque a conquista mais importante precisa continuar sendo a vida.
Blog do Florisvaldo – Informação com Imparcialidade
