
Por: Florisvaldo F dos Santos
Estamos acostumados a ver jogadores de futebol despertando atenção pelo que fazem dentro de campo. Fora dele, também influenciam comportamentos, ditam tendências, divulgam marcas e tornam-se referência para milhares — às vezes milhões — de jovens.
Mas o meio-campista Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro, chamou a atenção nos últimos dias por uma razão bem diferente: livros.
O gosto pela leitura não nasceu agora. Scarpa já compartilhava suas experiências literárias havia alguns anos. O que surpreendeu foi a dimensão que esse hábito pessoal alcançou.
Ao falar de suas leituras com naturalidade — sem a pretensão de se apresentar como intelectual ou crítico literário — despertou a curiosidade dos próprios torcedores. Uma indicação de A Morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, ajudou a colocar o clássico entre os livros mais vendidos no país.
A repercussão foi além. Surgiu até a “Galeitura”, iniciativa criada por torcedores e inspirada no jogador, reunindo milhares de pessoas em torno da leitura.
E talvez seja exatamente aí que esteja o aspecto mais interessante dessa história.
Não se trata de dizer que Scarpa seja melhor do que outros atletas porque gosta de literatura, nem imaginar que aqueles que não exibem livros nas redes sociais sejam alheios à cultura.
A questão é outra: o que fazemos com a capacidade de influenciar que temos?
No caso de um grande atleta, essa capacidade é gigantesca.
Se um jogador consegue influenciar alguém a comprar uma camisa, escolher um tênis, mudar o corte de cabelo ou imitar uma comemoração, por que não pode também despertar nele a vontade de abrir um livro?
Scarpa está mostrando que pode.
E a reflexão ultrapassa o futebol. O exemplo não precisa vir acompanhado de discurso. Às vezes, basta compartilhar aquilo de que gostamos, aquilo que aprendemos e aquilo que nos fez pensar.
Há ainda um detalhe interessante nessa trajetória: Scarpa já contou que seu próprio interesse pela leitura foi estimulado quando recebeu livros de outras pessoas. Alguém, um dia, colocou um livro em suas mãos. Anos depois, sem necessariamente planejar, ele passou a fazer o mesmo — simbolicamente — com milhares de pessoas.
Talvez seja esse o verdadeiro fenômeno.
Não apenas um jogador de futebol que lê.
Mas um leitor que, por acaso, é jogador de futebol e descobriu que seu exemplo pode formar outros leitores.
Em tempos nos quais a imagem de um atleta percorre o mundo em segundos, sua influência também pode ir além do consumo, da aparência e da celebridade.
Pode levar à curiosidade, ao conhecimento – e a um livro.
E talvez alguns dos gols mais importantes de Gustavo Scarpa jamais apareçam nas estatísticas.
Podem estar sendo marcados silenciosamente cada vez que alguém, influenciado por ele, decide abrir um livro.
Colaboração: Rosina – São Paulo
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade
