
Por: Florisvaldo F. dos Santos
Se estivesse escrito no roteiro de uma novela, talvez alguém dissesse que o autor havia exagerado na coincidência.
Duas mulheres que ajudaram a construir a dramaturgia brasileira, que se encontraram quando a televisão ainda aprendia a ser televisão e que atravessaram mais de seis décadas de personagens, palcos, câmeras e histórias despediram-se da vida quase ao mesmo tempo.
Laura Cardoso, aos 98 anos. Glória Menezes, aos 91.
Apenas um dia separou as duas despedidas.
Desta vez, porém, não havia diretor para gritar “corta!”, nem autor para modificar o último capítulo.
Era a vida que, numa dessas coincidências difíceis de explicar, parecia imitar a arte.
Um lugar ao sol
Para compreender a dimensão dessa história, é preciso voltar no tempo.
Voltar a 1959.
A televisão brasileira tinha menos de uma década de existência. Era ainda uma aventura muito próxima do teatro e do rádio, feita com poucos recursos, transmissões ao vivo e a coragem de quem estava inventando uma nova maneira de contar histórias.
Foi nesse cenário que Laura Cardoso e Glória Menezes se encontraram em Um Lugar ao Sol, na TV Tupi.
Talvez nenhuma das duas pudesse imaginar que aquele título acabaria adquirindo, tantos anos depois, um significado quase simbólico.
Porque as duas encontrariam, de fato, o seu lugar ao sol.
E não seria pequeno.
Laura já trazia a experiência do rádio. Começara ainda adolescente e pertencia a uma geração de artistas para quem atuar significava decorar textos extensos, enfrentar transmissões ao vivo e resolver imprevistos sem que o público percebesse.
Glória surgia naquele mesmo universo em construção.
Duas atrizes diante de uma novidade chamada televisão.
O Brasil mudaria.
A televisão mudaria.
Elas também.
Mas nenhuma das duas abandonaria o palco.
Duas mulheres, muitos personagens
Depois daquele encontro, suas carreiras seguiram caminhos próprios.
Laura Cardoso tornou-se uma daquelas atrizes capazes de transformar até uma pequena participação em personagem inesquecível.
Não precisava necessariamente ser a protagonista.
Bastava entrar em cena.
A voz, o olhar, a maneira de movimentar as mãos e uma interpretação que frequentemente fazia desaparecer a atriz para deixar apenas a personagem davam às suas atuações uma verdade muito particular.
Vieram o rádio, o teatro, o cinema e, sobretudo, a televisão.
Décadas passaram e Laura continuou diante das câmeras.
Em Mulheres de Areia, A Viagem, Chocolate com Pimenta, Caminho das Índias, Sol Nascente, A Dona do Pedaço e tantas outras produções, diferentes gerações conheceram a mesma atriz em diferentes idades.
Talvez esteja aí uma das maiores demonstrações de sua longevidade artística: avós, pais, filhos e netos puderam assistir a Laura Cardoso, cada geração acreditando, de alguma forma, que aquela atriz também lhe pertencia.
Glória Menezes construiu uma trajetória igualmente extraordinária.
Em 1963, ao lado de Tarcísio Meira, protagonizou 2-5499 Ocupado, considerada a primeira telenovela diária da televisão brasileira.
A partir dali, ficaria difícil separar a história de Glória da própria história da televisão.
Vieram Sangue e Areia, Irmãos Coragem, Pai Herói, Rainha da Sucata, Senhora do Destino, A Favorita e tantas outras produções.
Mas Glória também pertenceu ao cinema.
Esteve em O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962 — feito até hoje único entre os longas-metragens brasileiros.
Duas atrizes.
Duas trajetórias.
Centenas de personagens.
E, ao fundo, uma mesma história sendo escrita: a história da dramaturgia brasileira.
Quando a arte entrou dentro de casa
Na vida de Glória Menezes houve ainda uma particularidade que tornou mais difícil estabelecer onde terminava a arte e começava a vida.
Tarcísio Meira.
Eles formaram um dos casais mais conhecidos da cultura brasileira.
Casaram-se em 1963 e permaneceram juntos por quase seis décadas, até a morte de Tarcísio, em 2021.
Foram marido e mulher na vida.
Foram parceiros diante das câmeras.
Interpretaram casais, viveram conflitos escritos por autores, apaixonaram-se e desentenderam-se inúmeras vezes na ficção para, terminado o trabalho, retornarem à própria história.
O público viu os dois envelhecerem juntos.
Talvez por isso a morte de Tarcísio tenha produzido também a sensação de que alguma coisa pertencente à memória afetiva dos brasileiros havia terminado.
Glória permaneceu.
Continuou carregando consigo não apenas sua própria história, mas inevitavelmente parte daquela história construída a dois.
Até agora.
Elas voltaram a se encontrar
Laura e Glória seguiram seus caminhos, mas a dramaturgia cuidou de fazê-las se reencontrar.
Depois de Um Lugar ao Sol, em 1959, estiveram novamente numa mesma produção em Há Sempre o Amanhã, no ano seguinte.
Trinta anos depois, seus nomes voltariam a aparecer juntos em Rainha da Sucata, de 1990.
E, em 2004, novamente em Senhora do Destino.
Quarenta e cinco anos separavam aquele primeiro encontro da televisão pioneira de 1959 da televisão tecnologicamente transformada do início do século XXI.
As câmeras haviam mudado.
Os estúdios haviam mudado.
O Brasil havia mudado.
As jovens atrizes também haviam envelhecido.
Mas continuavam ali.
Atuando.
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da profissão de ator: envelhecer não significa necessariamente deixar o palco. Ao contrário. O tempo pode acrescentar ao rosto aquilo que maquiagem alguma consegue produzir — experiência.
E Laura parecia compreender isso como poucas pessoas.
Para quem fez da interpretação uma maneira de existir, talvez parar de representar significasse interromper uma parte da própria vida.
O tempo diante das câmeras
Há algo curioso nas imagens preservadas pela televisão.
Nós envelhecemos.
Elas, não.
Basta uma reprise e Glória volta a ser aquela mulher de décadas atrás.
Mudamos de canal e encontramos Laura em outra época, com outro rosto, outro figurino, outra personagem.
O espectador olha para a tela e talvez perceba que envelheceu muito mais do que aquela lembrança.
Esse é um dos pequenos milagres que a arte proporciona.
A pessoa obedece ao tempo.
A personagem, não.
Ela permanece preservada dentro daquela cena.
Laura e Glória atravessaram tantas décadas de televisão que suas imagens acabaram se transformando também numa espécie de álbum de família do Brasil.
Enquanto elas interpretavam suas personagens, milhões de brasileiros namoraram, casaram, tiveram filhos, perderam pessoas queridas, mudaram de cidade, envelheceram.
A novela terminou.
Outra começou.
E a vida continuou.
Uma terceira dama se despede das amigas
Foi preciso que outra grande atriz encontrasse poucas palavras para traduzir o sentimento provocado pelas duas perdas quase simultâneas.
Nathália Timberg, aos 97 anos, viu partir, em dois dias consecutivos, duas companheiras de uma mesma geração artística.
Ao se despedir de Laura, falou da atriz e da mulher que aprendera a admirar.
Horas depois, ainda sob o impacto daquela perda, recebeu a notícia da morte de Glória.
E então pronunciou uma frase que, pela idade de quem a disse, pela amizade que existia entre elas e pelas circunstâncias daqueles dois dias, adquiriu uma dimensão profundamente humana: “Logo estaremos juntas.”
Há frases que pedem explicação.
Essa não.
Pede silêncio.
O último ato
Laura Cardoso viveu 98 anos.
Glória Menezes, 91.
Não foram apenas duas vidas longas.
Foram duas vidas intensamente vividas.
Atravessaram transformações sociais, culturais e tecnológicas do Brasil. Viram o rádio ceder à televisão o posto de principal companhia das famílias. Viram a televisão em preto e branco ganhar cores. Viram o videotape substituir a aventura do ao vivo. Viram a novela brasileira atravessar fronteiras.
Depois assistiram à chegada da televisão digital, da internet, das redes sociais e do streaming.
E permaneceram artistas.
Por isso, contar a história de Laura Cardoso e Glória Menezes é, em alguma medida, contar também a história da televisão brasileira.
Não apenas porque participaram de grandes produções.
Mas porque estavam lá quando quase tudo começou.
E permaneceram tempo suficiente para assistir ao que aquilo se tornou.
A coincidência reservada para o fim parece saída de uma obra de ficção.
Laura partiu.
Glória partiu no dia seguinte.
Duas mulheres que dividiram cenas quando jovens, seguiram caminhos próprios, reencontraram-se diante das câmeras e atravessaram juntas mais de seis décadas da cultura brasileira saíram de cena quase ao mesmo tempo.
Mas existe uma diferença entre a vida e a dramaturgia.
Na dramaturgia, quando termina o último capítulo, os personagens desaparecem — até que alguém resolva reprisá-los.
Na vida, algumas pessoas permanecem mesmo depois da última cena.
Laura Cardoso e Glória Menezes pertencem a esse grupo.
Em algum arquivo, neste exato momento, Laura ainda está entrando em cena.
Em outro, Glória ainda sorri.
Tarcísio talvez esteja ao seu lado.
E, em algum velho registro de 1959, duas jovens atrizes chamadas Laura Cardoso e Glória Menezes ainda procuram diante das câmeras o seu Lugar ao Sol.
Encontraram.
E nele permanecerão.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade
