Existem viagens que se medem em quilômetros. Outras, em horas de percurso. Mas há aquelas que desafiam qualquer medida, porque acontecem, sobretudo, dentro de cada um de nós.
Foi assim o Encontro de irmãos Maçons das Lojas Acácia Bahiana 13 e Esfinge 25 (de Salvador), e amigos, no coração do Vale do São Francisco, no último final de semana. Juazeiro e Petrolina, cidades que aprenderam a transformar um rio em ponte, e não em fronteira, receberam homens unidos por algo muito mais forte que a coincidência de um calendário: fortalecer os laços de amizade, renovar o espírito fraterno e celebrar a vida.
O “Vapor do Vinho” deslizou lentamente pelas águas da Barragem de Sobradinho, como se respeitasse o compasso do Velho Chico. A cada milha percorrida, parecia diminuir também a velocidade da vida. As urgências ficavam para trás, os relógios perdiam importância e as conversas recuperavam um espaço que jamais deveriam ter perdido.
Há uma sabedoria que somente os rios conhecem. Eles não disputam caminhos, não apressam o destino nem interrompem sua jornada diante dos obstáculos. Apenas seguem, contornando dificuldades, alimentando vidas e aproximando margens.
Enquanto o barco seguia seu percurso, navegavam também as lembranças. Histórias de outros encontros, experiências compartilhadas, desafios vencidos e sonhos ainda por realizar. Entre um sorriso e outro, devidamente regado a um bom vinho, compreendia-se que o verdadeiro patrimônio de qualquer homem não está naquilo que acumula, mas nas amizades que constrói e preserva.
A paisagem completava o cenário. O sertão revelava sua face mais generosa. Onde muitos enxergam apenas a aridez, a natureza exibia sua surpreendente capacidade de florescer. As águas da barragem refletiam o céu azul, enquanto as margens lembravam que desenvolvimento e esperança podem caminhar lado a lado quando o trabalho, a perseverança e a visão de futuro encontram terreno fértil.
Também ali havia uma silenciosa lição de fraternidade. Os princípios que inspiram a Maçonaria há séculos – a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a busca permanente do conhecimento, o respeito ao próximo e o aperfeiçoamento moral -, não pertencem exclusivamente aos maçons. São valores universais que ajudam a construir sociedades mais justas e relações humanas mais sólidas. E sua maior expressão não está nas palavras, mas nas atitudes cotidianas.
Naquele convés, ninguém precisava explicar o significado dessas virtudes. Elas estavam presentes na simplicidade dos gestos, na sinceridade dos abraços, na alegria dos reencontros e na leveza das conversas. Afinal, a verdadeira fraternidade não se proclama; ela se vive.
O retorno do Vapor do Vinho marcava apenas o fim do passeio. Não encerrava aquilo que realmente importava. Cada participante desembarcava levando consigo uma bagagem invisível: a alegria do reencontro, a renovação da amizade, a força da fraternidade e a certeza de que existem experiências que continuam navegando dentro de nós muito tempo depois que o barco atraca.
O Velho Chico prosseguiu seu caminho, como faz há séculos, indiferente às inquietações humanas. E talvez nos ensine exatamente isso: a grandeza não está na pressa, mas na constância; não está no ruído, mas na profundidade; não está em passar pela vida, mas em deixar nela marcas de respeito, solidariedade e esperança.
Ao final, compreendemos que a verdadeira viagem nunca aconteceu apenas sobre as águas da Barragem de Sobradinho. Ela aconteceu no coração de cada irmão, de cada amigo e de cada pessoa que descobriu, mais uma vez, que a vida encontra seu sentido mais nobre quando é compartilhada.
Enquanto o Velho Chico segue vencendo o tempo, também seguem aqueles vínculos que somente a amizade sincera e a fraternidade verdadeira são capazes de construir.
Que bela lição recebida! Que momentos inesquecíveis vividos! Que profundo sentido encontramos quando, no futuro, recordarmos aqueles dias marcantes de nossas vidas. Valeu, Rio São Francisco!
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Salvador – BA.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

9 Comentários
Agenor, mais uma vez você demonstra que seu maior talento vai muito além da elegância da escrita. Sua extraordinária capacidade de observar, captar e transformar em palavras sentimentos e expressões que, muitas vezes, escapam ao olhar da maioria, faz com que cada leitor se reconheça em suas narrativas. Mais do que descrever uma viagem, você humaniza a paisagem, dando voz ao rio, ao tempo, ao convívio e às emoções. Neste editorial, o Vapor do Vinho não apenas percorre as águas da Barragem de Sobradinho; ele conduz o leitor pela serenidade do Velho Chico, onde o tempo parece desacelerar para dar lugar à amizade, ao respeito e à fraternidade. Em cada passagem, percebe-se uma convivência harmoniosa entre pessoas de diferentes religiões, crenças e filosofias, unidas pelo respeito mútuo e pela alegria do encontro. Talvez por isso, até aquela tradicional carranca, tão presente nas embarcações do São Francisco para afugentar os maus espíritos, torne-se desnecessária nessa viagem. Onde prevalecem a fraternidade, a tolerância e os bons sentimentos, não há espaço para eles. Parabéns por mais este editorial que emociona, inspira e nos lembra que as maiores viagens não são medidas em milhas navegadas, mas pelas marcas que deixam no coração de quem as percorre.
Belo Artigo. Nada melhor do que descrever as emoções vividas. E quando essas emoções são navegando no Rio São Francisco, o significado passa a ser maior. O próprio título já diz tudo quando cita a fraternidade, essa palavra tão escassa atualmente. Bela escolha foi feita pelo lugar escolhido, com tudo a contribuír, onde houve com certeza uma sintonia total entre a beleza humana e a beleza da natureza1
Meu querido amigo Agenor, Confesso que, desde que descobri seu talento como cronista, passei a esperar com prazer semanalmente cada novo texto. Já li muitas de suas crônicas, mas esta, para mim, ocupa um lugar especial. É uma daquelas leituras que não terminam na última linha. Elas continuam dentro de quem lê. Você conseguiu transformar um passeio às margens do Velho Chico em uma profunda reflexão sobre amizade, fraternidade, o tempo e o verdadeiro sentido da vida. Sua escrita tem uma sensibilidade rara. É simples, elegante e, ao mesmo tempo, profundamente humana. Tenho a felicidade de conhecê-lo há cerca de dez anos, desde que minha família e eu chegamos ao condomínio. Entre boas conversas, taças de vinho e muitos jogos do Bahia, nasceu uma amizade que hoje considero um dos maiores presentes que a vida me deu. Você tem idade para ser meu pai, mas, acima de tudo, tornou-se um dos grandes amigos que tenho e uma pessoa por quem nutro enorme admiração e respeito. Parabéns por mais essa preciosidade. Obrigado por compartilhar conosco não apenas suas palavras, mas também sua forma de enxergar a vida. Pessoas escrevem. Poucas conseguem tocar a alma de quem lê. Você é uma delas. Nosso abraço carinhoso a você e à querida D. Adélia. (Salvador-BA).
Comungo a opinião de Lima. Agenor sempre se superando. Acima, a linda crônica, para que todos possam usufruir desta obra prima. (Salvador-BA).
Nossa! Maravilha de artigo, relato poético e inclusivo!! Parabéns ao irm.’. M.’. Agenor , que nos fez, também, viajar sobre o Velho Chico, foi assim que li, sorvendo cada Taça de Vinho!! Parabéns aos Viajantes, relembrando que não faltará oportunidade e quero viajar tb, nas águas, pois nas nuvens, acabo de aportar, em terra firme! Vou beber mais uma taça da Irmandade!!! Parabéns a todos!!Hummn!!! (Salvador-BA).
Que belo texto! Ele conseguiu me teletransportar para aquele momento da travessia que só quem estava lá sentiu o “balançar das emoções”! Parabéns, meu amigo, tens futuro na literatura! Rsrsrsrs (Salvador-BA).
Já vivi está experiência, vc é o cara. PARABÉNS!!! (Salvador-BA).
Bom dia Amigo Agenor!
Que bela crônica!
Esse passeio pelo Rio são Francisco é realmente maravilhoso e remete a muitas lembranças. (Salvador-BA).
Parabéns, amigo Agenor, pela excelente crônica. (Salvador-BA).