
Por: Florisvaldo F dos Santos
Enquanto o Brasil inteiro segue sua rotina no dia 9 de julho, São Paulo faz uma pausa. Não é apenas um feriado. É um convite para recordar um dos momentos mais marcantes da história do Estado e do país, quando milhares de paulistas acreditaram que defender uma Constituição era defender o próprio futuro do Brasil.
Embora a Revolução Constitucionalista tenha sido um capítulo da história nacional, somente o Estado de São Paulo transformou essa data em feriado civil. A homenagem é dedicada aos homens e mulheres que participaram do movimento de 1932 e deixaram como legado uma importante reflexão sobre a democracia, o respeito às leis e o fortalecimento das instituições.
Como tudo começou
Para compreender a Revolução Constitucionalista, é preciso voltar a 1930.
Naquela época, o Brasil vivia a chamada República Velha, período em que São Paulo e Minas Gerais exerciam grande influência sobre a política nacional. O sistema era conhecido como a política do “Café com Leite”, pela alternância de presidentes ligados às duas maiores forças econômicas do país.
Mas, em 1930, esse equilíbrio foi rompido.
O presidente Washington Luís, paulista, indicou outro paulista, Júlio Prestes, para sucedê-lo na Presidência da República. Minas Gerais rompeu a aliança política e uniu-se ao Rio Grande do Sul e à Paraíba na Aliança Liberal, liderada por Getúlio Vargas.
Embora Júlio Prestes tenha vencido as eleições, seus adversários denunciaram irregularidades. O clima político se agravou com o assassinato de João Pessoa, candidato a vice-presidente na chapa de Vargas, episódio que aumentou ainda mais a tensão nacional.
Em outubro daquele ano, um movimento armado depôs o presidente Washington Luís antes da posse de Júlio Prestes, encerrando a chamada República Velha e levando Getúlio Vargas ao poder.
O que provocou a revolução?
Ao assumir o governo, Getúlio Vargas instalou um Governo Provisório de caráter altamente centralizador. O Congresso Nacional foi dissolvido, a Constituição deixou de vigorar, e os governadores eleitos foram substituídos por interventores nomeados diretamente pelo governo federal.
As principais decisões passaram a ser tomadas por decretos.
Para muitos paulistas, essa situação representava um grave retrocesso institucional.
A principal reivindicação não era a separação de São Paulo nem a tomada do poder nacional. O que se exigia era a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte para devolver ao país uma Constituição e restabelecer a autonomia dos estados dentro do regime federativo.
A faísca que incendiou São Paulo
No dia 23 de maio de 1932, uma manifestação no centro da capital terminou em confronto.
Quatro jovens perderam a vida: Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo.
As iniciais de seus sobrenomes formaram a sigla MMDC, que rapidamente se transformou no principal símbolo da mobilização paulista.
Menos de dois meses depois, em 9 de julho de 1932, São Paulo iniciou a Revolução Constitucionalista.
Quando um povo inteiro se mobiliza
A revolução rapidamente deixou de ser apenas um movimento militar.
Soldados, estudantes, professores, médicos, engenheiros, operários, agricultores e comerciantes ofereceram seu trabalho para a causa.
As mulheres tiveram participação decisiva, organizando hospitais, confeccionando uniformes, preparando alimentos e coordenando campanhas de arrecadação.
Em muitos lares paulistas, famílias inteiras doaram joias, alianças, moedas de ouro e objetos de valor para ajudar a financiar o esforço de guerra. A campanha ficou conhecida como “Ouro para o Bem de São Paulo” e tornou-se um dos maiores exemplos de mobilização cívica da história do Estado.
Naquele momento, havia uma convicção comum: independentemente do resultado da guerra, era preciso lutar por um Brasil novamente regido por uma Constituição.
Uma guerra desigual
Durante aproximadamente 87 dias, São Paulo enfrentou as tropas do governo federal.
Os principais combates ocorreram nas divisas com Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná.
Apesar da determinação dos voluntários, São Paulo possuía menos soldados, menos armamentos e menos recursos do que as forças federais.
O conflito deixou um saldo estimado entre 900 e mais de 2 mil mortos, conforme diferentes levantamentos históricos, além de milhares de feridos e enormes prejuízos materiais.
No dia 2 de outubro de 1932, os paulistas encerraram a resistência.
Militarmente, a guerra havia terminado.
A derrota que abriu caminho para uma vitória
Se a análise ficar restrita aos campos de batalha, o vencedor foi o governo federal.
Mas a História nem sempre termina quando cessam os combates.
A forte pressão exercida pela Revolução Constitucionalista tornou inevitável a convocação de eleições para uma Assembleia Nacional Constituinte.
Em 1933, os brasileiros escolheram seus representantes.
No dia 16 de julho de 1934, o país voltou a ter uma Constituição.
Foi justamente por isso que muitos historiadores afirmam que São Paulo perdeu a guerra, mas venceu sua principal causa: contribuir decisivamente para a constitucionalização do país.
A reconciliação
Encerrado o conflito, Getúlio Vargas compreendeu que era necessário reconstruir o diálogo com São Paulo.
Como gesto de aproximação, nomeou o paulista Armando de Salles Oliveira como interventor federal no Estado, iniciando um processo de pacificação política.
As tensões diminuíram gradualmente e São Paulo voltou a exercer papel decisivo no desenvolvimento econômico e político do Brasil.
Uma memória preservada
Quem passa pelo Parque Ibirapuera talvez não imagine que um dos mais importantes monumentos da cidade guarda parte dessa história.
Sob o Obelisco do Ibirapuera encontra-se o Mausoléu do Soldado Constitucionalista, onde repousam os restos mortais de diversos combatentes da Revolução de 1932.
Mais do que um monumento, o local representa a memória daqueles que acreditaram que a defesa da Constituição era um dever cívico.
Um legado que continua atual
Passados 94 anos, o Brasil mudou. As gerações se renovaram, os protagonistas da Revolução Constitucionalista partiram e as marcas da guerra ficaram para trás.
Entretanto, a principal mensagem do 9 de Julho permanece viva.
A data não celebra a guerra, nem incentiva divisões entre brasileiros. Ela recorda que nenhum país se fortalece sem instituições sólidas, respeito às leis, equilíbrio entre os Poderes e uma Constituição capaz de proteger os direitos e os deveres de todos os cidadãos.
Num tempo em que o debate político frequentemente se torna acalorado e a democracia é constantemente colocada à prova, recordar o 9 de Julho é também lembrar que as diferenças devem ser resolvidas pelo diálogo, pela Justiça e pelo respeito à Constituição.
É por isso que, todos os anos, São Paulo faz uma pausa.
Mais do que lembrar uma revolução, o Estado homenageia homens e mulheres que acreditaram que a força das armas deveria abrir caminho para a força das leis. E essa talvez seja a maior vitória deixada pela Revolução Constitucionalista de 1932.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

1 comentário
O último parágrafo desse documentário histórico nos remete ao seguinte: a lei precisa ser cumprida custe o que custar!!!
Belo texto que é uma verdadeira aula… Aplauso!!!