Por: Florisvaldo F dos Santos
Há poucos dias escrevi uma crônica intitulada Entre o Trauma e a Esperança. Nela, confessei que, desde o inesquecível 7 a 1 de 2014, nunca mais consegui assistir a um jogo da Seleção Brasileira com a tranquilidade de outros tempos.
Não era falta de patriotismo.
Muito menos falta de vontade de ver o Brasil campeão.
Era apenas um sentimento difícil de explicar: o coração insistia em acreditar, enquanto a razão pedia cautela.
E, como acontece com milhões de brasileiros, deixei que o coração falasse mais alto.
A cada jogo, imaginava que aquele poderia ser o momento da virada. Que o time finalmente encontraria sua melhor versão. Que alguém surgiria para chamar a responsabilidade, levantar a cabeça dos companheiros e lembrar ao mundo por que a camisa amarela sempre foi sinônimo de respeito.
O torcedor é assim.
Ele desconfia na segunda-feira, reclama na terça, critica na quarta, promete que não assiste mais a jogo nenhum na quinta… e, quando chega o dia da partida, veste a camisa, faz a mesma fé de sempre e acredita como se nada tivesse acontecido.
É um otimista incurável.
Talvez seja esse o maior talento do torcedor brasileiro.
Infelizmente, o futebol nem sempre recompensa essa fidelidade.
Mais uma vez, o sonho de bordar uma nova estrela no peito ficou pelo caminho.
E o destino, que adora escrever histórias com uma pitada de ironia, resolveu colocar um nome próprio no capítulo final dessa Copa.
O sonho do hexa parou nos pés de Haaland.
Não porque uma derrota tenha apenas um responsável. Futebol nunca foi assim.
Mas porque existem momentos em que um único gol acaba simbolizando todas as dúvidas que vinham sendo escondidas pelas vitórias, pela esperança e, principalmente, pelo nosso desejo de acreditar.
Dias atrás escrevi que não conseguia enxergar uma identidade bem definida na equipe. Que ainda procurava um líder capaz de transmitir confiança. Que sentia faltar aquela personalidade que, durante décadas, fez da Seleção Brasileira uma referência mundial.
Escrevi torcendo para estar errado.
Gostaria imensamente de reler aquelas linhas hoje e sorrir da minha falta de confiança.
Seria muito mais feliz escrevendo uma crônica sobre o nascimento de um novo campeão do que sobre mais uma despedida precoce.
Mas o futebol não pede licença aos nossos desejos.
Ele apenas revela aquilo que o tempo, mais cedo ou mais tarde, acaba confirmando.
A tristeza desta eliminação não está apenas no resultado.
Ela mora no silêncio que invade a casa depois do apito final. Na camisa que continuará pendurada esperando por dias melhores. Na estrela que ainda não foi bordada. Na criança que perguntou ao pai se “daqui a quatro anos a gente tenta de novo”. E no pai que respondeu “claro”, mesmo sem saber se estava convencendo o filho ou tentando convencer a si mesmo.
É nesse instante que entendemos uma das maiores virtudes do brasileiro.
Nós caímos, reclamamos, criticamos, discutimos, prometemos abandonar a Seleção…
…mas basta a próxima Copa aparecer no horizonte para fazermos exatamente a mesma coisa.
Compramos outra camisa.
Pendemos outra bandeira na janela.
Marcamos outro churrasco.
Voltamos a sonhar.
Porque a esperança do torcedor brasileiro pode até perder uma partida.
Mas nunca perde o campeonato.
E talvez tenha sido justamente isso que eu quis dizer na crônica anterior, sem perceber.
O trauma continua vivo.
A esperança também.
Só mudou o placar.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade


2 Comentários
Não foi só o grandalhão. Foi mais que isso: entrosamento de equipe e falta de treinos como era no passado. na Toca da Raposa e na Granja Comari. Era meses de treinos. agora encontram-se um monte de desconhecidos e vamos jogar bola… tai o resultado!!!
Difícil, faltou garra, vontade de jogar. Diferente da seleção de Cabo Verde que lutou até o fim, porém saíram de cabeça erguida e com a sensação de que deram o seu melhor memso perdendo. infelizmente não podemos falar dessa seleção, mas que venha 2030, quem sabe o cenário não será melhor!