
Eles começam microscópicos e terminam como pequenas criaturinhas adoráveis, que mal sabem falar, mas dão um trabalho insano. Esse período, que compreende os primeiros mil dias do bebê, da concepção ao fim do segundo ano de vida, vai desenhar muito do futuro dessa pequena pessoa. Afinal, nessa fase, só no cérebro são feitas até um milhão de conexões neurais por segundo!
E, embora a humanidade procrie desde sempre, criar filhos não virou um trabalho mais fácil. Pelo contrário. As dúvidas são infinitas. Preciso doar meu gato quando fico grávida? Posso tomar café? O que faz uma doula? Acordo o bebê para mamar? Compro um andador? O que, afinal, é peitolé?!
Acostumado a ouvir “isso é normal?” diariamente de pais angustiados, o pediatra, sanitarista e colunista do GLOBO, Daniel Becker, em parceria com a jornalista Rita Lisauskas, assumiu a hercúlea tarefa de criar um livro para orientar as famílias. “Os 1.000 dias do bebê” (Editora Planeta) é um verdadeiro guia “para a jornada mais importante da vida dos nossos filhos”.
O que que te fez sentir a necessidade de criar um guia atualizado?
No consultório e no curso voltado para a primeira infância que dou na internet, as pessoas perguntavam muito por material bibliográfico, qual livro comprar, uma orientação escrita, que possam ter como referência. Também tenho uma percepção clara, há muito tempo, de que existe uma enorme perda de referências dos pais. Ao longo dos últimos 50, 70 anos aquela sabedoria que passava de avó para mãe e para filha, se perdeu. Antigamente, uma mulher de 20 e poucos anos já tinha experiência, sabia como cuidar do irmão, do sobrinho, tinha noções muito claras, além de uma sabedoria que passa intuitivamente pela observação. Sabiam os macetes do que fazer quando ficava doente, colocar fralda, fazer uma introdução alimentar e tudo mais. Tinha milhões de problemas? Sim, claro, tinha violência, ausência total do homem, excesso de mamadeiras, perda de amamentação, mas existia uma referência. Fomos perdendo essa vivência, as famílias se fragmentaram, tanto a sabedoria quanto a convivência com quem cria filhos foi se dissolvendo.
Virou um processo muito solitário.
O marido, mesmo que queira ficar, em cinco dias tem que voltar para o trabalho. Recentemente foi aprovada a licença de paternidade de 20 dias, e é algo que tem que ser comemorado. A avó, a mãe dela, trabalha também, não pode ir lá dar apoio direto.
Qual o papel da internet nessa busca por informações?
A grande referência das mães e dos pais hoje, quando estão grávidos ou vão ter filhos, são os videozinhos da internet, onde tem muita informação falsa, muito lixo. Tem informação de boa qualidade, é óbvio, mas toda fragmentada ou contraditória. Por exemplo, “como fazer o seu bebê dormir a noite toda?” Primeiro, falar que o bebê vai dormir a noite toda é criar falsas expectativas, segundo, uma pessoa diz “deixa chorar porque ele vai aprender a dormir sozinho”, e outra vai dizer “nunca deixe chorar, pega no colo toda vez”, são extremos, as pessoas ficam perdidas.
Em relação aos guias antigos, muita coisa mudou?
Certamente. Temos alguns clássicos com orientações muito legais, mas muita coisa muda com a atualização do conhecimento científico, não só sobre doenças e saúde, mas também sobre criação, desenvolvimento. Você acha que há 50 anos se falava na importância da brincadeira, na importância da natureza? O mundo mudou também, um livro de 50 anos falaria sobre os riscos de colocar um bebezinho na tela? Também tem atualizações na forma da parentalidade: hoje a gente sabe da importância dos limites, mas sem autoritarismo, sem violência, com firmeza e gentileza. Antigamente a tradição era palmada. E, também, claro, as doenças e a forma de cuidar, vacinação, prevenção, higiene, tudo isso precisava ser atualizado.
Qual a importância desses primeiros mil dias?
É o período mais importante da vida do ser humano. Não gosto da ideia de que uma vez que você perdeu aquilo, tudo está perdido, também não é assim. O cérebro se remolda, e temos muitas formas de resgatar coisas. Mas, de fato, tudo o que acontece com a criança nesse período tem importância para sempre. Todas as experiências que vive vão moldar o cérebro dela de uma forma brutal. Tem a formação dos sistemas, não só nervoso, mas o sistema muscular, o sistema respiratório, tudo nesse momento é extremamente influente na saúde futura. Vou te dar um exemplo: uma criança que tem previsibilidade, afeto, olho no olho, carinho, brincadeira, vai desenvolver seu cérebro com base nesses estímulos. Então, as vias que vão trazer bem-estar para ela estarão fortalecidas. Os neurônios vão nascer com a configuração que estabelece uma base segura para o resto da vida. Já uma criança que não é olhada e não tem carinho, não tem o espelho do adulto para formar o seu próprio ego, para formar as vias neurológicas que vão trazer segurança. Se o que fica mais ativado ali, em vez do hipocampo, que é o lugar da segurança emocional, é a amígdala, que é uma área do cérebro responsável por estresse, angústia, ansiedade, você está criando as bases de uma vida com mais risco de ansiedade. Todas as experiências, positivas e negativas, cada olhar, cada troca, cada carinho, conversa, leiturinha, passeio, brincadeira, faz diferença enorme no bebê. E a grávida ter contato com esse bebê na barriga, ter uma vida saudável, se exercitar, comer bem, se proteger de substâncias tóxicas, tudo isso vai fazer muita diferença. E mais, a epigenética mostra que a gente pode modificar a expressão dos nossos genes de acordo com nossas atitudes, com as nossas escolhas.
Ao mesmo tempo que é uma fase que demanda muito, as mães, principalmente, passam noites sem dormir, se sentem solitárias, sobrecarregadas e inseguras. Existe aquela frase ‘nasce uma mãe, nasce uma culpa’. Como evitar isso?
Acho que a primeira coisa que temos que fazer é dar visibilidade ao trabalho materno, ao trabalho de cuidado em geral, aliás, porque essa mãe que está com o recém-nascido, muitas vezes tem outro filho pequeno, pai ou mãe doente e ela cuida de todo mundo, da casa e da comida, porque o marido está trabalhando, e muitas vezes chega, bota o pé na mesa e quer assistir o jogo de futebol. É sobrecarga, é isolamento, é falta de apoio, é culpa, e por quê? Porque a sociedade, quando olha para o trabalho materno, olha com o dedo apontado. O problema é seu. Não há reconhecimento, não há agradecimento. É um trabalho muito ingrato, mas absolutamente necessário. Então ela precisa de apoio, tanto da família, começando pelo parceiro, quanto de políticas públicas.
Quais são as maiores questões que o senhor ouve no consultório?
O sono é um dos grandes problemas. A questão da alimentação também. A birra é extremamente cansativa, a criança começa a ficar diferente, se joga no chão, as pessoas acham que aquilo é um comportamento anormal, que está ficando agressiva. A cólica também é uma questão dificílima porque você vê a criança chorando metade do dia, e não sabe o porquê. A amamentação também é uma grande angústia, porque no início pode ser muito difícil, muito dolorosa. A mulher está no meio do puerpério, o marido já saindo de casa, a tia mandando dar mamadeira, e ela querendo amamentar, porque sabe que é o melhor. Tudo parece conspirar contra a amamentação e ela faz um esforço heróico, precisa de mais apoio. Uma das coisas que também dá angústia, são essas orientações contraditórias.
Existem linhas de criação divergentes também, certo?
A criação com apego — que é ficar com o bebê no colo o tempo todo, dormir junto e amamentar até o mundo acabar— ficou na moda durante um tempo. Não tem nada de errado, mas nem sempre é realista e não deve invalidar outras formas de cuidar. Você pode sair de casa com o bebê no carrinho em vez de no sling que o bebê não vai ficar burro por causa disso. Você pode amamentar até os oito meses e não querer amamentar até cinco anos, não é nenhum pecado. Não vai destruir o desenvolvimento. É preciso encontrar a solução mais apropriada para cada família, e não esses guias ou manuais que propõem uma solução única para todos. Não existe isso. A parentalidade respeitosa, democrática, com escuta e respeito, que é o estilo ideal, também passou a ser muito falada, mas começaram a confundir com permissividade. Não pode dar limite, não pode dar castigo, não pode dizer não. Isso não faz o menor sentido. São coisas totalmente diferentes.
E a mãe suficientemente boa, o chamado good enouth mother?
Essa é uma outra coisa interessantíssima. Uma coisa é a mãe precisar satisfazer todas as necessidades de um bebê recém-nascido, o que realmente é necessário. Outra coisa é um bebê de dois anos que quer mamar de noite porque não se acostumou a dormir sozinho. E essa mãe fica completamente desesperada, porque ela não sabe negar nada à criança e a trata como se tivesse dois meses ainda. É totalmente diferente. Ela pode, sim, colocar limites. É bom para começar a mostrar para esse bebê que atrás daquela mãe existe uma pessoa que tem direitos, necessidades, desejos também. Quando ela nega alguma coisa, com delicadeza, com respeito, está ensinando-o a olhar para o outro também, a ter empatia, a respeitar. É uma missão importante. Aliás, é um papel muito importante do pai, inclusive, de desfazer essa fusão excessiva entre mãe e filho, e mostrar para o bebê que existe o mundo, a cultura, os outros. O homem tem que participar e compartilhar todas as tarefas.
O que evitar para não desperdiçar essa fase tão especial?
A violência é sempre o pior erro, seja física, verbal, psicológica, desde o abandono até a permissividade. Pelo lado bom, o fundamental é a presença, da mãe, do pai, de todo mundo que cuida desse bebê. É o cuidado presente, com vínculo, conexão, afeto, satisfação das necessidades. Presença sem celular — que é outra questão. O celular, hoje, é o grande ladrão da presença. E as pessoas estão viciadas. Essa “distracted parenting” (parentalidade distraída), é uma das coisas mais nocivas hoje para o desenvolvimento humano. Outra coisa é tentar, ao máximo, amamentar, que é uma das atitudes mais importantes para o desenvolvimento, bem-estar e saúde. Investir na chamada exterogestação nos primeiros meses, estar muito junto do bebê, jamais negar o colo, o peito como um prolongamento do cordão umbilical. Não colocamos limites em bebezinhos pequenos, tentamos satisfazer ao máximo, porque ali não tem desejos, tem necessidades. Também precisamos tentar evitar o excesso de ansiedade. Temos que confiar na nossa própria capacidade. É muito difícil dar tudo errado. Tem que ser muito ausente, usar de violência… Mas fora esses erros muito grotescos, vai dar certo. O bebê, a criança vai ser um ser humano saudável. Temos que confiar nisso.
Fonte: https://oglobo.globo.com – Por Constança Tatsch – São Paulo
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