A divisão política em frente ao Congresso
Em qualquer circunstância em que o debate ultrapassa os limites toleráveis e perde a essência da disputa de ideias, percebe-se que os princípios fundamentais da própria democracia começam a ser atingidos.
E no contexto dos excessos da discussão descontrolada, torna-se evidente a presença de algo mais profundo e preocupante: um contínuo processo de erosão da confiança nas instituições, nos discursos oficiais e, sobretudo, nas intenções de quem ocupa o poder. Em outras palavras, chega uma hora em que ninguém acredita em mais nada, literalmente!
Não se trata apenas de discordância política, algo natural e até saudável em qualquer democracia. O problema surge quando a divisão deixa de ser um embate de ideias e passa a corroer a confiança que sustenta o próprio sistema democrático. É justamente nesse ambiente que a polarização encontra terreno fértil para prosperar. Daí a ilustração mostra com muita nitidez o que acontece: uma divisão de ideias e ideais. Onde cada qual só quer a sardinha para sua brasa.
À medida que a política atinge esse grau de radicalização, o debate público perde sua função essencial. Argumentos são substituídos por rótulos. Propostas são ignoradas em favor de ataques. A complexidade dos problemas nacionais cede lugar a simplificações convenientes. E o resultado é previsível: um país que fala muito, mas escuta pouco. Quando muitas vezes, escutar é também uma atitude inteligente!
A divisão política, que deveria refletir diferentes visões de país, deixa de cumprir esse papel. Já não se trata de um embate entre projetos, mas de uma disputa entre versões absolutas, nas quais o outro lado deixa de ser apenas adversário e passa, com frequência, a ser tratado como ilegítimo.
Quando decisões relevantes parecem responder mais a pressões políticas do que ao interesse público, a credibilidade se fragiliza. Quando promessas se acumulam sem entrega correspondente, instala-se o ceticismo. E quando discursos oficiais insistem em uma realidade que não se confirma no cotidiano das pessoas, a desconexão se torna evidente.
Nesse contexto, o cidadão comum passa a operar sob uma lógica defensiva: duvida antes de acreditar, rejeita antes de compreender. Pouco a pouco, o elo invisível que sustenta qualquer sociedade – a confiança – começa a se romper.
A polarização, por sua vez, não apenas se alimenta dessa desconfiança, como também a intensifica. Ao dividir o país em blocos rígidos, ela transforma qualquer tentativa de mediação em fraqueza e qualquer gesto de diálogo em motivo de suspeita.
Não há terreno fértil para reformas estruturais em um país onde sequer se consegue estabelecer uma base mínima de entendimento. Sem confiança, não há cooperação. Sem cooperação, não há governabilidade.
O desafio, portanto, não se resume à correção de políticas públicas ou a ajustes de rumos econômicos. Ele é mais profundo: trata-se de restaurar a capacidade de convivência democrática em um ambiente marcado pela suspeita generalizada.
A democracia não se sustenta apenas pelo direito de discordar, mas pela capacidade de construir a partir da diferença. Quando essa capacidade se perde, resta apenas o conflito. E um país que vive de conflito não governa, apenas reage. E o problema não é a simples reação, é a reação radicalizada.
Por fim, impõe-se uma pergunta incômoda, mas inevitável: como governar um país onde ninguém confia em ninguém?
Enquanto essa resposta não for construída – com atitudes concretas e não apenas com narrativas – o Brasil seguirá preso a um ciclo improdutivo, onde a polarização substitui o debate inteligente e a desconfiança corrói, silenciosamente, as bases da própria democracia.
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Aposentado do Banco do Brasil.-Salvador-BA.
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