Um pôr do sol na praia de Miami
Por: Agenor Santos – De Miami (EUA).
Viajar ao exterior raramente é apenas turismo. É, também, um exercício de observação cívica. A viagem vale pela grandeza do aprendizado, quanto às práticas e costumes de uma cultura diferenciada, e cujo exemplo positivo deve ser obviamente assimilado.
As cidades não impressionam apenas pelas praias ou pelas modernidades. O que chama a atenção, sobretudo, é a lógica de funcionamento do espaço público: organizado, limpo, sinalizado e, acima de tudo, respeitado. É isso que estamos observando e vivenciando em Miami durante a nossa atual visita. Sem dúvidas tem sido uma dádiva cultural para o nosso grupo de amigos da viagem!
A presença do policiamento não significa a imposição de uma ação ostensiva, mas passa aos visitantes o claro entendimento de que a autoridade está ali e que as normas da boa disciplina serão aplicadas. A consequência é simples: o desrespeito tende a diminuir quando a probabilidade de punição é concreta. Então, a boa conduta se faz necessária a todo instante aonde quer que você vá.
E no Brasil, nada mais comum e frequente do que se assistir às pessoas jogando papéis, sacos plásticos, tocos de cigarro, latas vazias de cerveja, e tudo mais que possa emporcalhar as vias públicas. Às vezes a Guarda Municipal e policiais estão próximos, assistem, mas não reprimem a prática, refletindo um ambiente institucional em que a aplicação das regras nem sempre é consistente. Por isso, temos o codinome de “país do terceiro mundo” ou, na melhor das hipóteses, “país em desenvolvimento”. Daí, nem sei qual título é pior.
Acontece que a limpeza pública não deve depender da ação permanente do poder público, mas deve ser o resultado de um comportamento coletivo. E esse trato cultural deve começar nas escolas e ser ampliado e desenvolvido através dos meios de comunicação, embora estes, atualmente, pouco façam nesse sentido educacional. A eles o que mais importa são as notícias vendáveis.
O contexto oferece uma profunda reflexão para o Brasil: políticas públicas funcionam melhor quando encontram respaldo cultural. Não basta varrer as ruas e praças: é importante e fundamental educar e responsabilizar. A lei existe, mas a sua aplicação é irregular. E onde a regra falha, instala-se a cultura da exceção.
É claro e evidente que são detalhes culturais que não nascem da noite para o dia, espontaneamente. São frutos de décadas de firme aplicação da lei e de um sistema que pune com eficiência. No Brasil, frequentemente, a norma é relativizada. A infração pequena é tolerada; a grande, muitas vezes, negociada. E assim se constrói um ambiente de relaxamento e permissividade.
E das observações feitas aqui em Miami nesses primeiros dias, não há qualquer pretensão de comparar com as metrópoles brasileiras, ignorando o significado das diferenças históricas, sociais ou econômicas entre elas. A compreensão, contudo, não deve servir como desculpa para a inércia e a acomodação. Ordem urbana não é privilégio de países ricos. É a escolha de modelo administrativo combinado com uma cultura de responsabilidade.
Mais do que praias e arranha-céus, Miami oferece uma lição silenciosa: cidades organizadas não são obra do acaso. São resultado de planejamento contínuo, fiscalização efetiva e compromisso cívico.
Para o Brasil, a reflexão é inevitável: enquanto continuarmos tratando as pequenas infrações como algo irrelevante, estaremos apenas alimentando o ciclo da desordem que tanto criticamos. Nenhuma cidade será verdadeiramente limpa, segura ou funcional se a regra existir apenas no papel.
A verdadeira transformação começa quando a sociedade decide que a lei deve ser respeitada, não apenas pelos outros, mas por cada um de nós.
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Aposentado do Banco do Brasil.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

2 Comentários
Caro Agenor, bom dia!
Neste editorial, você revela a sensibilidade de quem sabe transformar uma viagem de lazer em um verdadeiro exercício de cidadania. Ao observar a ordem urbana de Miami — marcada por planejamento, respeito às normas e responsabilidade coletiva — você nos conduz a uma reflexão necessária sobre nossas próprias cidades. Seu texto destaca, com lucidez, que limpeza, organização e respeito ao espaço público não são apenas resultado da ação do poder público, mas sobretudo de uma cultura social construída pela educação e pela aplicação efetiva da lei. Uma leitura pertinente, que nos convida a pensar o Brasil não apenas pelo que somos hoje, mas pelo que podemos — e devemos — nos tornar.
Belo Artigo grande cronista. Pela imagem que ilustra o texto, pelas abordagens mostrando a diferença de culturas e educação, que pode ser conferida na própria foto, quando olhando bem, não se ver um cisco sequer no chão. QUE DIFERENÇA PARA UM CERTO LUGAR QUE VIVEMOS! Uma aula de civilização, o seu Artigo!