O final da folia e o fechamento das contas
O carnaval pode ser considerado o ápice dos festejos tradicionais, dentre os muitos que integram o ciclo de festas ao longo do ano. Obviamente que é expressivo o volume de pessoas que participam do evento, mas, também, é enorme o grau de rejeição por um vasto segmento da sociedade, o qual busca alternativas para preencher o tempo de paralização das atividades produtivas, em algumas regiões com duração alongada, a exemplo de Salvador.
Certamente que são inquestionáveis os resultados econômicos gerados pelo carnaval, especificamente para os setores diretamente vinculados com a estruturação e realização da festa, merecendo destaque a expressiva utilização de mão de obra e os benefícios para a rede hoteleira.
O Brasil é um país que celebra tudo com intensidade. No Carnaval, as ruas se enchem de música, cores e grande euforia. Todo esse espírito festivo, contudo, leva-nos à reflexão sobre algumas circunstâncias que interferem no conjunto da obra. Essa preocupação decorre do fato de que, quando a festa termina, há uma realidade que permanece intacta e cada vez mais pesada: como ficam as Contas Públicas!
Sim, porque à medida em que a grande massa se diverte nas ruas, há uma contabilidade atuante e silenciosa que se vira nos bastidores para justificar os elevados valores do patrocínio de artistas, trios elétricos, carros alegóricos e toda a monumental estrutura do evento, nem sempre muito claros e justos!
Esse tipo de gasto amplia pressões sobre um orçamento historicamente deficitário, gerando o crescimento da dívida pública, a qual não desaparece com discursos otimistas pós carnavalescos. A folia pode durar alguns dias, mas, a dívida não. E a realidade é que a matemática fiscal não se submete ao entusiasmo político dos governantes. Finalmente, chegam os desequilíbrios fiscais estruturais!
Quando o som dos trios elétricos silencia, quem fala mais alto é a realidade fiscal. E essa não aceita fantasias. Sempre que receitas são superestimadas ou despesas são ampliadas sem contrapartida clara, o mercado reage, os juros sobem, a confiança diminui e a inflação mostra a sua cara. A consequência de tudo é que o cidadão comum é diretamente atingido: crédito mais caro, redução nos investimentos públicos e crescimento reduzido da economia.
Nesse universo repleto de divertimento e prazer para o cidadão, há um contraponto que não pode ser desprezado: A CONTA ALTA CHEGA DEPOIS DA FOLIA! E essa conta chega de forma silenciosa: na inflação que corrói salários, no imposto que aumenta sem alarde, na oportunidade de emprego que não se concretiza. E o pior está na descoberta de que os gastos chegaram a um montante acima do esperado!
O Brasil precisa decidir se quer viver com permanentes ciclos de festas monumentais ou priorizar os ciclos sustentáveis de crescimento. Não se trata de negar a festa, mas de garantir que o cidadão não pague, depois, com inflação e desemprego, o preço de decisões pouco responsáveis. Alegria momentânea não substitui estabilidade permanente.
Em ano eleitoral, é cabível perguntar: estamos investindo na alegria de alguns dias ou hipotecando o equilíbrio de muitos anos?
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Aposentado do Banco do Brasil-Salvador-BA.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

2 Comentários
Caro Agenor, bom dia!
Seu editorial, “A CONTA ALTA CHEGA DEPOIS DA FOLIA”, é lúcido e necessário. Concordo plenamente quando o senhor destaca que, enquanto a festa encanta multidões, há uma contabilidade silenciosa que apenas registra – e depois cobra. A matemática fiscal não se fantasia.
Permito-me acrescentar que, para alguns, a conta chega antes mesmo da folia começar, nas negociações e destinações de recursos que priorizam conveniências. É inegável o impacto econômico do Carnaval, mas também cresce a rejeição de quem, por convicções – inclusive religiosas -, não participa da festa e, ainda assim, é chamado a dividir a conta.
A questão central não é negar a tradição, mas discutir a forma como essa conta é distribuída e quais são as prioridades adotadas.
Sua pergunta permanece atual e incômoda: estamos investindo na alegria de alguns dias ou comprometendo o equilíbrio de muitos anos? Provavelmente, não haverá resposta clara. Mas a reflexão já é indispensável.
Bom dia. É normal todo ano, após o carnaval. As pessoas acham que não vão pagar o que deve e acumula juros. E deixa prá pagar no feirão. (Irecê-BA).