À medida que o país se aproxima de mais um pleito eleitoral, cerca de 150 milhões de brasileiros voltarão às urnas para escolher presidente da República, governadores, senadores e deputados. Tradicionalmente, é o momento marcado por expectativas e promessas de mudança, e quando reacende no eleitorado o desejo legítimo de renovação política e de reconstrução da confiança nas instituições públicas.
Entretanto, essa esperança convive com um sentimento de frustração e cansaço do eleitorado com o debate recorrente sobre a crise do sistema político. Uma mesmice que se repete, mas nada acontece.
A descrença não nasce apenas de escândalos sucessivos ou da deterioração ética na vida pública, mas, também, de distorções estruturais do sistema político que se perpetuam ao longo do tempo. Entre elas, destaca-se a fragmentação partidária excessiva e seus impactos diretos sobre a governabilidade, a eficiência do Parlamento e a confiança do eleitorado.
O país convive atualmente com 30 partidos registrados no Tribunal Superior Eleitoral, além de dezenas de outras legendas em processo de formação. Esse cenário não reflete, como se poderia supor, uma pluralidade saudável de ideias ou projetos de nação. Ao contrário, revela um sistema marcado pela pulverização de interesses, pela fraqueza programática e pelo encarecimento do processo decisório no Congresso Nacional.
A proliferação de siglas, muitas vezes criadas a partir de dissidências ocasionais ou disputas internas por espaço e poder, transformou-se em instrumento de sobrevivência política e negociação. Em vez de fortalecer a representação democrática, esse modelo favorece alianças instáveis, barganhas permanentes e a troca sistemática de apoio por cargos, emendas e vantagens orçamentárias. Governa-se menos por projetos estruturantes e mais por interesses circunstanciais. E é aí onde está o que há de pior nesse sistema eleitoral, onde até moeda de troca existe!
Como consequência direta, o Parlamento deixa de cumprir plenamente seu papel como espaço de construção de consensos e passa a operar, com frequência, como arena de interesses fragmentados, dificultando respostas rápidas e eficazes às demandas sociais. Reformas essenciais tornam-se reféns de cálculos políticos imediatos, enquanto problemas estruturais do país permanecem sem solução. Realidade essa que todos veem, mas ninguém se habilita a resolver!
A pluralidade partidária deveria fortalecer a democracia, ampliando a representação de correntes ideológicas e sociais. O que testemunhamos na prática, porém, é que o excesso de legendas – muitas delas sem identidade programática clara -, resulta em negociações permanentes, alianças instáveis e na troca sistemática de apoio político por cargos, emendas e vantagens orçamentárias.
Como consequência, o Congresso, em vez de se constituir num espaço de construção de consensos, transforma-se frequentemente em arena de barganhas, dificultando respostas rápidas e eficazes às demandas nacionais.
O enfraquecimento partidário brasileiro deixou de ser apenas uma característica do sistema político para se tornar um obstáculo ao desenvolvimento nacional. Enquanto a multiplicação de legendas continuar servindo mais a projetos pessoais do que ao interesse público, o país seguirá refém da paralisia decisória e da baixa eficiência governamental.
Reduzir esse labirinto de siglas não é uma ameaça à democracia, mas condição essencial para fortalecê-la. Um sistema político mais coeso, programático e responsável é requisito indispensável para que o Brasil transforme expectativas eleitorais em soluções concretas.
A frequência com que projetos importantes e reformas estruturais são arquivadas e esquecidas pelo tempo, demonstram a necessidade de o Parlamento Nacional reimplantar práticas mais respeitosas, objetivas e eficientes.
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Aposentado do Banco do Brasil-Salvador-BA.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

5 Comentários
O RESUMO DO TEMA DESSA SEMANA É:
MUITOS PARTIDOS, POUCAS SOLUÇÕES PARA O POVO, E NA MAIORIA TODAS PARA OS INTERESSES DELES PRÓPRIOS…. OU NAO?
Bem esclarecido o seu texto professor Agenor, isto reflete a realidade do nosso país. (Irecê-BA).
Muito bom! (Uibaí-BA).
Caro Agenor, o editorial desta semana se destaca pela lucidez e, sobretudo, pela coragem serena com que enfrenta um dos nós centrais da crise política brasileira. Com linguagem firme e respeitosa, você expõe uma realidade conhecida pela população, mas raramente dita com tamanha clareza: a fragmentação partidária deixou de ser pluralidade democrática e passou a ser um entrave ao interesse público. Mais uma vez, sem recorrer a ataques pessoais ou discursos inflamados, você cumpre um papel cada vez mais raro – informar, provocar reflexão e dar voz ao sentimento coletivo de cansaço e descrença. Não se omitindo, não exagera e não ofendendo; apenas coloca os fatos à mesa, com responsabilidade e compromisso com o debate público. É o jornalismo opinativo que honra sua função social.
Muito bom seu artigo, nos faz refletir sobre a fragilidade do atual processo político partidário!