Os avanços tecnológicos dos últimos anos – muitos deles tão rápidos quanto surpreendentes -, têm provocado um impacto profundo na vida contemporânea, desafiando a capacidade de adaptação das pessoas e sacudindo as estruturas tradicionais do mundo do trabalho. O extraordinário surgimento da IA-Inteligência Artificial, em especial, tem redefinido ofícios, acelerando transformações que antes pareciam distantes. Mas, enquanto a tecnologia avança, o trabalhador brasileiro enfrenta dilemas bem mais imediatos: sobreviver, garantir renda e, sobretudo, preservar o próprio futuro.
Desde a ampliação dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família – que cumpriu um papel social relevante ao combater a fome e reduzir desigualdades, embora seja explorado politicamente -, parte da população passou a enxergar a formalização do trabalho como ameaça ao benefício que garante o sustento básico. Ou seja, o trabalho perdeu valor para muitos. É uma dura realidade!
O resultado é a consolidação de uma prática silenciosa: inúmeros brasileiros aceitam trabalhar, desde que sem carteira assinada, para não comprometer o recebimento mensal da “bolsa” hoje indispensável ao orçamento familiar e, em alguns casos, estimuladora de acomodação. Uma escolha que, embora compreensível em contextos de vulnerabilidade, alimenta um ciclo de informalidade que fragiliza toda a sociedade. E pensando bem, prejudica toda a economia: afinal de onde virão os recursos necessários aos cofres públicos sem a arrecadação dos impostos gerados pelo trabalho formal? Não virão, nem virá o desenvolvimento.
O que grande parte desses trabalhadores desconhece é que a informalidade pode até livrá-los do pagamento de impostos hoje, mas cobra algo muito mais valioso amanhã: o futuro. Sem previdência, sem proteção trabalhista, sem acúmulo e sem perspectiva de progressão, milhões de brasileiros seguem ocupados, porém, não progridem. É um ciclo quase naturalizado, no qual o ganho imediato pesa mais do que a perda lenta e invisível de direitos fundamentais.
Esse preço oculto só se revela nos momentos decisivos da vida: na velhice, na doença ou nas crises econômicas, quando os que mantêm a economia ativa nas ruas, nas obras e nos aplicativos, descobrem que nunca tiveram uma rede de proteção real. A informalidade não aparece nos balanços como um déficit imediato, mas corrói silenciosamente o futuro de todo o país.
Nos primeiros meses, ela pode até parecer uma forma de liberdade: horários flexíveis, aparente autonomia, ausência de descontos. No entanto, com o passar dos anos, essa suposta vantagem se converte em um acúmulo de ausências: sem aposentadoria, sem seguro, sem estabilidade, sem patrimônio, sem horizonte.
É importante não confundir essa realidade com o empreendedorismo informal movido por criatividade e iniciativa, como o de quem inicia um pequeno negócio antes de obter um CNPJ. Nesse universo surgem desde vendedores autônomos até projetos inovadores classificados como “startups”, empresas jovens, tecnológicas e orientadas ao crescimento acelerado. Ainda que enfrentem riscos, trata-se de um fenômeno distinto daquela informalidade que rejeita a formalização por medo de perder benefícios sociais.
No terceiro trimestre de 2025, o Brasil registrou aproximadamente 38,7 milhões de trabalhadores na informalidade, o que representa uma taxa de 37,8%. Os números escancaram o tamanho do desafio. E pelo andar da carruagem, essa informalidade – que muitas vezes funciona como máscara para a sonegação -, tende a cobrar um preço alto.
A base do problema, porém, permanece: a baixa compreensão sobre os impactos de longo prazo. Falta cultura previdenciária, educação financeira e visão estratégica, elementos que poderiam impedir milhões de caírem em uma armadilha silenciosa, cuja gravidade só se percebe quando já é tarde demais.
A grande pergunta que fica é: por quanto tempo o Brasil aceitará pagar esse preço invisível? Está na hora de oferecer o anzol e não apenas o peixe; dar dignidade e perseverança, para que não nos tornemos uma sociedade sem conhecer o quanto o trabalho é nobre!
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Salvador – BA.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

3 Comentários
Caro Agenor, bom dia!
Seu editorial acerta ao expor um dilema urgente: enquanto a tecnologia redesenha o mercado de trabalho, muitos brasileiros enfrentam dilemas imediatos – sobreviver e preservar o pouco de estabilidade que têm. Para beneficiários do Bolsa Família, formalizar-se pode significar risco de perder a renda garantida; é uma escolha racional diante da vulnerabilidade, mas que alimenta a informalidade e debilita o futuro coletivo.
A informalidade resolve o presente, porém sacrifica direitos e proteção: sem previdência, sem segurança trabalhista e sem trajetória de progresso, o “preço invisível” só se revela em crises, doença ou na velhice. Por isso sua provocação é necessária: até quando o país aceitará esse custo? É preciso ir além da assistência imediata – oferecer qualificação, transições seguras para o mercado formal e incentivos reais à formalização. Só assim o trabalho voltará a ser caminho de dignidade e autonomia, e não fonte de risco.
Parabéns pela análise.
É preciso oferecer o anzol, a vara e até mesmo o acesso ao rio – isto é, condições estruturais que permitam ao indivíduo caminhar sem depender eternamente do Estado.
Explanação sóbria, feita com muita propriedade, a exemplo de outras.. Parabéns!
(Vitória-ES).
Infelizmente, o cachimbo botou a boca torta, e isto foi planejado, proposital, para que o Brasil chegasse à podridão que aí está, explicando e justificando a abertura para a entrada da ditadura comunista da China. (Miguel Calmon-BA).