
O desvio de amostras de vírus na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), caso no qual uma cientista é suspeita de furto, despertou interesse sobre a segurança nos laboratórios que lidam com agentes infecciosos. Há diferentes órgãos responsáveis por credenciar essas instalações no Brasil, e centros de pesquisa com essas instalações se dizem preparados para prevenir e reagir a incidentes.
O episódio no interior paulista ocorreu num laboratório com nível de biossegurança 3 (NB-3), o mais rigoroso em estruturas do tipo no país. Essas unidades de pesquisa são projetadas, particularmente, para lidar com patógenos transmitidos pelo ar e evitar que saiam do ambiente controlado.
A gradação de biossegurança leva em conta fatores como infectividade e virulência dos microrganismos infecciosos com que cientistas lidam, além disponibilidade de medidas terapêuticas para as doenças em questão. Os laboratórios são classificados como NB-1, NB-2, NB-3 ou NB-4, de acordo com o rigor exigido.
– Eles se diferenciam pela infraestrutura das instalações, pelos equipamentos de segurança, pelos procedimentos e pelas práticas laboratoriais. A função de cada é fornecer condições seguras para a manipulação dos agentes biológicos, garantindo a proteção do pesquisador, da população e do meio ambiente – explica Tatiana Ometto, gerente de biossegurança do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, que abriga um laboratório NB-3 e vai inaugurar o primeiro NB-4 da América Latina.
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O virologista Jansen de Araujo, coordenador do Laboratório de Pesquisa em Vírus Emergentes do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), uma unidade NB-3, considera serem “compreensíveis as preocupações” após o furto na Unicamp. Ele reforça, porém, a importância de o país manter essas estruturas de estudo de microrganismos nocivos para lidar com epidemias internas e se preparar para o risco de novas pandemias.
– Existem diversos vírus estudados no Brasil em laboratórios NB-3. Eles são fundamentais para pesquisa sobre agentes como vírus emergentes, bactérias multirresistentes e fungos patogênicos – conta. – Por exemplo, na pandemia da Covid-19, quando o vírus chegou ao país, a recomendação era trabalhar em laboratórios NB-3 pois se tratava de um agente desconhecido e de fácil transmissão por aerossol.
No caso do coronavírus, foi essa infraestrutura laboratorial que permitiu chegar ao entendimento da estrutura do patógeno, o sequenciamento do seu genoma completo, a compreensão dos métodos de transmissão e a realização de estudos necessários para criar vacinas.
Sem um órgão único que supervisione esses laboratórios no Brasil, não há regra universal que determine como eles devem ser, mas há referências internacionais que cientistas do país seguem. Entre elas estão manuais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).
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Requisitos de biossegurança
O guia Biossegurança em Laboratórios Microbiológicos e Biomédicos, considerado a “bíblia” desse órgão americano, determina que em laboratórios NB3 todos os procedimentos sejam feitos em bancadas com cabines separadas, batizadas de “capelas”, e técnicos usem traje de proteçao fechado com luvas e máscara. O acesso ao laboratório deve ser controlado, sem entrada de ninguém que não tenha treinamento. Quem entra precisa estar sob monitoramento médico para febre e outros sintomas de infecção.
Todo o equipamento não descartável precisa ser esterilizado em autoclave, uma câmara de circulação de vapor de água em alta pressão e temperatura. O lixo gerado precisa de esterilização ou incineração, e amostras organismos precisam de frascos com camada dupla contra vazamento e ruptura (vidro por dentro e metal por fora, tipicamente). Esse material é tipicamente armazenado em ultrafreezers, que atingem temperaturas abaixo de -80°C.
Os prédios dessas instituições devem ter um sistema de ventilação especial, que diminui a pressão atmosférica interna, impedindo que haja saída de ar da instalação. O sistema requer backup de energia. Técnicos entram e saem do ambiente atravessando portas duplas com hall.
O controle de pessoal é um dos pontos onde os manuais não ditam fórmulas prontas. Araujo cita o caso de instalações no Brasil com acesso restrito via biometria, senha particular ou reconhecimento facial. Essa é uma medida, porém, que provavelmente não teria prevenido o incidente na Unicamp, uma vez que a cientista suspeita de desviar amostras era docente da própria instituição.
Quem supervisiona
Uma das exigências dos CDC para credenciar laboratórios nos EUA é que as instalações passem por fiscalização ou auditoria independente. Isso também é feito no Brasil, mas não há um órgão único responsável.
O Ministério da Saúde é responsável por laboratórios clínicos e saúde pública que trabalham com patógenos humanos. Já o Ministério da Agricultura cuida de laboratórios que trabalham com zoonoses, e a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) trata daqueles que manipulam organismos geneticamente modificados.
Não há um sistema único de acreditação. O Instituto Nacional de Metrologia Qualidade e Tecnologia (Inmetro) oferece credenciamento a instituições pelo padrão ISO 17025 de competência técnica.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é um dos órgãos que foram chamados como parte do protocolo de contenção do caso ocorrido em Campinas, mas não tem papel de supervisão da universidade. A agência cuida apenas de laboratórios de produção de insumos farmacêuticos e biológicos.
Por causa dessa regulamentação fragmentada, não há um censo geral de laboratórios NB-3 no Brasil, mas seu número total é provavelmente na escala das poucas dezenas). No mundo desenvolvido eles não são tão raros.
Um estudo australiano publicado no periódico Journal of Public Health em 2025, mapeou 3.515 laboratórios NB-3 distribuídos em 149 países. Quase metade (47%) fica nos nos EUA, e a maioria (82%) entre nações de renda alta.
Já em relação ao nível de segurança máxima, o NB-4, um relatório de 2023 do King’s College de Londres mostrou que existem somente 69 unidades pelo mundo, 51 em funcionamento e 18 em desenvolvimento, em 27 países. A maior parte (38%) fica na Europa.
Segurança máxima
Um complexo NB-4 possui uma quantidade de exigências muito maior, e normalmente é planejado do zero para cumprir os requisitos. Pelos critérios do CDC, essas instalações precisam ter prédios próprios e paredes 100% seladas. O ar entra e sai por meio de uma série de filtros ultrafinos. Lixo e efluentes precisam ser tratados em alta-temperatura para descarte.
Nessas instalações de biossegurança máxima, cientistas precisam de trajes isolados pressurizados com oxigênio pessoal ou usar as chamadas “caixa de luva”: cubos de vidro lacrados, com luvas conectadas a aberturas para as mãos.
Esses laboratórios possuem vestiários internos para técnicos vestirem trajes especiais, e todos passam por uma ducha sanitária e um banho na saída. O controle de acesso é bem mais rígido, também, com entrada e saída de pessoal registrada e inspeções diárias.
O novo laboratório NB-4 do Brasil, batizado de Orion, será o primeiro da América Latina e o primeiro no mundo conectado com uma fonte de luz síncrotron, usada para pesquisa avançada de análise físico-química, fornecida pelo acelerador de partículas Sirius. A iniciativa, contemplada no orçamento do governo federal 2023, recebeu um investimento de R$ 1 bilhão. O complexo laboratorial terá 29 mil metros quadrados, e a estimativa é que as obras no CNPEM terminem no ano que vem.
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Enquanto coronavírus e vírus de gripe podem ser manipulados em unidades NB-3, os laboratórios NB-4 são reservados patógenos mais letais, como Marburg e Ebola, além de patógenos emergentes que não sejam bem conhecidos.
Um exemplo da falta que um NB-4 faz para o Brasil é a impossibilidade de trabalhar com o único vírus de nível máximo de risco descoberto no país, nos anos 1990, chamado de Sabiá, causador da febre hemorrágica brasileira. Embora extremamente raro, dois casos foram diagnosticados em 2019 em São Paulo.
– Esse vírus têm amostras armazenadas no exterior que não podem ser estudadas no país devido à ausência de infraestrutura de máxima contenção biológica. E o Brasil é identificado como um dos locais de alto risco para o surgimento de novas pandemias devido à combinação de alguns fatores, como aumento do desmatamento e mudanças climáticas, vasta biodiversidade e desafios socioeconômicos, que criam condições propícias a novas crises sanitárias – afirma Tatiana.
– É também uma questão de soberania nacional, segurança sanitária e avanço científico – defende Araujo.
Um equilíbrio entre os riscos e benefícios de operar laboratórios com padrão de biossegurança também existe no caso dos NB-3. A própria Unicamp defende que o episódio do desvio de amostras de vírus foi um exemplo de como a instituição conseguiu reagir adequadamente à situação uma vez que ela foi detectada.
“O episódio ocorrido foi um caso isolado, resultante de circunstâncias atípicas que estão sendo averiguadas no âmbito da investigação policial”, disse a universidade em seu último comunicado.
Entenda os diferentes níveis de biossegurança
- NB-1 (risco individual e para a comunidade baixos)
Agentes biológicos conhecidos por não causarem doenças no ser humano ou nos animais adultos sadios.
Exemplos: Lactobacillus spp. e Bacillus subtilis.
- NB-2 (risco individual moderado e risco limitado para a comunidade)
Patógenos que provocam infecções no ser humano ou nos animais, cujo potencial de propagação na comunidade e de disseminação no meio ambiente é limitado, e para os quais existem medidas profiláticas e terapêuticas conhecidas e eficazes.
Exemplos: Vírus da rubéola, Schistosoma mansoni (esquistossomose), Clostridium tetani (tétano).
- NB-3 (risco individual alto e risco para a comunidade moderado)
Microrganismos com capacidade de transmissão, em especial por via respiratória, e que causam doenças potencialmente letais em humanos ou animais, e para as quais existem, usualmente, medidas profiláticas e terapêuticas.
Exemplos: Bacillus anthracis (antraz), vírus da imunodeficiência humana (HIV), Hantavirus, Yersinia pestis (peste), SARS e H5N1 (gripe aviária).
- NB-4 (riscos individual e para a comunidade altos)
Agentes biológicos com grande poder de transmissibilidade, em especial por via respiratória, ou de transmissão desconhecida, sem medida profilática ou terapêutica eficaz. Eles causam doenças de alta gravidade em humanos e animais, tendo grande capacidade de disseminação na comunidade e no meio ambiente.
Exemplos: Sabiá, Nipah, Ebola, Marburg, Febre de Lassa (febres hemorrágicas), varíola.
Fonte: https://oglobo.globo.com – Por Bernardo Yoneshigue e Rafael Garcia – Rio de Janeiro e São Paulo
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