Parece um fato comum às Nações ainda em desenvolvimento, e no Brasil não seria diferente, a convivência com momentos em sua trajetória histórica, em que os números dos indicadores econômicos, as decisões políticas e o humor da sociedade, não conseguem viver em sintonia.
Indicadores oficiais apontam para alguma estabilidade, mas o processo eleitoral desloca o foco do debate para o campo da disputa narrativa. Mais do que interpretar dados, atores políticos passam a reinterpretá-los conforme suas conveniências, ampliando a distância entre o que é divulgado e o que é percebido. A economia, nesse contexto, deixa de ser apenas um dado objetivo e passa a ser instrumento de construção política. Em outras palavras, plantam e semeiam mentiras, mentirinhas e estorinhas da maneira que mais lhes sejam interessantes.
Essa dinâmica contribui para a consolidação de um ambiente de desconfiança. A população, impactada diretamente pelo custo de vida e pela perda de poder de compra, tende a relativizar discursos oficiais, sobretudo quando estes não encontram correspondência clara no cotidiano. Forma-se, assim, um eleitorado mais cauteloso, menos suscetível a narrativas otimistas e mais atento à sua própria experiência.
No plano institucional, o cenário também se mostra tensionado. As relações entre os Poderes, frequentemente marcadas por conflitos e disputas de protagonismo, acabam sendo absorvidas pelo processo eleitoral e incorporadas ao discurso político. O resultado é a ampliação da percepção de instabilidade, ainda que as instituições permaneçam formalmente operantes.
A proximidade do pleito intensifica esse quadro. A ausência de consensos mínimos e a fragmentação das forças políticas dificultam a construção de candidaturas que transcendam nichos específicos. Em vez de projetos amplos de país, o que se observa é a predominância de estratégias voltadas à mobilização de bases já consolidadas, o que limita a capacidade de gerar confiança em setores mais amplos da sociedade.
O país não está paralisado, mas também não avança com consistência. Oscila entre sinais positivos e frustrações recorrentes, construindo um ritmo irregular que fragiliza expectativas. Nesse contexto, o problema central deixa de ser apenas o crescimento e passa a ser a sua credibilidade. E ter credibilidade é um fator da maior importância para uma Nação que precisa se firmar nos mercados internacionais, ou melhor, no contexto mundial.
O fato de estarmos num ano eleitoral, a menos de 6 meses do pleito, contribui para um visível estado de insegurança. Isso porque, não tendo um cenário político que ofereça à Nação uma perspectiva de mudanças, o quadro se agrava diante da escassez de nomes representativos na disputa presidencial, que inspirem o espírito de confiança do povo brasileiro.
Precisamos enxergar no perfil das nossas lideranças atuais e futuras, um mínimo de disposição para desenvolver um ambiente político menos orientado para o confronto e mais comprometido com a construção de consensos mínimos. Sem esse direcionamento, qualquer avanço pode ter caráter temporário e assim insuficiente para alterar o sentimento predominante. E tem ainda, a intromissão de outros poderes atrapalhando muitas vezes a governabilidade, o que vem se configurando como uma legítima queda de braço dominada pelas vaidades.
Seria imprudente afirmar que o país está estagnado. Segue em movimento constante, mas em ritmo que precisa ser mais bem definido. Oscila entre avanços e recuos pontuais, entre expectativas renovadas e frustrações recorrentes. Esse compasso marcado pela hesitação acaba por se tornar o traço dominante do momento.
Para vencer os desafios que nos conduzirão ao caminho que o país precisa percorrer na direção do seu futuro, impõe-se restabelecer a credibilidade como fator fundamental.
Mais do que crescer, o Brasil precisa convencer. Enquanto a percepção coletiva permanecer dissociada dos dados oficiais, o país seguirá operando em um terreno instável, onde avanços não se consolidam e expectativas não se sustentam. E o que mais vemos é a predominância do faz de conta, infelizmente…
O Brasil não enfrenta apenas uma disputa eleitoral. Enfrenta, sobretudo, um teste de confiança. E é dessa variável – mais do que de qualquer indicador isolado – que dependerá a capacidade de o país sair do atual compasso das incertezas.
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Aposentado do Banco do Brasil.-Salvador-BA.
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade

2 Comentários
Parabéns ao Agenor pela lucidez e pela capacidade de retratar, com clareza, o momento que o Brasil atravessa. Seus editoriais dominicais no blog do Florisvaldo seguem como leitura relevante e necessária.
O texto dessa semana, destaca com precisão a desconexão entre os indicadores econômicos, as decisões políticas e o humor da sociedade – um descompasso que abre espaço para narrativas moldadas por conveniência, muitas vezes distantes da realidade.
É pertinente também a análise sobre a formação de um eleitorado mais cauteloso, menos suscetível a discursos otimistas e mais atento à própria experiência. Nesse cenário, o ponto central deixa de ser apenas o crescimento e passa a ser a sua credibilidade, ainda mais sensível em um ano eleitoral que intensifica a insegurança.
A conclusão é assertiva: mais do que crescer, o Brasil precisa convencer. E será essa confiança que definirá a capacidade do país de superar o atual compasso de incertezas.
Bem ditas palavras. E bem assertivas colocações por tudo que a gente assiste diariamente. Não adianta ter riquezas naturais, se as gestões são desastrosas e pouco responsáveis. Então bota incertezas nisso…