
Meditação – O escritor japonês, especialista em treinar a mente por meio dos princípios das artes marciais, trabalha a ideia de explorar a filosofia samurai – Foto: Katerina May/Unsplash
Tudo começava na infância, entre os 5 e os 7 anos. Não envolvia apenas um compromisso físico exaustivo com o domínio da espada (kenjutsu), do arco (yumi), da lança (yari) e de diversas artes marciais, mas também um profundo caminho de conhecimento acadêmico e saber espiritual. O bushido, ou caminho do guerreiro, nasce no século XI, durante o período Heian (794–1185), no Japão.
Naquele contexto, famílias nobres e autoridades formavam exércitos privados para defender seus territórios diante da ausência de um poder centralizado. Assim surgiram os samurais. Seu treinamento estimula a disciplina, a honra, a lealdade e a filosofia zen.
Keiichi Toyoda nasceu no Japão, mas, por conta de uma missão profissional atribuída ao pai, passa oito anos em Buenos Aires, na Argentina. Aprendeu um pouco de espanhol nessa época, mas acabou esquecendo completamente o idioma quando retorna ao país natal. Ainda assim, afirma que a vivência na Argentina despertou sua paixão pela educação global – que hoje é seu principal objetivo.

Aos 25 anos, fundou sua primeira empresa e, aos poucos, passava a valorizar o saber de ouvir o fio da própria espada. Faixa-preta terceiro dan em battojutsu – a arte de desembainhar e manejar a katana com a precisão de um relâmpago – e faixa-preta segundo dan em aikido, encontrou nas artes marciais muito mais do que uma prática física.
– É uma forma de ler a vida, afirma.
Durante mais de 25 anos, liderou uma empresa no Japão dedicada a descobrir e expandir as possibilidades do talento humano. Com a mesma visão, fundou em Tóquio a escola Wanna Be Samurai Japan, um espaço em que a tradição samurai é ressignificada como bússola de crescimento pessoal. Atua como professor convidado na Universidade Kanda de Estudos Internacionais, em Chiba, e colabora como pesquisador visitante no Instituto de Gestão Transnacional de Recursos Humanos da Universidade Waseda, em Tóquio. Formou-se na Universidade Sophia e, mais tarde, cruzou continentes para obter um Executive Master em Liderança e Estratégias na IE University, em Madri. Recentemente, lançou em espanhol o livro Mentalidad de Samurái.
Para Toyoda, é fundamental ensinar às crianças a importância de não desistir:
Calma interior e clareza mental são dois valores que, mesmo diante da pressão cotidiana e do estresse, só são alcançados com atenção plena — explica. — O exercício da respiração, o desenvolvimento da capacidade de observação, a contemplação silenciosa e a tranquilidade são ferramentas acessíveis por meio da prática do mindfulness. Só assim é possível alcançar o princípio samurai do mushin, ou mente vazia, um atributo que permite manter a serenidade e a lucidez diante de situações críticas.
Talvez um dos desafios mais complexos hoje seja lidar com a incerteza. Como a mente de um samurai enfrenta isso?
Assim como acontece hoje, os samurais não eram todos iguais, e nem todos conseguiam lidar perfeitamente com a incerteza. No entanto, como viviam em um mundo em que a morte estava sempre próxima, eram obrigados a enfrentá-la constantemente. Para manter a calma sob tanta pressão, era necessário treinar esse estado mental, o mushin. Uma mente clara e focada, livre de distrações e apegos, também ajuda a adormecer o medo. A concentração plena no instante presente permitia agir com eficácia, sem que as emoções interferissem. Manter esse estado era essencial. O pior erro era perder a compostura. Em combate, a dúvida ou o medo podiam significar a morte.
Como podemos proteger nossa mente de tudo o que acontece ao nosso redor?
Vivemos em um mundo inundado de informações e distrações constantes. Para proteger a mente e ter um bom desempenho profissional, precisamos da capacidade de nos concentrar plenamente no momento presente, sem nos deixar levar pelo ruído externo. Essa é a base tanto da estabilidade mental quanto da obtenção de resultados significativos. Recomendo integrar à rotina práticas como meditação, respiração consciente e a pausa antes de reagir. Não encaro isso como uma técnica isolada, mas como um modo de viver: observar sem julgar, agir com intenção e manter a mente estável diante de qualquer circunstância. Minha inspiração vem dos guerreiros e líderes do período Sengoku, cujo exemplo de coragem e clareza continua guiando meu caminho.
Como você adapta os princípios samurais à atualidade?
– Enquanto você estiver vivo, sempre pode fazer algo. Com essa mentalidade, a maioria dos problemas parece menor. Por isso, assim como os samurais, tento manter a consciência da morte – não de forma negativa, mas para manter os pés no chão e agir sem hesitação. Quando me sinto perdido na vida ou no trabalho, pergunto a mim mesmo: o que realmente importa agora? Essa pergunta me ajuda a me libertar do medo e da confusão desnecessários e a dar o próximo passo.
Há muitas distrações na sociedade atual. O que podemos fazer para nos concentrar?
A meditação consciente é uma ferramenta poderosa. Ao meditar, você pode refletir sobre quem quer ser e o que realmente deseja fazer. Em meio ao ruído e às distrações da vida moderna, essa prática ajuda a reconectar com as verdadeiras prioridades e a recuperar a clareza sobre o que realmente importa.
Para o seu livro, você considerou o espírito samurai, o zen, o aikido e a esgrima samurai. Que recurso de cada uma dessas disciplinas pode ser aplicado ao trabalho da mente?
O interessante dessas disciplinas é que, embora pareçam diferentes, todas apontam para o mesmo objetivo: aprender a estar completamente no presente. O espírito samurai lembra a importância de agir com decisão, sem ficar preso ao que pode acontecer depois ou ao resultado. É como dizer: faça o que precisa ser feito, com todo o seu ser, e depois solte. O zen oferece ferramentas simples e poderosas para acalmar a mente. Não se trata de forçar a cabeça a ficar vazia, mas de observar os pensamentos que vêm e vão, sem se apegar a eles. Essa prática de silêncio e respiração ajuda a reduzir o ruído interno e ganhar clareza.
O que podemos aprender com o aikido e a esgrima samurai?
O aikido traz flexibilidade mental. A prática ensina a não enfrentar as situações de forma direta, mas a harmonizar-se com elas e redirecioná-las. É um treinamento constante para deixar o ego de lado e se adaptar com naturalidade, mesmo em meio ao conflito. A esgrima samurai, por sua vez, é uma escola de concentração absoluta. Cada movimento exige decisão imediata e precisão total. Não há tempo para hesitar: pensar demais significa chegar tarde. É um exercício intenso para aprender a estar totalmente presente. No fundo, todas essas práticas convergem para o mushin. Para mim, esse é o verdadeiro arte: a presença inabalável.
Quais são os maiores desafios que enfrentamos hoje em termos de fortaleza mental?
O desafio é tomar consciência de que vivemos em um mundo VUCA – volátil, incerto, complexo e ambíguo – no qual não é fácil prever o futuro. Ao mesmo tempo, somos pressionados a obter resultados, especialmente na vida profissional. Essa pressão constante faz com que muitas pessoas sofram de estresse e ansiedade.
Para quem quer começar a aplicar seus princípios, por onde iniciar?
Uma mentalidade é, essencialmente, a forma como você enfrenta as situações. Se a pergunta é por onde começar, recomendo iniciar pela meditação de atenção plena. Respire profundamente algumas vezes e concentre-se no momento presente. Esse hábito simples pode se tornar a porta de entrada para cultivar uma mentalidade centrada e resiliente.
As novas gerações enfrentam desafios relacionados à atenção. Que recursos podemos ensinar às crianças para ajudá-las a desenvolver fortaleza mental?
Ao longo da minha formação, aprendi que, mesmo quando as coisas não dão certo, se você persevera, melhora gradualmente. Como dizem, quando finalmente alcança o sucesso, todos os fracassos se transformam em experiências valiosas. O que considero fundamental ensinar às crianças é a importância de continuar, de não desistir. Essa persistência se torna a raiz da fortaleza mental. Por isso, acredito que é extremamente significativo que adultos e crianças pratiquem algo juntos ao longo do tempo. Isso não só desenvolve habilidades, como também fortalece a resiliência.
Fonte: https://oglobo.globo.com – Por Flávia Tomaello, Em La Nacion
Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade
