
Então, qual é o segredo para um casamento forte e duradouro?
Poderíamos estudar filmes de comédia romântica ou cartões de aniversário para encontrar as respostas.
Em vez disso, recorremos a leitores do New York Times que estão casados há mais de 30 anos para que nos contassem o que aprenderam e que conselhos ofereceriam a outras pessoas. Mais de 2.200 pessoas, de todas as origens, responderam ao nosso questionário.
Lemos todas as respostas e conversamos em profundidade com sete casais que enfrentaram desafios, abraçaram mudanças e encontraram maneiras de manter o amor por três décadas ou mais.
Aqui estão as histórias deles.
‘Brigamos o tempo todo. Somos como óleo e água.’

O segredo da longevidade dos 33 anos de casamento de Arnie e Susan Brooks? Brigar.
– Brigamos o tempo todo – conta Susan Brooks – Somos como óleo e água.
Brigar, segundo eles, é importante para o casamento: para o casal Brooks, até mesmo discussões pequenas – muitas vezes sobre coisas banais, como o tom de voz ou o atraso dela em contraste com a pontualidade dele – ajudaram o casal a lidar com seus diferentes estilos de comunicação.
– Também é importante como você supera a briga ou atravessa a briga – interrompe Arnie Brooks, acrescentando que a terapia de casal lhes deu as ferramentas para resolver conflitos sem destruir um ao outro emocionalmente.
Após uma criação marcada pela evitação de conflitos e um primeiro casamento que fracassou em parte porque as brigas nunca eram enfrentadas, Arnie recorreu à terapia individual, conselho que acabou levando-o a se casar com Susan. Ele a descreve como “uma excelente brigadora”.
Arnie, 71, é pesquisador, e a Susan, 64, é corretora de imóveis. Eles dizem que funcionam melhor quando assumem grandes projetos juntos, como a casa em estilo prairie, inspirada em Frank Lloyd Wright, onde moram e que ajudaram a projetar em Bethesda, Maryland. O casal tem uma filha, Lauren, de 30 anos, e um filho, Cal, de 29; Arnie também tem um filho mais velho, Max, de 37, de seu primeiro casamento.
Em 2013 (cerca de 21 anos depois do início de seu casamento de 33 anos), Susan disse a Arnie que ele era um “péssimo beijador” durante uma discussão sobre a frequência com que tinham relações sexuais. Ele ficou magoado e com raiva; ela temeu ter arruinado o casamento com um único comentário.
– Eu queria fazer sexo – diz Arnie – Ela queria intimidade.
Depois de alguns dias, ele decidiu que precisava resolver o problema. Encontrou uma aula de beijo em uma sex shop voltada para mulheres, em Washington, D.C. A turma era composta por seis casais e um trisal. Segundo o casal, a aula incluía uma parte acadêmica e equilibrava teoria e prática. E havia lição de casa. A primeira tarefa foi trocar beijos em público por meia hora.
– Fez todo sentido! – exclamou Arnie
Hoje, Susan afirma que o marido é um excelente beijador.
– Dou um 10 para ele.
‘Vimos que, quando trabalhávamos juntos no que quer que estivéssemos fazendo, ficávamos mais fortes.’

Helen Singleton descansava em casa, em Los Angeles, no início de maio de 1961, profundamente abalada após uma série de abortos espontâneos. Seu marido, Robert Singleton, organizava colegas da Universidade da Califórnia em Los Angeles para se juntar aos Freedom Riders, que naquele mês passariam a viajar de ônibus e trens pelo Sul dos Estados Unidos para contestar e pôr fim à segregação no transporte público. Ela se juntou a ele, e ambos chegaram a uma estação de trem em Jackson, Mississippi, em 30 de julho, entraram em uma sala de espera exclusiva para brancos e, junto com outros ativistas, foram presos. Foram levados a julgamento e sofreram tratamento cruel na notória Penitenciária Estadual de Parchman. Ela ficou presa ali por 25 dias. Ele cumpriu oito dias a mais. Em 1º de novembro de 1961, os Freedom Riders levaram à dessegregação do transporte interestadual no Sul. Os Singleton estavam entre os poucos casais casados que participaram das Rides. Eles já tinham “um casamento muito bom” antes disso, diz Helen.
– Mas isso nos aproximou ainda mais – acrescenta Robert -, porque vimos que, quando trabalhávamos juntos no que quer que estivéssemos fazendo, seríamos mais fortes. Isso fortaleceu nossa determinação.
O casal se conheceu em uma igreja em sua cidade natal, Filadélfia, quando ela tinha 18 anos e ele, 15. Encantado, Bob inicialmente enganou Helen sobre a própria idade. Ela fez uma lista de características que queria em um cônjuge e foi marcando cada item ao longo dos meses seguintes, enquanto namoravam.
Eles se casaram em julho de 1955, em Monterey, Califórnia, onde Bob estudava alemão enquanto servia no Exército. Neste ano, comemoraram 70 anos de casamento e têm três filhos e três netos
– Já fomos amigos, adolescentes cheios de risadas, amantes apaixonados, ativistas solidários, pais cheios de esperança, parceiros em todas as empreitadas e, agora, pacientes e cuidadores – conta Helen, referindo-se à saúde dele.
Quando o neto deles, Mekhi Robert Singleton, 27, se casou no ano passado, pediu conselhos.
– Não se estresse com as pequenas coisas; elas podem ser administradas — diz Helen a ele. — O mais importante é a integridade. Concordamos desde cedo em respeitar um ao outro, especialmente em público. É simplesmente a forma normal de se comportar com alguém que você ama.
Além disso, acrescenta ela:
– Divirtam-se juntos.
‘Precisávamos do apoio um do outro.

Art Murr, segundo o próprio relato, era tímido e se sentia desconfortável em situações sociais. Mas, quando viu uma mulher alta, loira e chamativa sentada à sua frente em um bar, em 1977, reuniu coragem, caminhou até ela e disparou:
– Você parece entediada.
Denise Murr o viu se aproximar e percebeu que ele também era alto e “bem-apessoado”. Descobriram que ambos tinham 25 anos e haviam crescido em cidades vizinhas em Long Island – ela em Williston Park, ele em New Hyde Park. Denise era professora de educação especial; Art trabalhava com computadores. Começaram a namorar e se casaram dois anos depois, em 23 de junho de 1979, em East Williston, Nova York. Eles adotaram um bebê, Matt, nascido em 19 de dezembro de 1985. Levaram-no para casa naquela véspera de Natal.
– As pessoas costumavam dizer que éramos a família perfeita – lembra Denise.
Quando Matt tinha 17 anos, desenvolveu um transtorno por uso de substâncias. Entrava e saía de clínicas de reabilitação, ficando sóbrio por alguns meses e depois recaindo.
– Tivemos muita dificuldade para lidar com isso, separadamente e juntos – conta Art – Brigamos, e foi absolutamente terrível. Na minha cabeça, tínhamos de enfrentar aquilo juntos, porque poderia destruir uma família.
Após oito anos de luta, Matt finalmente parecia estar virando a página. Em seu 25º aniversário, em 19 de dezembro de 2010, os três foram a um restaurante no bairro chinês de Manhattan para comemorar.
Dois meses depois, Matt morreu de overdose. O mundo dos Murrs desmoronou.
– Ficamos ainda mais próximos porque precisávamos do apoio um do outro – afirma Denise
– Mas foi difícil – acrescenta Art
– Seguir em frente – completa ela.
– Foi horrível – diz ele.
Juntos, eles se dedicaram ao trabalho de defesa da reabilitação de dependentes químicos, fazendo lobby junto a legisladores e falando em casas de acolhimento e igrejas.
Em 2018, mudaram-se para Oxford, Maryland, uma pequena cidade perto da Baía de Chesapeake. E todos os anos, em 19 de dezembro, jantam no restaurante em Nova York onde celebraram o último aniversário de Matt.
– Temos um ao outro e nos adaptamos – diz Denise – Além disso, o senso de humor sempre nos traz de volta quando nos afastamos. O casamento pode ser desafiador às vezes. Por que alguém iria querer torná-lo ainda mais difícil?
‘Essa pessoa faz você querer ser um ser humano melhor?’

Você define o início de uma história de amor de 53 anos por um anel de noivado ou por um casamento? Foi naquela noite extraordinária em 1972, quando Debby Hepburn e Cathy Kunz ficaram horas conversando sozinhas, com os dedos quase se tocando, no Ithaca College? Ou foi a euforia que sentiram no dia seguinte, quando trocaram o primeiro beijo às escondidas?
– Ser lésbica em 1972 era muito diferente do que é hoje – lembra Debby – Eu sabia que não apenas não era possível se casar, como também não se podia ser quem se era na maioria dos lugares. Acho que a adversidade que enfrentamos por causa da discriminação nos tornou mais fortes.
Para Cathy, embora tenham existido muitos desafios externos, inclusive a oposição de suas famílias, permanecer juntas nunca pareceu um grande esforço.
– Uma vez que ficamos juntas, simplesmente permanecemos juntas – acrescenta -, apaixonando-nos uma pela outra repetidas vezes. Na vida de qualquer casal, haverá tribulações; haverá triunfos, sucessos, fracassos de todo tipo. Esse é o preço que pagamos por viver uma vida linda e extraordinária. Tínhamos o nosso próprio mundo e, assim, pudemos definir como iríamos funcionar dentro dele, onde de fato tínhamos poder.
Durante décadas, as férias em Provincetown, Massachusetts, foram as únicas ocasiões em que elas se sentiam à vontade para andar de mãos dadas em público. Embora tenham selado o compromisso uma com a outra ao trocar alianças em 27 de agosto de 1972, poucos meses após o primeiro encontro, no início daquele ano, elas se casaram na praia em 27 de agosto de 2008, com apenas um celebrante e um fotógrafo presentes – quatro anos depois de Massachusetts legalizar o casamento entre pessoas do mesmo sexo e sete anos antes de ele se tornar legal em todo o país.
Debby e Cathy, ambas com 74 anos, estão aposentadas e vivem em New Hartford, Nova York. Debby foi professora de inglês do ensino médio por 40 anos e, hoje, joga golfe sempre que pode. Cathy foi treinadora de basquete feminino no ensino médio e na faculdade e, depois, administradora hospitalar e, hoje, atua como voluntária na defesa dos direitos de moradores de uma casa de repouso.
Recentemente, Cathy foi questionada por uma ex-aluna: como saber se alguém é a pessoa certa para você?
– Essa pessoa faz você querer ser um ser humano melhor? Se a resposta for sim, essa é a sua pessoa – reflete Cathy.
Mas ela também aconselha as pessoas a não se acomodarem se tiverem quaisquer dúvidas ou hesitações em relação a um possível parceiro de vida.
– Conheci pessoas demais – mulheres maravilhosas, brilhantes, vibrantes, fabulosas – que, preciso dizer, se acomodaram com homens que não estavam à altura delas. Recuso-me a aceitar que isso seja necessário. Não acredito que esse seja o caminho para levar uma vida amorosa e feliz – diz ela.
‘O casamento é um empreendimento.’

Arundhati e Tapas Sanyal se encontraram pela primeira vez em 1984, na casa dos pais dela, em Kolkata, na Índia (então conhecida como Calcutá). Tapas era tão tímido que não conseguia olhar nos olhos dela enquanto falava. Ela não queria estar ali.
O encontro foi o primeiro passo de um casamento arranjado. O casal se casou no ano seguinte, em 8 de maio de 1985.
O objetivo de Arundhati era estudar no exterior e seguir carreira acadêmica. Ela achava que o casamento, naquele momento, abafaria suas aspirações. Tapas queria fazer um doutorado em engenharia. Ambos eram altamente práticos e focados em construir as vidas que imaginavam. Olhando para trás, após 40 anos, os dois dizem que o casamento é sólido e que seus pais escolheram bem.
– O casamento é um empreendimento – reflete Arundhati – Tem de haver romance, concedo isso, mas também existe a realidade prática de construir uma vida e fazê-la avançar.
Os invernos rigorosos foram desconfortáveis quando se mudaram para Newark, Nova Jersey, em 1985. Tapas passou a acordar cedo para aquecer os sapatos da esposa na secadora de roupas.
– O romance pode ser encontrado em pequenos gestos – diz ele.
Eles alcançaram muitos de seus objetivos. Ela obteve um doutorado em literatura inglesa pelo Graduate Center da City University of New York, e ele recebeu um mestrado em engenharia pelo New Jersey Institute of Technology. Arundhati leciona escrita na Seton Hall University, e Tapas gerencia grandes projetos de transporte para o Departamento de Transportes do Estado de Nova York.
Os Sanyal são hindus e, todas as noites, rezam juntos em casa, em Kendall Park, Nova Jersey, diante de um altar que inclui imagens de divindades, gurus e de seus pais falecidos.
– É um lugar de conforto – Arundhati conta – É um lugar de silêncio. É terapêutico.O filho deles, Aditya, de 34 anos, é médico, e a filha, Ishani, de 26, é advogada. Ambos são solteiros.
Arundhati diz que seus filhos veem o casamento arranjado como “dar um enorme salto de fé”.
– Em certos aspectos, os jovens que namoram hoje também estão dando um enorme salto de fé – pensa ela. – Eles ficam deslizando para a esquerda e para a direita sem conseguir nada. É difícil.
‘Precisávamos desesperadamente nos agarrar um ao outro.’

Nancy e Jim Otte cresceram em Zeeland, Michigan, uma cidadezinha dividida entre aqueles que frequentavam as igrejas reformadas holandesas mais conservadoras e os que iam às menos conservadoras.
– Na verdade, éramos um casamento misto, de duas vertentes diferentes da Igreja Reformada Holandesa que não gostavam muito uma da outra – diz Jim
A recepção de casamento deles, realizada em Grand Rapids, Michigan, em 14 de agosto de 1970, “foi sem álcool e pouco divertida”, lembra Nancy. Não houve dança nem bebida alcoólica, em deferência às crenças da família de Jim. Ele conseguiu inserir discretamente uma citação do autor libanês-americano Kahlil Gibran na cerimônia.
Nancy, que é surda desde o nascimento, cresceu lendo lábios e falando, forma como se comunica com Jim. Ela se sentiu atraída por ele porque “ele era gentil”, diferente da maioria dos outros homens que conhecera.
– Desde que eu era uma criança surda, sempre consegui perceber se alguém tinha integridade ou se era mentiroso – conta ela. – Lembro-me de caminhar até o altar no nosso casamento e de a minha voz interior dizer: “Isso está certo, é só continuar.”
Embora a surdez dela não tenha sido uma grande dificuldade na relação, o casal enfrentou outros desafios.
O mais novo dos dois filhos, Benjamin, conhecido como B.J., nasceu com deficiências graves. Ele não conseguia andar nem falar, usava cadeira de rodas e tinha até 50 convulsões por dia. B.J. viveu em casa até os 7 anos, quando o casal já não conseguia mais cuidar dele em tempo integral e o colocou em uma instituição de longa permanência. Ainda assim, o fato de ele voltar para casa quase todos os fins de semana os aproximou ainda mais e está entre as lembranças mais queridas do casamento.
– Precisávamos desesperadamente nos agarrar um ao outro, embora nem sempre concordássemos sobre o que fazer – afirma Nancy. – Houve tantos momentos de alegria absoluta.
B.J. morreu em 2013, aos 35 anos.
Nancy lecionou para pessoas surdas e com deficiência auditiva. O casal se mudou várias vezes por causa da carreira de Jim na gestão do varejo e, por fim, mudou-se para Portland, Oregon, há nove anos, para ficar perto do outro filho, David, da nora e do neto.
Jim, 80, e Nancy, 78, costumavam fazer longas caminhadas ao longo do rio Willamette. Ultimamente, a ela tem ficado mais perto de casa para cuidar de seu cão de assistência para pessoas com deficiência auditiva, que agora está surdo e cego.
Jim costuma ler ou escrever enquanto ela toca música clássica ao piano. Ele ouve o piano. Ela ouve pouco da música, mas sente as vibrações pelos dedos e pelo chão sob os pés.
– É preciso estar apaixonado, mas também é preciso gostar um do outro – conta Jim. – É preciso estar disposto a ceder e a receber. Somos muito diferentes, mas, de alguma forma, somos compatíveis.
‘Ele dá conselhos. Às vezes eu sigo, às vezes não.’

Lillian e Arnold Mercado se conheceram ainda adolescentes em Nova York, em um encontro às cegas, em 1958 – ela era uma “garota caseira”, e ele um rapaz quieto, determinado a sair da pobreza por meio do trabalho.
– Vimos um filme triste, depois fomos ao Central Park e ele me levou para um passeio de barco – conta ela. – Começamos a namorar sério.
Lilian, então com 16 anos, achou-o tranquilo e divertido. Arnold, então com 18, admirou as pernas dela. Eles compartilhavam a herança nuyorican, nascidos na mesma cidade em Porto Rico, mas criados em Washington Heights.
Em 1961, ele se alistou no Exército e foi designado para servir na Alemanha. No ano seguinte, voltou para casa de licença, e eles se casaram em um dia gelado, em 29 de dezembro de 1962. A lua de mel foi no Americana, um hotel novo e sofisticado em Midtown. Eles se beijaram quando a bola desceu na Times Square. No ano seguinte, tiveram o primeiro de seus dois filhos, embora hoje, olhando para trás, Lilian ache que deveriam ter planejado mais e ido com menos pressa.
Houve momentos bons e momentos difíceis.
– Ele teve alguns problemas com a bebida – lembra ela -, mas eu aguentei firme por causa das crianças.
Em meados da década de 1970, ao perceber a gravidade do problema, o ele começou a frequentar reuniões dos Alcoólicos Anônimos e parou de beber.
– Eu não tinha escolha – diz ele.
Hoje, eles estão aposentados e continuam vivendo em Washington Heights, em um apartamento em uma ladeira muito íngreme, que tem se tornado cada vez mais difícil de subir. Arnold, de 87 anos, trabalhou principalmente em hospitais, auxiliando anestesiologistas. Lilian, de 85, teve vários empregos no governo, incluindo o atendimento de reclamações em um conselho comunitário local. Hoje, ela cuida do marido, que é diabético e tem dificuldade para caminhar.
– Ele é sempre uma pessoa doce, sempre gentil, sempre bondosa – conta ela. – Ele dá conselhos. Às vezes eu sigo, às vezes não, às vezes esqueço o que ele disse.
– Certifique-se de dizer boa noite um ao outro todas as noites – acrescenta Arnold -, porque você não sabe o que o dia seguinte vai trazer.
Fonte: https://oglobo.globo.com – Por James Estrin, Em The New York Times
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