{"id":22895,"date":"2026-10-02T07:00:12","date_gmt":"2026-10-02T10:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/?p=22895"},"modified":"2026-10-02T16:15:56","modified_gmt":"2026-10-02T19:15:56","slug":"cansancao-bahia-48-anos-atras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/cansancao-bahia-48-anos-atras\/","title":{"rendered":"CANSAN\u00c7\u00c3O, BAHIA &#8211; 48 ANOS ATR\u00c1S"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_22896\" aria-describedby=\"caption-attachment-22896\" style=\"width: 749px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-1-Imagem1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-large wp-image-22896\" src=\"http:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-1-Imagem1-1024x685.png\" alt=\"\" width=\"749\" height=\"501\" srcset=\"https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-1-Imagem1-1024x685.png 1024w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-1-Imagem1-300x201.png 300w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-1-Imagem1-768x514.png 768w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-1-Imagem1-150x100.png 150w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-1-Imagem1-450x301.png 450w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-1-Imagem1.png 1190w\" sizes=\"auto, (max-width: 749px) 100vw, 749px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-22896\" class=\"wp-caption-text\">Quando o Projeto Rondon chegou ao sert\u00e3o &#8211; Iniciativa que aproximou universit\u00e1rios de diferentes realidades do interior brasileiro e que, em 1978, tamb\u00e9m deixou lembran\u00e7as em Cansan\u00e7\u00e3o, no sert\u00e3o da Bahia.<\/figcaption><\/figure>\n<p>Quarenta e oito anos se passaram.<\/p>\n<p>Pode parecer muito tempo. E \u00e9.<\/p>\n<p>Mas algumas lembran\u00e7as resistem de tal maneira que, quando provocadas, parecem apenas adormecidas, \u00e0 espera de uma oportunidade para voltar.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu comigo ao recordar umas f\u00e9rias passadas em Cansan\u00e7\u00e3o, no sert\u00e3o da Bahia, em 1978. Naquele per\u00edodo, estava sendo desenvolvida no munic\u00edpio uma etapa do Projeto Rondon, iniciativa que levava estudantes universit\u00e1rios e profissionais a diferentes regi\u00f5es do interior brasileiro.<\/p>\n<p>Eu havia deixado Cansan\u00e7\u00e3o em 1969, quando me transferi para S\u00e3o Paulo. Nas f\u00e9rias, por\u00e9m, retornava \u00e0 minha terra e reencontrava familiares, amigos, lugares e costumes que continuavam fazendo parte das minhas ra\u00edzes.<\/p>\n<figure id=\"attachment_22897\" aria-describedby=\"caption-attachment-22897\" style=\"width: 728px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-2-Nico-Imagem2.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-22897\" src=\"http:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-2-Nico-Imagem2.png\" alt=\"\" width=\"728\" height=\"770\" srcset=\"https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-2-Nico-Imagem2.png 728w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-2-Nico-Imagem2-284x300.png 284w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-2-Nico-Imagem2-150x159.png 150w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2026\/10\/Rondon-2-Nico-Imagem2-450x476.png 450w\" sizes=\"auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-22897\" class=\"wp-caption-text\">O Jeep de Nico do Nestor, personagem marcante das lembran\u00e7as de 1978. Imagem recriada a partir de registro audiovisual da \u00e9poca.<\/figcaption><\/figure>\n<p><strong><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Por: Florisvaldo F dos Santos<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Naquelas f\u00e9rias de 1978, uma circunst\u00e2ncia aparentemente simples acabaria me aproximando dos integrantes do Projeto Rondon: minha amizade com <strong><em>Nico do Nestor<\/em><\/strong> \u2014 e o seu famoso Jeep.<\/p>\n<p><strong><em>A Cansan\u00e7\u00e3o daquele tempo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Para compreender o significado da chegada daqueles jovens, \u00e9 preciso voltar \u00e0 Cansan\u00e7\u00e3o de quase meio s\u00e9culo atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O munic\u00edpio havia sido criado inicialmente em 1952, desmembrado de Monte Santo, mas essa primeira emancipa\u00e7\u00e3o foi anulada em 1954. Cansan\u00e7\u00e3o voltou a ser elevada \u00e0 categoria de munic\u00edpio pela Lei Estadual n\u00ba 1.018, de 12 de agosto de 1958, sendo oficialmente instalada em 7 de abril de 1959.<\/p>\n<p>Em 1978, portanto, o munic\u00edpio ainda era jovem.<\/p>\n<p>A realidade era muito diferente da atual. Os recursos nas \u00e1reas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, cultura e lazer eram limitados. N\u00e3o havia as facilidades de comunica\u00e7\u00e3o que hoje consideramos indispens\u00e1veis. Muito antes de celulares, internet ou redes sociais, cartas e telegramas desempenhavam papel fundamental na comunica\u00e7\u00e3o entre quem permanecia no sert\u00e3o e aqueles que haviam partido para outras cidades e estados.<\/p>\n<p>As dist\u00e2ncias n\u00e3o eram medidas apenas em quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Eram medidas tamb\u00e9m pelo tempo necess\u00e1rio para uma not\u00edcia chegar.<\/p>\n<p>Hoje, ao olhar para aquele per\u00edodo com a compreens\u00e3o que o passar dos anos nos proporcionou, outra circunst\u00e2ncia me provoca uma inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Viv\u00edamos sob a ditadura militar.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em 1978, o Brasil estava no governo do general Ernesto Geisel e, embora j\u00e1 experimentasse um processo de abertura pol\u00edtica anunciado como \u201clento, gradual e seguro\u201d, ainda convivia com restri\u00e7\u00f5es \u00e0s liberdades, mecanismos de repress\u00e3o e censura. O pr\u00f3prio AI-5, s\u00edmbolo daquele per\u00edodo autorit\u00e1rio, somente deixaria de vigorar no final daquele ano.<\/p>\n<p>Curiosamente, grande parte daquela realidade nacional parecia muito distante do cotidiano de uma pequena cidade do sert\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Cansan\u00e7\u00e3o, onde os meios de comunica\u00e7\u00e3o eram escassos e as informa\u00e7\u00f5es chegavam com dificuldade, muitos acontecimentos nacionais passavam distantes da nossa percep\u00e7\u00e3o. \u00c0 limita\u00e7\u00e3o dos meios dispon\u00edveis somava-se uma realidade mais ampla: o pr\u00f3prio pa\u00eds vivia sob restri\u00e7\u00f5es \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de determinadas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas essa \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o que pertence muito mais ao olhar de hoje do que ao jovem que eu era naquele momento.<\/p>\n<p>Naquelas f\u00e9rias de 1978, eu n\u00e3o estava pensando em ditadura, censura ou abertura pol\u00edtica. Estava simplesmente de volta \u00e0 minha terra, revendo amigos e vivendo acontecimentos que somente d\u00e9cadas depois passaria a enxergar dentro de um contexto hist\u00f3rico muito maior.<\/p>\n<p>Foi nesse cen\u00e1rio que jovens vindos de outras regi\u00f5es chegaram ao munic\u00edpio levando conhecimentos, experi\u00eancias e, principalmente, disposi\u00e7\u00e3o para conhecer uma realidade muito diferente daquela em que viviam.<\/p>\n<p><strong><em>O Projeto Rondon<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A ideia que daria origem ao Projeto Rondon surgiu em 1966, tendo entre seus principais idealizadores o professor Wilson Choeri, da ent\u00e3o Universidade do Estado da Guanabara. Em 11 de julho de 1967, um grupo de universit\u00e1rios partiu para Rond\u00f4nia naquela que ficaria conhecida como <strong><em>Opera\u00e7\u00e3o Zero<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>A proposta aproximava estudantes universit\u00e1rios das diferentes realidades encontradas no interior do pa\u00eds. Ao mesmo tempo em que colocavam conhecimentos acad\u00eamicos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das comunidades, aqueles jovens conheciam um Brasil que muitas vezes existia para eles apenas nos livros, nos mapas ou nas estat\u00edsticas.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, o projeto ganhou dimens\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>E, em 1978, essa experi\u00eancia chegou tamb\u00e9m a Cansan\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>Quando a mem\u00f3ria encontra um Jeep<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Minha aproxima\u00e7\u00e3o com o grupo n\u00e3o aconteceu por interm\u00e9dio de nenhuma autoridade ou institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aconteceu de maneira muito mais simples \u2014 e talvez por isso tenha permanecido t\u00e3o viva em minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Meu amigo <strong><em>Nico do Nestor<\/em><\/strong>, filho de seu Nestor, um dos mec\u00e2nicos mais conhecidos da cidade, possu\u00eda um Jeep que chamava aten\u00e7\u00e3o por onde passava. Para os padr\u00f5es daquele tempo e daquela Cansan\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era simplesmente um ve\u00edculo.<\/p>\n<p>Era quase um personagem.<\/p>\n<p>Por interm\u00e9dio de Nico e das nossas andan\u00e7as, terminei me aproximando dos jovens que participavam do Projeto Rondon.<\/p>\n<p>Aos poucos, fui me \u201centurmando\u201d.<\/p>\n<p>Vieram as conversas, os deslocamentos, as brincadeiras e aquela conviv\u00eancia espont\u00e2nea que n\u00e3o perguntava de onde cada um vinha antes de come\u00e7ar uma amizade.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, ao decidir recuperar essa hist\u00f3ria, percebi que minhas pr\u00f3prias lembran\u00e7as n\u00e3o seriam suficientes.<\/p>\n<p>Quase meio s\u00e9culo havia transcorrido.<\/p>\n<p>Era preciso procurar outras mem\u00f3rias.<\/p>\n<p><strong><em>A primeira mem\u00f3ria que fomos buscar<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Uma das primeiras contribui\u00e7\u00f5es veio de <strong><em>Izid\u00f3rio Menezes<\/em><\/strong>, morador de Cansan\u00e7\u00e3o e testemunha da presen\u00e7a do Projeto Rondon no munic\u00edpio naquele per\u00edodo.<\/p>\n<p>Suas lembran\u00e7as ajudaram a recuperar detalhes que o tempo poderia ter apagado.<\/p>\n<p>Segundo Izid\u00f3rio, os integrantes do Projeto ficaram alojados no <strong><em>Col\u00e9gio Jo\u00e3o Cordeiro<\/em><\/strong>. A chegada daqueles jovens, vindos de outras regi\u00f5es e trazendo h\u00e1bitos diferentes dos encontrados no sert\u00e3o, provocou inicialmente a natural curiosidade da popula\u00e7\u00e3o. Com a conviv\u00eancia, por\u00e9m, o estranhamento foi cedendo lugar \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o e ao entrosamento com os moradores.<\/p>\n<p>Izid\u00f3rio recorda atividades e orienta\u00e7\u00f5es em \u00e1reas como <strong><em>sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, agricultura, agronomia e veterin\u00e1ria<\/em><\/strong>, alcan\u00e7ando n\u00e3o apenas moradores da sede, mas tamb\u00e9m comunidades da zona rural.<\/p>\n<p>Entre suas lembran\u00e7as est\u00e1 ainda um ponto de atendimento instalado na <strong><em>Rua Senhora Santana, na casa de Felip\u00e3o<\/em><\/strong>, al\u00e9m dos ve\u00edculos utilizados nos deslocamentos \u2014 entre eles Rural, Fuscas e o inesquec\u00edvel Jeep de Nico do Nestor, que acabou se incorporando informalmente \u00e0 movimenta\u00e7\u00e3o daqueles dias.<\/p>\n<p>Mas suas recorda\u00e7\u00f5es n\u00e3o ficaram restritas ao trabalho desenvolvido pelo Projeto.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Izid\u00f3rio se lembra do contato dos visitantes com manifesta\u00e7\u00f5es da cultura local, entre elas o <strong><em>reisado<\/em><\/strong>, e guarda na mem\u00f3ria nomes de participantes, como <strong><em>Norma e Nagata<\/em><\/strong>, que acabaram fazendo parte daquele pequeno cap\u00edtulo da hist\u00f3ria de Cansan\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o detalhes aparentemente simples, mas preciosos para quem, 48 anos depois, tenta remontar uma hist\u00f3ria que n\u00e3o ficou preservada apenas em documentos.<\/p>\n<p>Ficou tamb\u00e9m na mem\u00f3ria de quem estava l\u00e1.<\/p>\n<p><strong><em>Outra testemunha de uma Cansan\u00e7\u00e3o que se transformava<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A contribui\u00e7\u00e3o de Izid\u00f3rio trouxe de volta lugares, pessoas e acontecimentos. Mas havia outra mem\u00f3ria que poderia nos ajudar a compreender n\u00e3o apenas a presen\u00e7a daqueles universit\u00e1rios, mas a pr\u00f3pria Cansan\u00e7\u00e3o que os recebeu.<\/p>\n<p>Foi quando recorremos a <strong><em>Jo\u00e3o da Macena<\/em><\/strong>, hoje com 88 anos, testemunha de diferentes momentos da hist\u00f3ria e do desenvolvimento do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Ao longo de sua trajet\u00f3ria, Jo\u00e3o da Macena exerceu diferentes fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas em Cansan\u00e7\u00e3o. Iniciou suas atividades como coletor de impostos, foi vereador, presidiu a C\u00e2mara Municipal e chegou a assumir, interinamente, a Prefeitura.<\/p>\n<p>Essa longa conviv\u00eancia com a vida administrativa, pol\u00edtica e social do munic\u00edpio lhe proporcionou uma vis\u00e3o privilegiada das transforma\u00e7\u00f5es ocorridas ao longo das d\u00e9cadas e, particularmente, das condi\u00e7\u00f5es existentes naquele final dos anos 1970.<\/p>\n<p>Ao ser convidado a recordar a passagem do Projeto Rondon, Jo\u00e3o tamb\u00e9m abriu seu ba\u00fa de mem\u00f3rias.<\/p>\n<p>E nele reapareceu um personagem que j\u00e1 atravessava esta hist\u00f3ria desde o come\u00e7o:<\/p>\n<p><strong><em>Nico do Nestor.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201cHist\u00f3rias sobre seu amigo Nico \u00e9 o que n\u00e3o faltam\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o come\u00e7ou seu relato de maneira espont\u00e2nea:<\/p>\n<p><strong><em>\u201c\u00c9 verdade, Florisvaldo! Hist\u00f3rias sobre seu amigo Nico do Nestor \u00e9 o que n\u00e3o faltam!\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se recordou do famoso Jeep e de outra paix\u00e3o automobil\u00edstica de Nico.<\/p>\n<p>Filho de seu Nestor, um dos principais mec\u00e2nicos da cidade, Nico teve posteriormente um <strong><em>Ford Galaxie 500<\/em><\/strong>, que trazia no para-brisa a frase <strong><em>\u201cLady Laura\u201d<\/em><\/strong>, numa refer\u00eancia \u00e0 conhecida m\u00fasica de Roberto Carlos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o recorda ter recebido de Nico diversas caronas em seus deslocamentos entre Cansan\u00e7\u00e3o e Monte Santo, cidade que ele frequentou durante muitos anos.<\/p>\n<p>Mas as lembran\u00e7as n\u00e3o param nos autom\u00f3veis.<\/p>\n<p>Nico tinha fama de namorador.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, namorava uma mo\u00e7a de Cansan\u00e7\u00e3o, neta do senhor Ireno. Enciumado com o namoro da neta, seu Ireno costumava brincar, \u00e0 sua maneira:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cEssas mo\u00e7as de hoje namoram at\u00e9 com bicho que pula de pau em pau.\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A refer\u00eancia era a Nico.<\/p>\n<p>Mais do que uma passagem bem-humorada, a lembran\u00e7a de seu Ireno abre outra janela para compreender o encontro entre os moradores e aqueles jovens universit\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong><em>Os \u201ccausos\u201d de seu Ireno<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Segundo Jo\u00e3o da Macena, seu Ireno teve uma participa\u00e7\u00e3o muito especial durante a perman\u00eancia dos integrantes do Projeto Rondon.<\/p>\n<p>Os universit\u00e1rios, vindos de uma realidade cultural bastante diferente daquela encontrada no sert\u00e3o baiano, gostavam de ouvi-lo contar suas hist\u00f3rias e seus \u201ccausos\u201d.<\/p>\n<p>E seu Ireno tinha repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>Falava sobre personagens antigos da cidade, entre eles <strong><em>seu Gonzaga<\/em><\/strong>, que possu\u00eda uma venda e tamb\u00e9m exercia a fun\u00e7\u00e3o de delegado do munic\u00edpio, e <strong><em>Jo\u00e3o Belo<\/em><\/strong>, propriet\u00e1rio de um daqueles tradicionais estabelecimentos conhecidos como \u201csecos e molhados\u201d.<\/p>\n<p>Nessas vendas encontrava-se praticamente de tudo: feij\u00e3o, farinha, a\u00e7\u00facar, rapadura, caf\u00e9 e querosene dividiam espa\u00e7o com medicamentos populares da \u00e9poca e os mais diversos utens\u00edlios e apetrechos utilizados nas ro\u00e7as e fazendas.<\/p>\n<p>E, naturalmente, nas hist\u00f3rias contadas por seu Ireno n\u00e3o podiam faltar assombra\u00e7\u00f5es, almas penadas, lobisomens e tantos outros relatos que povoavam \u2014 e ainda povoam \u2014 o imagin\u00e1rio popular, especialmente nas pequenas comunidades do interior.<\/p>\n<p>A cena \u00e9 simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>De um lado, universit\u00e1rios chegavam ao sert\u00e3o trazendo conhecimentos acad\u00eamicos.<\/p>\n<p>Do outro, sentavam-se para ouvir um homem da terra contar hist\u00f3rias transmitidas pela experi\u00eancia e pela tradi\u00e7\u00e3o oral.<\/p>\n<p>Talvez a\u00ed esteja uma das maiores riquezas daquele encontro:<\/p>\n<p><strong><em>o conhecimento viajava nos dois sentidos.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u201cTalvez pegando numa caneta pela primeira vez\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quando deixa os \u201ccausos\u201d e passa a avaliar os resultados do Projeto Rondon, Jo\u00e3o da Macena guarda uma lembran\u00e7a ainda mais significativa.<\/p>\n<p>Segundo ele, o projeto representou um avan\u00e7o importante para pessoas humildes do munic\u00edpio, algumas das quais n\u00e3o sabiam sequer assinar o pr\u00f3prio nome.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o recorda que moradores tiveram a oportunidade de receber ensinamentos b\u00e1sicos e, em alguns casos, pegar numa caneta talvez pela primeira vez para aprender a escrever \u2014 ou, como se dizia naquele tempo, \u201cdesenhar\u201d \u2014 o pr\u00f3prio nome.<\/p>\n<p>Pode parecer pouco para quem observa essa realidade quase meio s\u00e9culo depois.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o sabia assinar, por\u00e9m, escrever o pr\u00f3prio nome representava muito mais do que juntar letras.<\/p>\n<p>Representava identidade, autonomia e dignidade.<\/p>\n<p><strong><em>Sa\u00fade, agricultura e orienta\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o tamb\u00e9m destaca que a atua\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limitava \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Havia orienta\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0 sa\u00fade e transmiss\u00e3o de conhecimentos \u00fateis \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. No meio rural, o contato alcan\u00e7ava \u00e1reas como agricultura, agronomia e veterin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os universit\u00e1rios e estagi\u00e1rios percorriam diferentes pontos do munic\u00edpio, entrando em contato tanto com pequenos agricultores familiares quanto com fazendeiros da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Era novamente o encontro entre dois conhecimentos: o acad\u00eamico e aquele adquirido pelo sertanejo na conviv\u00eancia di\u00e1ria com a terra.<\/p>\n<p>Nem todos os resultados daquele trabalho podem ser medidos hoje. Muitas a\u00e7\u00f5es se perderam no tempo, assim como documentos, fotografias e nomes de participantes.<\/p>\n<p>Mas algumas consequ\u00eancias permanecem guardadas em um arquivo que n\u00e3o depende de papel:<\/p>\n<p><strong><em>a mem\u00f3ria das pessoas.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O que ficou depois de 48 anos?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quando comecei a remexer nessas lembran\u00e7as, imaginei escrever sobre a passagem do Projeto Rondon por Cansan\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante o caminho, percebi que estava procurando algo maior.<\/p>\n<p>Estava tentando reencontrar a <strong><em>Cansan\u00e7\u00e3o de 1978<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>A cidade dos poucos recursos, das cartas e telegramas, das vendas de secos e molhados, dos causos contados pelos mais velhos, do reisado, das estradas percorridas por ve\u00edculos que hoje despertariam curiosidade \u2014 e de um Jeep que, quase meio s\u00e9culo depois, continua aparecendo nas lembran\u00e7as de diferentes pessoas.<\/p>\n<p>E, inevitavelmente, reencontrei tamb\u00e9m personagens.<\/p>\n<p>Alguns ainda est\u00e3o aqui para contar suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Outros partiram.<\/p>\n<p>Entre eles, <strong><em>Nico do Nestor<\/em><\/strong>, meu amigo de inf\u00e2ncia e companheiro de tantas lembran\u00e7as, falecido h\u00e1 cerca de dois anos.<\/p>\n<p>Talvez, se aquele Jeep n\u00e3o existisse \u2014 ou se Nico n\u00e3o fosse exatamente o Nico que conheci \u2014, minha aproxima\u00e7\u00e3o com aqueles universit\u00e1rios jamais tivesse acontecido da mesma maneira.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso perceber como acontecimentos aparentemente pequenos podem atravessar d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Um amigo.<\/p>\n<p>Um Jeep.<\/p>\n<p>Um grupo de jovens desconhecidos.<\/p>\n<p>Uma pequena cidade do sert\u00e3o baiano.<\/p>\n<p>E umas f\u00e9rias que pareciam ser apenas mais umas f\u00e9rias.<\/p>\n<p><strong><em>Mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 documento \u2014 mas tamb\u00e9m conta a Hist\u00f3ria<\/em><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo transformar minhas recorda\u00e7\u00f5es, nem as de Izid\u00f3rio Menezes ou Jo\u00e3o da Macena, em documento hist\u00f3rico absoluto.<\/p>\n<p>A mem\u00f3ria humana guarda algumas coisas, modifica outras e inevitavelmente perde detalhes pelo caminho.<\/p>\n<p>Talvez justamente por isso tenha sido t\u00e3o importante ouvir outras pessoas.<\/p>\n<p><strong><em>Uma lembran\u00e7a encontrou outra.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A minha trouxe Nico, o Jeep e a aproxima\u00e7\u00e3o com aqueles jovens.<\/p>\n<p>Izid\u00f3rio recuperou lugares, atividades, nomes e cenas da conviv\u00eancia com os integrantes do Projeto.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o trouxe de volta a cidade, seus personagens, seus \u201ccausos\u201d e, principalmente, a dimens\u00e3o que aquela experi\u00eancia teve para parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o mem\u00f3rias diferentes que, colocadas lado a lado, ajudam a recompor um pequeno peda\u00e7o da hist\u00f3ria de Cansan\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o da Macena, depois de acompanhar pessoalmente aquela experi\u00eancia, resumiu sua avalia\u00e7\u00e3o em poucas palavras:<\/p>\n<p><strong><em>\u201cNo per\u00edodo em que tive o prazer de conviver e acompanhar, posso considerar o Projeto como fant\u00e1stico!\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Quarenta e oito anos depois, talvez j\u00e1 n\u00e3o seja poss\u00edvel reconstruir cada dia, cada atendimento ou identificar todas as pessoas que participaram daquela experi\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas ainda \u00e9 poss\u00edvel reconstruir aquilo que permaneceu.<\/p>\n<p>As lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>As amizades.<\/p>\n<p>Os personagens.<\/p>\n<p>Os ensinamentos.<\/p>\n<p>E aquele encontro entre dois mundos que, por algum tempo, dividiram as mesmas ruas de Cansan\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quanto a mim, ao olhar novamente para 1978, descubro que aquela hist\u00f3ria nunca desapareceu.<\/p>\n<p><strong><em>Estava apenas guardada na mem\u00f3ria, esperando quase meio s\u00e9culo para ser contada.<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Colabora\u00e7\u00e3o:<\/em><\/strong> Izidorio Menezes, Jo\u00e3o da Macena e Eliane Fernandes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Blog do Florisvaldo &#8211; Informa\u00e7\u00e3o Com Imparcialidade<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quarenta e oito anos se passaram. 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