{"id":20500,"date":"2025-05-23T12:00:31","date_gmt":"2025-05-23T15:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.portaldenoticias.net\/ffsantos\/?p=20500"},"modified":"2025-05-30T15:01:46","modified_gmt":"2025-05-30T18:01:46","slug":"20500-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/20500-2\/","title":{"rendered":"SANTO ANTONIO DAS QUEIMADAS &#8211; \u201cQUE A JUSTI\u00c7A DE \u00c1GUA FRIA TE CONDENE\u201d &#8211; O JULGAMENTO DE UM SANTO NO SERT\u00c3O BAIANO"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center\"><strong><em><a href=\"https:\/\/www.portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-20505\" src=\"https:\/\/www.portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-1024x294.png\" alt=\"\" width=\"749\" height=\"215\" srcset=\"https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-1024x294.png 1024w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-300x86.png 300w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-768x220.png 768w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-1536x441.png 1536w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-2048x588.png 2048w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-150x43.png 150w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-450x129.png 450w, https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/igreja-Imagem1-1200x345.png 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 749px) 100vw, 749px\" \/><\/a>Igreja 1: Autoria: Rosa Ramos, 1980. Acervo de D. Minita. Queimadas Ba &#8211;\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>\u00a0Igreja 2: <\/em><\/strong><strong><em>Igreja de Santo Ant\u00f4nio. Queimadas-Ba. Foto: Ariene G\u00f3es &#8211; Queimadas-Ba<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>NOTA DO EDITOR:<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Com a devida autoriza\u00e7\u00e3o da autora, Ariene Pinto G\u00f3es Matos, compartilho na \u00edntegra seu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso, apresentado ao curso de Licenciatura em Hist\u00f3ria como requisito para obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de licenciada, sob a orienta\u00e7\u00e3o da Professora Suzana Severs.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ressaltar a qualidade e a profundidade deste trabalho acad\u00eamico, publico-o com o objetivo de dar visibilidade a uma narrativa singular e riqu\u00edssima do nosso folclore. Trata-se do inusitado julgamento de um santo no sert\u00e3o da Bahia \u2014 um epis\u00f3dio carregado de simbolismo, devo\u00e7\u00e3o popular e sabedoria popular \u2014 que eternizou a marcante frase:\u00a0<strong><em>\u201cQue a justi\u00e7a de \u00c1gua Fria te condene!\u201d<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Este relato \u00e9 uma verdadeira joia da cultura brasileira, que revela como f\u00e9, justi\u00e7a e tradi\u00e7\u00e3o popular se entrela\u00e7am no imagin\u00e1rio do nosso povo. Ao valorizar hist\u00f3rias como essa, enaltecemos n\u00e3o apenas o trabalho da autora, mas tamb\u00e9m a riqueza do folclore nacional. Florisvaldo Ferreira dos Santos<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Trabalho de conclus\u00e3o de curso apresentado ao curso de Licenciatura em Hist\u00f3ria para obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de licenciada, sob a orienta\u00e7\u00e3o da Professora Suzana Severs.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Resumo<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Este artigo conta a hist\u00f3ria do julgamento e condena\u00e7\u00e3o da imagem de Santo Ant\u00f4nio das Queimadas a qual foi responsabilizada por um assassinato na regi\u00e3o de Queimadas em raz\u00e3o de ter recebido toda a heran\u00e7a de uma devota, propriet\u00e1ria desta imagem e, dentre ela estar um escravo, autor do crime. A legisla\u00e7\u00e3o de final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do XIX, quando este epis\u00f3dio parece se desenvolver, atribui responsabilidade de crimes cometidos por escravos a seus donos. Sendo assim, a imagem do santo foi obrigada a pagar por um crime e condenado \u00e0 perda dos seus bens para custear as despesas do processo. Por aus\u00eancia de comprova\u00e7\u00e3o do julgamento, esta hist\u00f3ria faz parte do imagin\u00e1rio coletivo de Queimadas sendo respons\u00e1vel, algumas vezes, pelos infort\u00fanios que ocorrem no munic\u00edpio. E \u00e9 este aspecto que apuramos neste trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Palavras-chave<\/strong>: Religiosidade popular; Santo Ant\u00f4nio; Imagin\u00e1rio, Sert\u00e3o baiano<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong><em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/h2>\n<p>Este \u00e9 um trabalho de cunho descritivo que se preocupou em levantar informa\u00e7\u00f5es para contar a hist\u00f3ria do julgamento civil de Santo Ant\u00f4nio em Queimadas, Bahia, ocorrido em data incerta, entre o final do s\u00e9culo XVIII ou o in\u00edcio do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Queimadas, cidade do sert\u00e3o baiano, foi palco de um epis\u00f3dio curioso. O juiz da comarca de \u00c1gua Fria teria submetido \u00e0 imagem de Santo Ant\u00f4nio das Queimadas a um julgamento civil, para responder por um crime cometido por um dos seus escravos, baseado na lei imperial que responsabilizava o senhor de escravos por quaisquer delitos e danos causados por eles. Santo Ant\u00f4nio era dono de terras, gados e escravos que lhes tinham sido doado por Dona Maria Isabel Guedes de Brito. Depois do julgamento a imagem desapareceu sem deixar vest\u00edgios, o mesmo aconteceu com o processo criminal.<\/p>\n<p>Como foi imposs\u00edvel encontrar o processo do julgamento, hist\u00f3ria que contamos no corpo deste artigo, optamos por levantar a hist\u00f3ria do julgamento no imagin\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o, nos dias de hoje. Posto que encontramos em algumas falas a id\u00e9ia de regresso e decad\u00eancia da cidade ligado a este fato.<\/p>\n<p>Para ajudar em nossa reflex\u00e3o utilizamos como referencial te\u00f3rico Jean-Jacques Wunenburger sobre imagin\u00e1rio e os escritos sobre religiosidade de Luiz Mott. Metodologicamente, para dar conta da pesquisa t\u00e3o fragmentada, lan\u00e7amos m\u00e3o das entrevistas nos moldes da hist\u00f3ria oral proposta por Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom Meihy, ainda que n\u00e3o classifiquemos este artigo como um trabalho de hist\u00f3ria oral propriamente dito, utilizamos as entrevistas apenas como um recurso complementar dos textos mais estruturados. Optamos por n\u00e3o identificar as pessoas entrevistadas para preservar a sua identidade.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong><em>1 &#8211; <\/em><\/strong><strong><em>Santo Ant\u00f4nio no Brasil<\/em><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong>Por arte de umas leis ou do Dem\u00f4nio levaram a imagem para os tribunais, condenaram no j\u00fari a Santo Ant\u00f4nio que ali mesmo perdeu os cabedais.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong>Perdeu tudo o que tinha de uma vez: terras, escravos, ro\u00e7as e boiadas deixaram pobre o insigne portugu\u00eas.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong>O caso fez esc\u00e2ndalo no c\u00e9u, porque foi Santo Ant\u00f4nio das Queimadas o \u00fanico santo que tamb\u00e9m foi r\u00e9u&#8230; (Nonato Marques)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Um dos tra\u00e7os marcantes da espiritualidade dos cat\u00f3licos sempre foi \u00e0 devo\u00e7\u00e3o aos santos, tendo uma rela\u00e7\u00e3o de adula\u00e7\u00e3o e rituais. Os santos t\u00eam um papel essencial na vida religiosa, tanto para resolver problemas mundanos quanto espirituais. Os cat\u00f3licos se valem de promessas e novenas aos santos a fim de realizar seus pedidos como um mercado de troca.<\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o de Santo \u00e9 explicitada por Luiz Mott quando diz que:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Santo \u00e9 que se adula&#8230; diz um ditado antigo repetido na Bahia de todos os Santos. De fato, na religiosidade popular do Brasil de antanho, a intimidade dos devotos vis-\u00e0-vis certos santos e oragos percorria um continuum de amor e \u00f3dio, que inclu\u00eda louvores, adula\u00e7\u00e3o, rituais propiciat\u00f3rios, intimida\u00e7\u00e3o e at\u00e9 agress\u00e3o f\u00edsica explicita. <sup>1<\/sup><\/em><\/strong><\/p>\n<p>Dentro do rol dos santos o lusitano Santo Ant\u00f4nio \u00e9 o campe\u00e3o da devo\u00e7\u00e3o popular. Dedicou toda a sua vida aos ensinamentos de Deus, conhecedor e praticante dos ensinamentos da B\u00edblia Sagrada recebeu o t\u00edtulo de Doutor da Igreja<sup>2<\/sup>. Um grande pregador dos evangelhos e apoiado por uma popularidade que sempre crescia de \u00e9poca em \u00e9poca, Santo Antonio foi canonizado em apenas um ano ap\u00f3s a sua morte (1232).<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>1<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>MOTT, Luiz. Cotidiano e viv\u00eancia religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA. Laura de Melo; NOVAIS. Fernando (orgs). Hist\u00f3ria da Vida Privada no Brasil. p.184.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Santo Ant\u00f4nio \u00e9 conhecido como Santo Ant\u00f4nio de Lisboa e tamb\u00e9m como Santo Antonio de P\u00e1dua, em raz\u00e3o de ser o patrono de Portugal, por ter nascido na capital, Lisboa (1195), e de P\u00e1dua (It\u00e1lia), porque foi l\u00e1 que passou dez anos evangelizando at\u00e9 sua morte, 13 de junho de 1231, data que se tornou celebrativa de sua mem\u00f3ria e devo\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o a cada 13 de junho, fi\u00e9is o celebram com trezenas e prociss\u00f5es lembrando seus feitos em vida e tamb\u00e9m os milagres realizados por ele depois de sua morte.<\/p>\n<p>Santo Ant\u00f4nio foi uns dos santos trazidos para o Brasil pelos portugueses, os quais eram devotos fervorosos do santo franciscano, tinham um culto com sentido patri\u00f3tico. Eles determinaram Santo Ant\u00f4nio como o padroeiro da Bahia, sendo que ele j\u00e1 era patrono de Portugal.<\/p>\n<p>Existem no Brasil diversas cidades que t\u00eam igrejas ou capelas consagradas a este santo. E muitas igrejas que n\u00e3o s\u00e3o consagradas, possuem sua imagem em um dos altares laterais. Al\u00e9m disso, muitos devotos t\u00eam em sua pr\u00f3pria casa a imagem de Santo Ant\u00f4nio, expressando a influ\u00eancia portuguesa aos brasileiros na venera\u00e7\u00e3o ao santo franciscano.<\/p>\n<p>Na religiosidade popular brasileira Santo Ant\u00f4nio foi e continua sendo um dos santos mais requisitado pelos fi\u00e9is. Ele \u00e9 bastante procurado para resolver problemas conjugais &#8211; o \u201csanto casamenteiro\u201d. Mas nem sempre foi assim, na \u00e9poca colonial ele era procurado para solucionar diversos problemas dos seus devotos, desde a cura de uma doen\u00e7a a achar coisas perdidas e principalmente ele era solicitado como um colaborador dos senhores na captura de negros fuj\u00f5es.<\/p>\n<p>V\u00e1rias torturas eram aplicadas a Santo Ant\u00f4nio pelos fi\u00e9is &#8211; colocar pedra sobre sua imagem, retirar o menino Jesus de seus bra\u00e7os, coloc\u00e1-lo de cabe\u00e7a pra baixo, arrancar- lhe o esplendor &#8211; com o objetivo de realizar seus pedidos, desde a intercess\u00f5es em aproxima\u00e7\u00f5es amorosas e enlaces conjugais, como hoje ainda acontece e tamb\u00e9m para recuperar os escravos fugitivos e encontrar coisas perdidas.<\/p>\n<p>Em um registro do s\u00e9culo XIX, de Thomas Ewbank, viajante ingl\u00eas h\u00e1 o relato de uma senhora que confessa que sua m\u00e3e realizava torturas a Santo Ant\u00f4nio a fim de localizar seu escravo fugido. Dando v\u00e1rias receitas de como castig\u00e1-lo para alcan\u00e7ar suas solicita\u00e7\u00f5es, as quais foram ensinadas por sua pr\u00f3pria m\u00e3e. Ela afirmava que, ao torturar a imagem, acelerava o atendimento do pedido e que o santo, por ter desejado em vida o sacramento do mart\u00edrio, n\u00e3o se importaria<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>2<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Na <u>Igreja Cat\u00f3lica<\/u>, Doutor e Doutora da Igreja , s\u00e3o homens e mulheres cujos pensamentos, prega\u00e7\u00f5es, escritos e forma de vida enalteceram o <u>cristianismo<\/u>.Todos eles foram considerados modelos de santidade e que contribuiram de alguma forma original (e ortodoxa) para a doutrina e espiritualidade crist\u00e3, tendo sido o t\u00edtulo reconhecido quer por um <u>Papa<\/u>, quer por um <u>conc\u00edlio ecum\u00e9nico<\/u> (embora nenhum conc\u00edlio tenha jamais exercido essa prerrogativa); trata-se de uma honra rara (a Igreja conta apenas 33 doctores ecclesi\u00e6 entre os seus m\u00faltiplos santos), atribu\u00edda apenas a t\u00edtulo p\u00f3stumo e ap\u00f3s a canoniza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Padre Ant\u00f4nio Vieira, que foi um grande admirador de Santo Ant\u00f4nio, a quem dedicou in\u00fameros serm\u00f5es e proclamava-o Santo Universal, afirmava que a pr\u00e1tica desses maus tratos ao santo podia ser interpretada como uma d\u00edvida, um condicionamento do santo ao cumprimento do pedido. <sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Na mentalidade dos fi\u00e9is estas pr\u00e1ticas eram normais, apenas uma forma de alcan\u00e7ar os seus pedidos com mais rapidez e efic\u00e1cia. Apesar de toda tortura, existe o respeito e a venera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong><em>1.1 <\/em><\/strong><strong><em>A patente de Santo Ant\u00f4nio<\/em><\/strong><\/h2>\n<p>Durante o per\u00edodo colonial no Brasil a imagem de Santo Ant\u00f4nio recebeu diversos t\u00edtulos da gradua\u00e7\u00e3o militar, sendo promovido a patente de capit\u00e3o em v\u00e1rias cidades, recebeu o t\u00edtulo de tenente-coronel do pr\u00f3prio D. Jo\u00e3o VI quando ainda era pr\u00edncipe regente, em 1814, os soldos referentes ao t\u00edtulo militar era recebido pelos respons\u00e1veis das igrejas da cidade as quais o santo era homenageado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>No per\u00edodo do Brasil Col\u00f4nia, pela carta-r\u00e9gia de 07 de abril de 1707, o governo portugu\u00eas facultou pra\u00e7a de Capit\u00e3o, com o respectivo soldo, \u00e0 Imagem do Santo Ant\u00f4nio do Convento de S\u00e3o Francisco da Bahia. Em 21 de mar\u00e7o de 1711, confirma no posto de capit\u00e3o \u00e0 Imagem do Santo Ant\u00f4nio do Rio de Janeiro; a de Goi\u00e1s, em 19 de novembro de 1750 com o soldo de 480 mil reis anuais; em 22 de fevereiro de 1784, \u00e9 dado o posto de capit\u00e3o \u00e0 Imagem do Santo Ant\u00f4nio de Ouro Preto. Por decreto de 13 de setembro de 1810, D. Jo\u00e3o VI eleva o glorioso Santo, venerado aqui em nossa Cidade do Salvador, ao posto de Major de Infantaria, percebendo o soldo desta patente; promovido a Tenente-coronel com o respectivo\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>soldo&#8230; 5<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>3<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> MOTT, Luiz. Cotidiano e viv\u00eancia religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA. Laura de Melo; NOVAIS. Fernando (orgs). Hist\u00f3ria da Vida Privada no Brasil. p.187.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>4<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Idem, p.187<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>5<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Jornal A Tarde de 13 de Junho de 1970. Santo Ant\u00f4nio \u2013 Coronel<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Um artigo publicado na Revista do Instituto Geogr\u00e1fico e Hist\u00f3rico da Bahia<sup>6,\u00a0<\/sup>transcreve a carta de patente de Tenente-coronel feita por D, Jo\u00e3o em 1814.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Fa\u00e7o saber aos que esta minha carta patente virem que sendo da minha particular devo\u00e7\u00e3o o glorioso Santo Ant\u00f4nio, a quem o povo desta corte incessantemente e com a maior f\u00e9 dedica os seus votos; e tendo o c\u00e9u aben\u00e7oado os esfor\u00e7os dos meus ex\u00e9rcitos com a paz que se dignou conceder a monarquia portuguesa, crendo eu piamente que a eficaz intercess\u00e3o do mesmo santo tem concorrido para t\u00e3o felizes resultados: Hei por bem elevai-o ao posto de Tenente-Coronel de infantaria e com ele haver\u00e1 o respectivo soldo&#8230;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Estes t\u00edtulos foram dados \u00e0 imagem de Santo Ant\u00f4nio como forma de pagamento pela prote\u00e7\u00e3o dada durante batalhas e invas\u00f5es de povos inimigos. O governador da capitania de Pernambuco concede o t\u00edtulo de Pra\u00e7a a Santo Ant\u00f4nio antes de sair para Guerra dos Palmares.<\/p>\n<p><strong><em>O governador desta capitania, Jo\u00e3o do Souto Maior, por portaria datada de 13 de Setembro de 1685, mandou abrir assento de Pra\u00e7a a Santo Ant\u00f4nio, afim de seguir a sua viagem para a guerra dos palmares e proteger as armas reais na conquista desse quilombo; e ao mesmo tempo expediu as necess\u00e1rias ordens, para que se pagasse ao sindico do convento de Olinda o soldo e import\u00e2ncia do fardamento que lhe\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>competiam.<\/em><\/strong> 7<\/p>\n<p>Com toda esta venera\u00e7\u00e3o, encontramos Santo Ant\u00f4nio em Queimadas, terra do sert\u00e3o baiano, como herdeiro de uma fazenda, gados e escravos. Heran\u00e7a esta que lhe rendeu um processo na justi\u00e7a como veremos adiante.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0<\/em><\/strong><strong><em>2 &#8211; Santo Ant\u00f4nio no banco dos r\u00e9us<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <\/em><\/strong><strong><em>2.1 &#8211; As Terras de Guedes de Brito<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>No in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, Portugal instituiu doa\u00e7\u00f5es de terras com o objetivo de povoar as regi\u00f5es em que viviam popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e as terras que eram sempre amea\u00e7adas por invasores estrangeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>No in\u00edcio do s\u00e9culo XVI, quando Portugal, no reinado de D. Jo\u00e3o III, estabeleceu concess\u00f5es de terras com o fim de povoamento em vastas regi\u00f5es, nas quais viviam popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e cujas terras eram amea\u00e7adas constantemente por invasores estrangeiros, no caso, os holandeses. Atrav\u00e9s desse processo de ocupa\u00e7\u00e3o territorial os capit\u00e3es donat\u00e1rios recebiam gratuitamente 50 l\u00e9guas de costa, tornando-se reais propriet\u00e1rios de apenas 20% das terras.\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>Os outros 80% deveriam ser distribu\u00eddas sem qualquer \u00f4nus, a titulo de sesmaria, cujos sesmeiros se obrigavam a cultiv\u00e1-las num prazo m\u00e1ximo de cinco anos. 8<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong><sup>6<\/sup> Revista Trimestral do Instituto Geogr\u00e1fico e Hist\u00f3rico da Bahia. Ano VI, Vol. VI, n. 21. Setembro de 1899. Variedade Hist\u00f3rica: A patente de Santo Ant\u00f4nio. P. 469-472<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong><sup>7<\/sup> Idem; p 470<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Atrav\u00e9s desse processo de ocupa\u00e7\u00e3o territorial, as terras mais afastadas do litoral eram doadas a t\u00edtulos de sesmaria. Tais concess\u00f5es deram origem \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de grandes latif\u00fandios como \u00e9 o caso dos Guedes de Brito.<\/p>\n<p>O vasto imp\u00e9rio dos Guedes de Brito foi iniciado por Ant\u00f4nio de Brito Correa e sua esposa Maria Guedes, e teve continuidade pelo herdeiro da fam\u00edlia, Ant\u00f4nio Guedes de Brito<sup>9<\/sup>. A vasta extens\u00e3o territorial do patrim\u00f4nio dos Guedes de Brito percorria a dist\u00e2ncia entre Morro do Chap\u00e9u, Ba. at\u00e9 Ouro Preto, Mg, isso significava 1.333 km de terras.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Guedes de Brito anexou essas terras a outras que herdara dos pais e tios no norte da Capitania da Bahia formando o segundo maior latif\u00fandio da Am\u00e9rica portuguesa, superado apenas pelos D\u201f\u00e1vila, da Casa da Torre, cujos dom\u00ednios estendiam-se por \u00e1reas atualmente sob jurisdi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias unidades da federa\u00e7\u00e3o, desde a Bahia at\u00e9 ao Maranh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>A leitura realizada no documento tamb\u00e9m mostra a grandiosidade das posses territoriais que os Guedes de Brito amealharam durante o per\u00edodo colonial seja por via familiar (heran\u00e7a), seja por ocupa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. A incorpora\u00e7\u00e3o de outras sesmarias ao patrim\u00f4nio Guedes de Brito deu-se tamb\u00e9m mediante servi\u00e7os prestados \u00e0 Coroa por esta fam\u00edlia ajudando na defesa da Col\u00f4nia e atrav\u00e9s do acolhimento que dava \u00e0s tropas portuguesas em suas terras, Em conseq\u00fc\u00eancia desses relevantes servi\u00e7os, foi concedido a Antonio de Brito Correa e depois legado\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>ao seu filho &#8211; Antonio Guedes de Brito &#8211; o t\u00edtulo de Mestre-de\u2013Campo. 10<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>Em 1676 a Coroa portuguesa designou o desembargador Sebasti\u00e3o Cardoso Sampaio para fiscalizar a situa\u00e7\u00e3o das sesmarias que at\u00e9 aquela data haviam sido concedidas. Todos os sesmeiros fizeram declara\u00e7\u00e3o das suas terras com provas dos respectivos t\u00edtulos. Dentre estes declarantes estava Ant\u00f4nio Guedes de Brito, cuja declara\u00e7\u00e3o de bens foi publicada na integra na Revista do Instituto Geogr\u00e1fico e Hist\u00f3rico da Bahia<sup>11<\/sup><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong><span style=\"font-size: 14px\">8 NEVES, Erivaldo Fagundes. <\/span>Da Sesmaria ao Minif\u00fandio (um estudo de hist\u00f3ria regional e local). <span style=\"font-size: 14px\">Apud VASCONCELOS, Suani de Almeida. <\/span>Carta de Sesmaria- Seculo XIX: Edi\u00e7\u00e3o Semidiplom\u00e1tica e Estudo Hist\u00f3rico. <a style=\"font-size: 14px\" href=\"http:\/\/www.filologia.org.br\/...\/Carta_de_Sesmaria_\">www.filologia.org.br\/&#8230;\/Carta_de_Sesmaria_<\/a><span style=\"font-size: 14px\">\u2013_S\u00e9culo_XIX<\/span><\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong>9 O qual se transformou em um dos homens mais importantes da Bahia seiscentista, conquistando tamb\u00e9m v\u00e1rios<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong>t\u00edtulos como: Mestre de campo, Fidalgo de Sua Majestade, Provedor da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia (1663) e Capit\u00e3o de infantaria, por carta patente de 26 de fevereiro de 1667.<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong>10 VASCONCELOS, Suani de Almeida. Carta de Sesmaria- Seculo XIX: Edi\u00e7\u00e3o Semidiplom\u00e1tica e Estudo<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong>Hist\u00f3rico. <a href=\"http:\/\/www.filologia.org.br\/...\/Carta_de_Sesmaria_\">www.filologia.org.br\/&#8230;\/Carta_de_Sesmaria_<\/a>\u2013_S\u00e9culo_XIX_<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><em><strong><sup>11<\/sup> Revista do Instituto Geogr\u00e1fico e Hist\u00f3rico da Bahia, 1916. Ano XXIII, Vol. XI n.42. As Terras de Guedes de Brito, p. 69-74<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong><em>\u201eAs fazendas de Curr\u00e1es de gados nos districtos d\u00f3rio Real, possuo por t\u00edtulo de heran\u00e7a de meu pai Antonio Brito Correa [&#8230;] as Fazendas de Itapicur\u00fa desta parte da Bahia por escritura de compra [&#8230;] as Fazendas dos Toc\u00f3s por hum t\u00edtulo de sesmaria dado a minha M\u00e3y Maria Guedes [&#8230;] Possuo metade da Matta de S. Jo\u00e3o, por arremata\u00e7\u00e3o [&#8230;] Tenho huma Fazenda de Cana em Mar\u00e9&#8230;\u201f<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O documento mostra a grandiosidade das posses territoriais que os Guedes de Brito possu\u00edam durante o per\u00edodo colonial sejam por sesmarias, por heran\u00e7a, compradas, ou por ocupa\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Muitas vezes ele declara o pedido de amplia\u00e7\u00e3o de determinados territ\u00f3rios \u00e0s autoridades respons\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Acima destas Fazendas do Itapicur\u00fa merim pedimos meu pai e eu ao Conde de Castelo melhor Governador que foi deste Estado em 26 de Outubro de 1652, principiando no Caguague, ou Caguaguena at\u00e9 a Serra do Tuyuyuba com oito l\u00e9guas de largo. E em 2 de Mar\u00e7o de 1665, pedi na mesma Caguague, junto ao Itapicur\u00fa por ele acima at\u00e9 as suas nascen\u00e7as com seis l\u00e9guas de largo por haverem muitos matos e serras com que n\u00e3o fazia toda a dist\u00e2ncia habit\u00e1vel, logo as povoei de meus pr\u00f3prios currais &#8230; 12<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Dentro desta minuciosa declara\u00e7\u00e3o Ant\u00f4nio Guedes de Brito mencionou as fazendas dos Toc\u00f3s, que segundo Nonato Marques<sup>13<\/sup> foi nesta parte do territ\u00f3rio dos Guedes de Brito que o munic\u00edpio de Queimadas foi fundado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Possuo as Fazendas dos Tocos por um t\u00edtulo de sesmaria dado a minha m\u00e3e Maria Guedes, ao Padre Manoel Guedes Lobo, a Sebastiana de Brito, a Ana Guedes em 14 de Dezembro de 1612 pelo Governador D. Diogo de Menezes. E dito Padre meu tio me fez a doa\u00e7\u00e3o do que lhe tocava&#8230; E o Capit\u00e3o Francisco Barbosa Paiva, marido de minha tia, Sebastiana de Brito fizeram venda ao meu pai do que lhes pertencia &#8230; as quais terras povoei, descobrindo-as, fazendo estradas e pazes com os \u00edndios Cariocas, Sapoias e Carapaus &#8230; 14<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A margem direita do rio Itapicuru-A\u00e7u, existiam duas fazendas chamadas \u201cAs Queimadas\u201d, ambas pertencentes \u00e0 Dona Isabel Maria Guedes de Brito herdeira de imensos territ\u00f3rios deixados por seu pai Ant\u00f4nio Guedes de Brito. As fazendas eram chamadas de Queimadas, por causa das constantes queimas que faziam na caatinga para conseguir espa\u00e7o para planta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante todo processo de eleva\u00e7\u00e3o da fazenda seja em arraial, depois em freguesia (1842), e anos depois em vila (1884) o nome do santo esteve presente na denomina\u00e7\u00e3o desta localidade. Apenas em 1915, com a lei estadual n\u00ba 1.081, que a cidade passou de Santo Ant\u00f4nio das Queimadas para ser simplificado apenas a Queimadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>12<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Idem, p. 70 e 71<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>13<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Nonato Marques foi um memorialista queimadense que escreveu um livro relatando toda a hist\u00f3ria de Queimadas, desde o desbravamento das terras pelos Guedes de Brito at\u00e9 1980.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>14<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Revista do Instituto Geogr\u00e1fico e Hist\u00f3rico da Bahia, 1916. Ano XXIII, Vol. XI n.42. As Terras de Guedes de Brito, p.71<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong>E foi a\u00ed que come\u00e7ou a hist\u00f3ria do julgamento de Santo Ant\u00f4nio das Queimadas, a qual abordaremos a seguir.<\/p>\n<p><strong><em>2-\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Santo Ant\u00f4nio no banco dos r\u00e9us<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>2.1\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As Terras de Guedes de Brito<\/em><\/strong><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong><em>2.2 <\/em><\/strong><strong><em>Aparecimento da imagem de Santo Ant\u00f4nio em Queimadas<\/em><\/strong><\/h2>\n<p>Foi neste espa\u00e7o do sert\u00e3o nordestino que ocorreu a curiosa apari\u00e7\u00e3o de uma imagem de Santo Ant\u00f4nio. Segundo a hist\u00f3ria transmitida por gera\u00e7\u00f5es, a imagem deste Santo apareceu, inexplicavelmente, debaixo de uma \u00e1rvore no alto de uma colina, local em que mais tarde, a igreja de Santo Ant\u00f4nio das Queimadas foi constru\u00edda, l\u00e1 permanecendo at\u00e9 hoje. A imagem foi encontrada por um vaqueiro debaixo de uma \u00e1rvore, e infelizmente perdeu-se no tempo. Depois do julgamento, a imagem teria sumido e ningu\u00e9m sabe seu paradeiro.<\/p>\n<p>As entrevistas realizadas com moradores da cidade mostram certa contradi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de \u00e1rvore onde a imagem teria sido encontrada. Temos v\u00e1rias vers\u00f5es: licurizeiro, pindobeira, arir\u00ed, quixabeira, figueira. N\u00e3o h\u00e1 um consenso em rela\u00e7\u00e3o a isso, j\u00e1 que a \u00e1rvore foi arrancada para a constru\u00e7\u00e3o da capela e afirmam que onde se encontra o altar principal foi o local que encontraram a imagem de Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Ao se deparar com a imagem, o vaqueiro a levou para a casa da dona das fazendas, Dona Isabel Maria Guedes de Brito, e ela o colocou no seu orat\u00f3rio. Curiosamente, no dia seguinte a imagem havia desaparecido. Mais tarde, foi encontrada no mesmo local que tinha aparecido pela primeira vez. Esse deslocamento ocorreu diversas vezes: ao sumir da casa da fazenda a imagem era sempre achada no local em que o vaqueiro a encontrou pela primeira vez. O fato foi dado como milagre.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>[&#8230;] Queimadas come\u00e7ou a surgir ao redor dessas queimas da fazenda ent\u00e3o da\u00ed o nome de Queimadas, e tamb\u00e9m tem uma liga\u00e7\u00e3o com a imagem de Santo Ant\u00f4nio, o povo conta que apareceu essa imagem dejunto [sic] de uma pindoba e ent\u00e3o os escravos que encontraram levaram at\u00e9 a casa da fazenda. A senhora da fazenda muito piedosa chamou todo mundo para avisar e deixou a imagem dentro da casa da fazenda, daqui a uns dias a imagem desapareceu e foi achada de novo no lugar\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>onde tinha sido encontrada no in\u00edcio e assim outras vezes [&#8230;]15<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Os sucessivos aparecimentos e desaparecimentos da imagem de Santo Ant\u00f4nio chegaram ao conhecimento de alguns mission\u00e1rios capuchinhos que l\u00e1 estavam de passagem. Eles aconselharam Dona Isabel Guedes de Brito a construir uma capela em consagra\u00e7\u00e3o ao santo no mesmo local onde a imagem apareceu transformando, daquele dia em diante, Santo Ant\u00f4nio em padroeiro da localidade, que passou a se chamar Santo Ant\u00f4nio das Queimadas.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do aparecimento da imagem de Santo Ant\u00f4nio em Queimadas logo foi conhecida por toda redondeza. Logo ap\u00f3s a constru\u00e7\u00e3o da capela, come\u00e7ou as romarias e peregrina\u00e7\u00f5es dos sertanejos, os quais vinham conhecer a imagem que tinha aparecido misteriosamente. Vinham prestar venera\u00e7\u00e3o, fazer e pagar promessas ao Santo t\u00e3o milagroso.<\/p>\n<p>Depois da constru\u00e7\u00e3o da capela, Dona Isabel franqueou terras a quem quisesse morar naquela localidade. Assim o povoado come\u00e7ou a se formar a margem direita do rio Itapicuru. Muitos destes novos moradores eram peregrinos que vieram para venerar a imagem de Santo Ant\u00f4nio e resolveram residir no local.<\/p>\n<p>Neste espa\u00e7o nordestino que por si s\u00f3 \u00e9 um local m\u00edstico, onde o povo tem muita f\u00e9, Santo Ant\u00f4nio recebeu de Dona Isabel Maria Guedes de Brito, a dona das fazendas, uma heran\u00e7a. Segundo Nonato Marques, memorialista queimadense, ap\u00f3s a morte de Dona Isabel seus bens foram legados \u00e0quela imagem de Santo Ant\u00f4nio: terras, escravos, gados. Estes bens eram administrados pela freguesia de Sant\u201fAna do Tucano, que jurisdicionava Santo Ant\u00f4nio das Queimadas<sup>16<\/sup>.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong><em>2.3 <\/em><\/strong><strong><em>&#8211; A pris\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio<\/em><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>15<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Entrevista realizada com Sr. Marcelo* no dia 23 de julho de 2009* (Os nomes dos entrevistados s\u00e3o aqui substitu\u00eddos por nomes fict\u00edcios a fim de preservar suas identidades.)<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>16<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>MARQUES, Nonato. Santo Ant\u00f4nio das Queimadas. Salvador, 1984. p.94<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Segundo a mem\u00f3ria coletiva dos queimadenses, entre o final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do s\u00e9culo XIX (n\u00e3o temos como comprovar com exatid\u00e3o data por falta de documenta\u00e7\u00e3o), Queimadas teria passado por um dos epis\u00f3dios mais pitorescos da hist\u00f3ria da religiosidade brasileira: o julgamento civil da imagem de Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Depois de uma noite de louva\u00e7\u00e3o a Santo Ant\u00f4nio, um homem foi assassinado e o corpo foi colocado no adro da igreja. No sert\u00e3o daquela \u00e9poca se fosse encontrado um morto na frente da porta da casa de qualquer pessoa, o dono da casa seria respons\u00e1vel pelo crime.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>N\u00f3s sabemos que a lei daquela \u00e9poca quando tinha um crime, uma morte violenta de alguma pessoa onde se encontrasse o cad\u00e1ver da pessoa o dono da casa respondia processo. Dizem os antigos que houve uma festa e uma briga entre os escravos e ent\u00e3o houve um crime e deixaram o corpo na frente da igreja Santo Ant\u00f4nio e por isso foi como a lei mandava, foi aberto um processo contra Santo\u00a0<\/strong><strong>Ant\u00f4nio.17<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Tinha aquela lei que onde aparecia a arma do crime, quem era condenado era o dono da casa onde a arma tinha aparecido, a\u00ed eles mataram um escravo e deixaram a arma, a faca l\u00e1 na igreja, a\u00ed quem foi condenado foi Santo Ant\u00f4nio.18<\/strong><\/p>\n<p>Sendo assim o crime foi atribu\u00eddo a um escravo que pertencia a Santo Ant\u00f4nio, pois o mesmo teria desaparecido neste dia sem explica\u00e7\u00f5es e nunca mais foi encontrado. Diante do acontecido \u00e0 imagem do santo foi responsabilizada pelo crime cometido por seu escravo.<\/p>\n<p>Isso se deu por causa de uma lei do per\u00edodo que penalizava o senhor pelos delitos cometidos pelos seus escravos, caso este n\u00e3o o entregasse na m\u00e3o da justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>[&#8230;] um escravo de Santo Ant\u00f4nio que cometeu o crime e fugiu, e tinha uma lei naquele per\u00edodo que era muito respeitada, nessa regi\u00e3o, que afirmava que se um escravo cometesse um crime qualquer, quem pagaria por aquele crime era o dono do escravo [&#8230;]19<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Segundo alguns entrevistados era uma lei colonial, mas C\u00e2mara Cascudo comenta sobre o epis\u00f3dio do julgamento de Santo Ant\u00f4nio citando que era uma lei do c\u00f3digo criminal do imp\u00e9rio, artigo 28, que segundo ele dizia que \u201co senhor do escravo era respons\u00e1vel pela pena pecuni\u00e1ria devida pelo servo at\u00e9 os limites do seu pr\u00f3prio valor\u201d. <sup>20<\/sup> Mas o c\u00f3digo criminal do imp\u00e9rio, artigo 28,<sup>21<\/sup> diz o seguinte:<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Art. 28. Ser\u00e3o obrigados a satisfa\u00e7\u00e3o, posto que n\u00e3o delinq\u00fcentes: 1\u00ba senhor pelo escravo at\u00e9 o valor deste.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>2\u00ba que gratuitamente tiver participado dos produtos do crime at\u00e9 a concorrente quantia.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong style=\"font-size: 14px\"><em><sup>17<\/sup><\/em><\/strong> <strong style=\"font-size: 14px\"><em>Entrevista realizada com Sr. Marcelo* no dia 23 de julho de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>18<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Entrevista realizada com Sr. Jos\u00e9 * no dia 13 de novembro de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>19<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Entrevista realizada com Marcelo* no dia 19 de outubro de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em raz\u00e3o da interpreta\u00e7\u00e3o desta lei, a imagem de Santo Ant\u00f4nio teria sido obrigada a pagar pelo crime do seu escravo. Aprisionaram a imagem do santo nas terras dos Guedes de Brito amarando-a no lombo de um jegue ou de um burro e levaram para a comarca de \u00c1gua Fria a mando do juiz, pois a localidade de Santo Ant\u00f4nio das Queimadas pertencia \u00e0 comarca de \u00c1gua Fria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>O Santo passou 30 dias preso na cadeia local no quarto da forca, e o m\u00edstico pavor dos moradores fez com que enquanto durasse a pris\u00e3o do Santo, a cadeia se transformasse na igreja da cidade. Centenas de pessoas iam para ali rezar e pedir perd\u00e3o ao Santo. Mas os juizes, famosos pela sua austeridade, submeteram Santo Ant\u00f4nio a um longo julgamento. (&#8230;) sabe apenas que a imagem participou de duas audi\u00eancias, sentou-se no banco dos r\u00e9us, teve defensor e que duas testemunhas da\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>apresenta\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o foram ouvidas. 22<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A justi\u00e7a de \u00c1gua Fria que tinha um poder temido em toda regi\u00e3o, julgou e condenou a imagem do santo \u00e0 perda dos seus bens, os quais herdara, como j\u00e1 foi mencionado, de sua devota, Isabel Maria Guedes de Brito.<\/p>\n<p>Os bens de Santo Ant\u00f4nio foram confiscados e levados hasta p\u00fablica para pagar \u00e0 custa do processo. Segundo Nonato Marques, um coronel chamado Francisco de Paula Ara\u00fajo Brito, fazendeiro da Inhambupe comprou as terras, mas n\u00e3o foi tomar posse.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Naturalmente Santo Ant\u00f4nio n\u00e3o podia ter feito esse crime n\u00e3o \u00e9, mas foi a julgamento justamente para ser esclarecido que Santo Ant\u00f4nio n\u00e3o foi o criminoso, e sim que tinha que encontrar criminosos em outras bandas n\u00e9! [&#8230;] mas tinha que pagar as custas do processo, ent\u00e3o o \u00fanico que tinha bens era Santo Ant\u00f4nio, ent\u00e3o correu pra achar os bens de Santo Ant\u00f4nio que era gado , era escravos, que era as terras, e correu pra achar esses bens , sobretudo das terras , por que as donas do terreno tinha deixado 6 l\u00e9guas em volta de propriedade de Santo Ant\u00f4nio. 23<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>20<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> CASCUDO, Luiz da C\u00e2mara. Dicion\u00e1rio do Folclore Brasileiro. 4\u00aa Ed. S\u00e3o Paulo. Melhoramentos, 1979. p. 62 \u2013 63 Verbete: Ant\u00f4nio<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>21 <\/em><\/strong><strong><em>C\u00f3digo Criminal do Imp\u00e9rio do Brasil. Parte Primeira. Dos Crimes e das Penas. Art. 28. Dispon\u00edvel em:<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>&lt;<\/em><\/strong><strong><em><a href=\"http:\/\/www.ciespi.org.br\/base_legis\/legislacao\/COD11a.html\">www.ciespi.org.br\/base_legis\/legislacao\/COD11a.html<\/a>&gt;<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>22<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Jornal da Bahia, Edi\u00e7\u00e3o Especial, 10-05-1976. Pris\u00e3o de Santo foi maldi\u00e7\u00e3o para Queimadas e \u00c1gua Fria.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>23<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Entrevista realizada com Sr. Marcelo* no dia 23 de julho de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Anos depois da compra destas terras, os herdeiros de Francisco de Paula \u00e9 que foram reivindicar estas terras, por\u00e9m boa parte delas j\u00e1 estavam sendo habitada por muitas pessoas. Estes herdeiros come\u00e7aram a cobrar imposto destas pessoas, os chamados foros das terras.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Esse leil\u00e3o vamos dizer assim ficou deserto , ningu\u00e9m queria arrematar essas terras, at\u00e9 quando apareceu um portugu\u00eas que tinha um pouco de condi\u00e7\u00e3o n\u00e9, em Salvador, ent\u00e3o disseram: olha tem umas terras ai assim, assim, no leil\u00e3o&#8230;vai l\u00e1 no f\u00f3rum, e ai ele foi e adquiriu essas terras, n\u00e9. Mas nunca veio tomar posse, ent\u00e3o as terras ficaram indivisas. Cada qual construiu a sua casinha onde queria e pronto. At\u00e9 esse senhor portugu\u00eas morreu teve dois filhos, n\u00e3o \u00e9, ent\u00e3o um dos dois filhos achou que podia explorar isso, chegar em Queimadas e dizer essas terra \u00e9 minha , eu sou o herdeiro, ent\u00e3o cada qual me paga a sua taxa da terra onde constru\u00edram.24<\/em><\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o temos a data em que estes herdeiros chegaram a Queimadas, apenas a data de 1943 em que alguns moradores se uniram e compraram as terras a estes herdeiros.<\/p>\n<p>Segundo alguns entrevistados, os moradores que compraram estes terras tinham um poder aquisitivo melhor que os outros, se uniram e fizeram uma sociedade para comprarem a metade das terras de Queimadas, dividindo a quantia para cada um, mas h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o na quantidade destes moradores, tendo uma varia\u00e7\u00e3o de 25, 35, quarenta e 42 pessoas. Existe uma certid\u00e3o de compra de terras expedida pela comarca de Bonfim, em 1943, que especifica os 36 moradores que tinham comprado as terras de Queimadas nas m\u00e3os do Senhor Eduardo Pond\u00e9 de Mendon\u00e7a e sua esposa Olinda Brito Pond\u00e9<sup>25<\/sup>.<\/p>\n<p>Outro senhor chamado Jaconias comprou a outra metade das terras de Queimadas. N\u00e3o temos conhecimento das m\u00e3os de quem o senhor Jaconias teria comprado a outra parte, pois n\u00e3o tivemos acesso a nenhuma documenta\u00e7\u00e3o sobre o assunto. Apenas a fala de um dos entrevistados que diz que havia seis herdeiros das terras de Queimadas, e que este senhor teria comprado a parte das terras de cinco herdeiros e os outros que se associaram compraram a parte de apenas um herdeiro.<\/p>\n<p>Estes novos donos das terras de Queimadas passaram a doar e a vender os lotes destas terras. Nas entrevistas, muitos dizem ter conhecido alguns desses compradores, testemunham tamb\u00e9m que as terras onde moram foram compradas por seus pais e familiares nas m\u00e3os de alguns destes s\u00f3cios.<\/p>\n<p>Na entrevista com um filho de um desses s\u00f3cios, ele afirmou que j\u00e1 deu v\u00e1rias escrituras das terras e que at\u00e9 hoje ele tem poder pra fazer isso. Ele pode expedir escritura das terras em qualquer local da cidade de Queimadas, pois os s\u00f3cios n\u00e3o dividiram as terras por lotes. A parte que eles compraram pertencia a todos. E que o pai dele foi um dos poucos que deixara um invent\u00e1rio para os filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>24<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Idem<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>25<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Livro. 3-D. Transcri\u00e7\u00e3o das Transmiss\u00f5es: As fls 94. Ano de 1943. N\u00ba de ordem: 5.611.<\/em><\/strong><\/p>\n<h1 style=\"text-align: center\"><em>3-\u00a0 <\/em><em>A ideia de castigo<\/em><\/h1>\n<p>Depois do processo criminal a imagem de Santo Ant\u00f4nio supostamente desapareceu. Ningu\u00e9m sabe o paradeiro da imagem, como dissemos acima. O mesmo aconteceu com a documenta\u00e7\u00e3o do processo judicial que at\u00e9 hoje n\u00e3o foi encontrada nos arquivos de \u00c1gua Fria, de Queimadas, de Irar\u00e1, pra onde foi transferida a sede da comarca, nem no Arquivo p\u00fablico da Bahia.<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, alguns pol\u00edticos locais tentaram reaver o processo e recuperar a imagem para traz\u00ea\u2013la \u00e0 cidade de Queimadas, mas a tentativa foi in\u00fatil: eles n\u00e3o conseguiram encontrar nem a imagem, nem o processo judicial.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe precisamente a data desse acontecimento. N\u00e3o foi encontrado nenhum documento que indique uma data precisa para esse processo de julgamento civil. Tem algumas especula\u00e7\u00f5es por alguns jornais e um memorialista local sobre datas prov\u00e1veis, final do s\u00e9culo XVIII, in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, mas nada decisivo. \u201cAssim corre e ressurge para os moradores da regi\u00e3o a velha hist\u00f3ria da maldi\u00e7\u00e3o, que data dos fins dos s\u00e9culos XVIII.\u201d<sup>26<\/sup>.<\/p>\n<p>Os entrevistados afirmam que esta hist\u00f3ria era contada por seus bisav\u00f3s, av\u00f3s, pais, tios ou pessoas de mais idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Desde quando eu me entendi por gente que eu lembro que as pessoas mais velhas falavam que Santo Antonio, a imagem de Santo Ant\u00f4nio apareceu l\u00e1 onde \u00e9 a igreja de Santo Ant\u00f4nio hoje, e depois prenderam esta imagem levaram pra \u00c1gua Fria e depois de \u00c1gua Fria sumiu, ningu\u00e9m sabe pra onde. 27<\/strong><\/p>\n<p>Depois do epis\u00f3dio do julgamento foi cultivada uma id\u00e9ia de castigo e maldi\u00e7\u00e3o, tanto para \u00c1gua Fria, quanto para Queimadas. \u201cEu acredito (na id\u00e9ia de castigo), \u00c1gua Fria acabou, n\u00e3o tem nada. Aqui o povo ainda faz alguma coisa, mas a cidade \u00e9 fraca, \u00e9 derrubada.\u201d<sup>28<\/sup>.<\/p>\n<p>\u00c1gua Fria, era um centro comercial muito importante, era sede da comarca de toda a regi\u00e3o. Segundo o jornal da Bahia, foi depois do julgamento da imagem de Santo Ant\u00f4nio, que \u00c1gua Fria perdeu sua autonomia de comarca para Irar\u00e1, que foi um dos seus distritos. A cidade come\u00e7ou a perder sua import\u00e2ncia e sua riqueza, muitos moradores se mudaram para outra cidade, a cidade come\u00e7ou a \u201cmorrer\u201d. At\u00e9 hoje a cidade n\u00e3o conseguiu se desenvolver.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>26<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Jornal da Bahia, 13 de junho de 1972. Preso o Santo, esta cidade deu pra tr\u00e1s.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>27<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Entrevista realizada com Dona Maria* no dia 22 de Outubro de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>28<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Entrevista realizada com a Sr\u00aa Joana* no dia 15 de novembro de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>A partir da pris\u00e3o do Santo Ant\u00f4nio e do seu julgamento, a mis\u00e9ria se abateu, principalmente sobre \u00c1gua Fria, onde ele ficou enclausurado no quarto da for\u00e7a, da cadeia local. Se verdade ou n\u00e3o, o certo \u00e9 que \u00c1gua Fria que exercia dom\u00ednio econ\u00f4mico de Juazeiro ao porto de Cachoeira, hoje n\u00e3o passa de ru\u00ednas. Perdeu inclusive, dias ap\u00f3s o julgamento de Santo Ant\u00f4nio sua autonomia para Irar\u00e1. 29<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>A partir da\u00ed a cidade de \u00c1gua Fria come\u00e7ou a morrer. Hoje, do importante centro comercial que foi outrora, n\u00e3o passa de ru\u00ednas, silencio. Com menos de mil habitantes, ruas vazias, a grande pra\u00e7a verde, a grandiosa igreja de outrora, as ru\u00ednas da cadeia antiga vai desaparecendo aos poucos. 30<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Em Queimadas esta id\u00e9ia de maldi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi cultiva, por muitos supersticiosos, ligando tudo o que acontecia de ruim \u00e0 cidade a pris\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Entre 1910 e 1911, Queimadas sofreu a duas enchentes do rio Itapicuru-A\u00e7u a primeira em 26 de dezembro de 1910 e a segunda no final de fevereiro de 1911. Estas enchentes consecutivas destru\u00edram a cidade, das 450 casas existentes s\u00f3 restaram cinquenta. A popula\u00e7\u00e3o de 2.500 habitantes foi reduzida a mil. Isto s\u00f3 fortaleceu a id\u00e9ia de castigo sobre Queimadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Em menos de vinte e quatro horas a impetuosidade do Itapicuru-A\u00e7u arrastou rio a baixo quase que totalidade das casas, restando em p\u00e9 28 resid\u00eancia erguidas em 1845 e mais 22 outras, nas colinas a margem esquerda da ferrovia. De 2.500 foi reduzida para mil a popula\u00e7\u00e3o da cidade e isto provocou em 6 de mar\u00e7o de 1911, a transfer\u00eancia da sede do Termo para o arraial de Iti\u00faba . Era a maldi\u00e7\u00e3o que se <\/em><\/strong><strong><em>repetia.31<\/em><\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 hoje encontramos escombros das casas que foram destru\u00eddas nesta \u00e9poca, boa parte da igreja Matriz, que estava sendo constru\u00edda toda de pedra, foi derrubada ficando apenas a fachada, at\u00e9 hoje existente nas intermedia\u00e7\u00f5es dos Lions Clube.<\/p>\n<p>Depois deste epis\u00f3dio, Queimadas foi reconstru\u00edda distante das margens do rio Itapicuru, onde est\u00e1 localizada a prefeitura e a cadeia p\u00fablica. As casas foram constru\u00eddas nesta \u00e1rea, mas com o aumento da popula\u00e7\u00e3o muitas pessoas constru\u00edram suas casas no mesmo local onde as enchentes destru\u00edram as antigas casas de Queimadas. Essas sofreram v\u00e1rias outras enchentes e permanecem erguidas gra\u00e7as ao material utilizado atualmente que s\u00e3o mais fortes, como tijolo, cimento, cal&#8230;, do que o adobe, a taipa, o barro que era usado pra construir as casas antigamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong style=\"font-size: 14px\"><em><sup>29<\/sup><\/em><\/strong> <strong style=\"font-size: 14px\"><em>Jornal da Bahia, Edi\u00e7\u00e3o Especial, 10-05-1976. Pris\u00e3o de Santo foi maldi\u00e7\u00e3o para Queimadas e \u00c1gua Fria<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>30<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Idem<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>31<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>Idem<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Queimadas sofreu com mais dois acontecimentos catastr\u00f3ficos que para muitos m\u00edsticos s\u00f3 \u00e9 mais uma prova de que Queimadas \u00e9 um lugar amaldi\u00e7oado: a guerra de Canudos (1896) e um assalto cometido por Lampi\u00e3o (1929) os quais tiraram \u00e0 paz da cidade.<\/p>\n<p>Durante a Guerra de Canudos, Queimadas serviu de ponto de chegada e de partida das tropas dos soldados, jornalistas, m\u00e9dicos e pol\u00edticos, que vieram combater em Canudos. Assustando os moradores a ponto de largarem suas casas e se esconderem dentro do mato.<\/p>\n<p>Da mesma forma, o assalto que Lampi\u00e3o realizou em Queimadas em 22 de dezembro de 1929 foi tamb\u00e9m um momento muito dif\u00edcil para seus moradores, pois al\u00e9m de saquear toda a cidade ele assassinou sete soldados que prestavam servi\u00e7os na seguran\u00e7a da cidade. Este epis\u00f3dio foi interpretado como mais uma forma de castigar a cidade de Queimadas por causa da condena\u00e7\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio.<\/p>\n<p>Em algumas entrevistas ainda vemos que esta id\u00e9ia de maldi\u00e7\u00e3o ainda permanece no imagin\u00e1rio das pessoas, fixando a id\u00e9ia que os moradores de Queimadas pagam pelos erros cometidos no passado por seus antepassados, pois a cidade n\u00e3o progride, at\u00e9 consegue algumas vit\u00f3rias, mas logo depois as perde. Como afirma Wunenburger \u201co imagin\u00e1rio serve para dotar os homens de mem\u00f3ria fornecendo-lhes relatos que sintetizam e reconstroem o passado e justificam o presente.<sup>32<\/sup>\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>Santo Ant\u00f4nio foi um Santo muito sofrido eu lembro que a minha av\u00f3 falava que na \u00e9poca tinha um padre que saiu de Queimadas e bateu a terra das sand\u00e1lias dizendo: que Queimadas era de ser queimadas pro resto da vida. E dessa vez, acho que n\u00f3s hoje n\u00e3o temos nada com isso, estamos pagando alguma coisa, n\u00e9?33<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong>\u00a0<\/strong><strong>Depois disto vieram \u00e0queles capuchinhos e disse que Queimadas tinha que ser queimadinha, que ia ter um dil\u00favio que ia acabar com a cidade, justamente no ano de 11, passou a enchente carregou a metade da igreja da Matriz e a\u00ed vem acontecendo isso, Queimadas ta cada vez mais afundando e parece que tem que ser\u00a0<\/strong><strong>Queimadinha mesmo! Tudo indica que parece, cada vez vai piorando.34<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>32<\/sup><\/em><\/strong> <strong><em>WUNENBURGER. O imagin\u00e1rio. S\u00e3o Paulo. Loyola, 2007. p.63<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>33<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Entrevista realizada com Dona Maria* no dia 22 de Outubro de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>34<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Entrevista realizada com Sr. Jo\u00e3o* no dia 10 de Julho de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Queimadas \u00e9 chamada por muitos dos seus moradores da cidade do \u201cque j\u00e1 teve\u201d, pois durante os seus 125 anos de exist\u00eancia j\u00e1 foi bastante pr\u00f3spera, com o maior n\u00facleo populacional da regi\u00e3o. E hoje \u00e9 uma cidade sem muitos progressos.<\/p>\n<p>Cidade do que j\u00e1 teve, consolidou como um ditado popular por causa das coisas que j\u00e1 existiram em Queimadas e que com o tempo n\u00e3o progrediram, ao contr\u00e1rio se dissiparam. Queimadas vivia praticamente da produ\u00e7\u00e3o de sisal, hoje quase que n\u00e3o encontramos cultivo de sisal na cidade, as batedeiras \u2013 locais onde se processava o sisal para depois ser exportado para outras cidades \u2013 quase que n\u00e3o funcionam mais. \u201cOs homens inventam, desenvolvem e legitimam suas cren\u00e7as em imagin\u00e1rios na medida em que essa rela\u00e7\u00e3o como imagin\u00e1rio obedece as necessidades, satisfa\u00e7\u00f5es, efeitos a curto e a longo prazo que s\u00e3o insepar\u00e1veis da natureza humana.\u201d<sup>35<\/sup><\/p>\n<p>Houve v\u00e1rias ag\u00eancias banc\u00e1rias \u2013 Baneb, Brasil, Nordeste &#8211; hoje apenas existe Banco do Brasil e uma cooperativa de cr\u00e9dito de produtores e cooperados &#8211; ASCOOB. Teve duas filarm\u00f4nicas; Queimadas foi sede da COELBA \u2013 empresa respons\u00e1vel de distribui\u00e7\u00e3o de energia da Bahia; as tradi\u00e7\u00f5es populares est\u00e3o minguando a cada ano que se passa existiam v\u00e1rias festas populares como cantos de reis, carnaval, S\u00e3o Jo\u00e3o, desfile cultural no dia da lavagem da igreja de Santo Ant\u00f4nio, hoje transformada em micareta, dentre outras. \u201cQueimadas j\u00e1 teve, j\u00e1 teve v\u00e1rias coisas que acaba! V\u00e1rias coisas e caiu, teve duas coletorias, teve federal e teve estadual, perdeu. At\u00e9 a Coelba que era daqui perdeu tamb\u00e9m, foi pra outra cidade, at\u00e9 a embasa \u00e9 dominada de Santa luz.\u201d<sup>36<\/sup><\/p>\n<p>Queimadas j\u00e1 teve algumas f\u00e1bricas que possibilitaram a muitos jovens e pais de fam\u00edlia a terem um emprego na pr\u00f3pria cidade, mas infelizmente n\u00e3o durou muito tempo fechando e for\u00e7ando a ida de muitas pessoas tentarem melhorias de vida em outras cidades maiores com mais chances de empregos.<\/p>\n<p>Outro fato que entristece a popula\u00e7\u00e3o inteira \u00e9 o abandono do rio Itapicuru, rio que banha a cidade, que sustenta muitas fam\u00edlias e que poderia sustentar muito mais, est\u00e1 morrendo a cada dia. Recebendo os esgotos da cidade inteira, sem tratamento, entulhado por areia em pontos centrais, as encostas est\u00e3o sendo devastadas, as pessoas jogam lixo na beira do rio.<\/p>\n<p>A cidade hoje \u00e9 sustentada basicamente pelos empregos que a prefeitura disponibiliza alguns empregos estaduais, pelos aposentados que \u00e0s vezes sustenta fam\u00edlias inteiras, pelo pequeno com\u00e9rcio local, por pequenos agricultores e pecuaristas. Nada muito significativo, grande prova disso \u00e9 que a maioria dos jovens sai em busca de condi\u00e7\u00f5es financeira para uma melhoria de sua vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong style=\"font-size: 14px\"><em><sup>35<\/sup><\/em><\/strong> <strong style=\"font-size: 14px\"><em>WUNENBURGER. Op.cit. p.54<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>36<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Entrevista realizada com Sr. Jo\u00e3o* no dia 10 de Julho de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Este ditado da cidade do que j\u00e1 teve \u00e9 conhecido tamb\u00e9m em v\u00e1rias outras cidades, pessoas que j\u00e1 moraram ou que tem parentes em Queimadas ou turistas atribuem este ditado a cidade diante dos acontecimentos.<\/p>\n<p>Muitos dos entrevistados concordam com o ditado e afirmam que \u00e9 resultado da pris\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio, como uma forma de castigo para pagar tal atitude que envergonha a cidade.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m temos muitas pessoas que concordam com o ditado da \u201ccidade do que j\u00e1 teve\u201d, por\u00e9m n\u00e3o concordam com a id\u00e9ia de castigo. E sim que as coisas que deixaram de existir em Queimadas \u00e9 reflexo das atitudes do corpo administrativo que desde o in\u00edcio comandam a cidade, os quais s\u00f3 pensam em crescer suas contas banc\u00e1rias e n\u00e3o pensam no bem do povo e da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Bem esse ditado \u00e9 interessante n\u00e9, por que as vezes as pessoas fazem essa goza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cidade , n\u00e9, mas se a gente observar bem toda cidade, \u00e9 cidade do j\u00e1 teve, n\u00e9, por que as coisas se evoluem, ent\u00e3o hoje tem precis\u00e3o de ter uma coisa, uma organiza\u00e7\u00e3o, e bom tem, amanha as coisas mudam, tamb\u00e9m essas coisas vai passando vai se multiplicando ,essa goza\u00e7\u00e3o que o povo tem \u00e9 por que as vezes umas coisas que parecem que florescem, n\u00e3o \u00e9 , de uma hora pra outra esmorecem, mas isso \u00e9 na minha opini\u00e3o \u00e9 coisa comum, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 em Queimadas que acontece\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>isso!37<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><strong><em>A id\u00e9ia do j\u00e1 teve existe. O que a senhora pensar Queimadas j\u00e1 teve. Queimadas j\u00e1 teve tr\u00eas bandas de m\u00fasicas, Queimadas j\u00e1 teve tr\u00eas clubes, hoje n\u00e3o tem nenhum funcionando, n\u00e9, agora, \u00e9 uma infinidade de coisas que Queimadas j\u00e1 teve que n\u00e3o tem mais. (&#8230;) Mas n\u00e3o tem influ\u00eancia disso (a pris\u00e3o de Santo Ant\u00f4nio). \u00c9 que nossos pol\u00edticos n\u00e3o se interessam em adquirir as coisas&#8230;38<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Queimadas \u00e9 uma cidade centen\u00e1ria que tem um desenvolvimento tardio, seus moradores terminam se acomodando com a situa\u00e7\u00e3o uns atribuindo isto ao julgamento do santo como forma de pagar por este pecado e outros culpando a a\u00e7\u00e3o dos administradores em geral, mas sem se colocarem como agente ativo deste desenvolvimento e tamb\u00e9m respons\u00e1vel pelo retrocesso da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong style=\"font-size: 14px\"><em><sup>37<\/sup><\/em><\/strong> <strong style=\"font-size: 14px\"><em>Entrevista realizada com Sr. Marcelo* no dia 23 de julho de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em><sup>38<\/sup><\/em><\/strong><strong><em> Entrevista realizada com Sr. Zeca* no dia 18 de agosto de 2009<\/em><\/strong><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center\"><strong><em>Conclus\u00e3o<\/em><\/strong><\/h2>\n<p>A hist\u00f3ria da funda\u00e7\u00e3o da cidade de Queimadas est\u00e1 atrelada ao suposto aparecimento da imagem de Santo Ant\u00f4nio. Depois da constru\u00e7\u00e3o da capela os romeiros vinham vener\u00e1-la e muitos desses ficaram definitivamente morando em Queimadas. E com a facilidade dada pela dona das fazendas, Maria Isabel Guedes de Brito, para quem quisesse residir, a localidade come\u00e7ou a crescer e se desenvolver.<\/p>\n<p>As trezenas que acontece todo ano, 1 a 13 de junho, atraem v\u00e1rias pessoas de cidades vizinhas e dos povoados em torno de Queimadas, para acompanhar as prociss\u00f5es, as ora\u00e7\u00f5es e os leil\u00f5es.<\/p>\n<p>O julgamento da imagem de Santo Ant\u00f4nio \u00e9 um epis\u00f3dio misterioso, n\u00e3o temos explica\u00e7\u00f5es para tal atitude na lei humana. Levando em conta que a venera\u00e7\u00e3o e o respeito que era prestada a todos os santos, principalmente a Santo Ant\u00f4nio que era um santo muito requisitado pelos fi\u00e9is para resolver todo o tipo de problemas, passando por arrumar um marido, achar coisas perdidas at\u00e9 curar doen\u00e7as. At\u00e9 t\u00edtulos militares ele ganhou por causa da sua prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o tendo fontes documentais que comprove que a imagem de Santo Ant\u00f4nio das Queimadas passou por um julgamento criminal, esta hist\u00f3ria foi passada por gera\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s da oralidade, ficando viva at\u00e9 hoje no imagin\u00e1rio dos queimadenses, sendo um forte fato que faz parte do hist\u00f3rico da cidade.<\/p>\n<p>Diante de todas as observa\u00e7\u00f5es leva-nos a pensar que houve uma necessidade da popula\u00e7\u00e3o de apropriar-se da representa\u00e7\u00e3o da condena\u00e7\u00e3o de um santo para justificar a decad\u00eancia da cidade.<\/p>\n<p>Apesar da id\u00e9ia de castigo ainda permanecer no imagin\u00e1rio de alguns moradores queimadenses, muitos j\u00e1 se libertaram desta id\u00e9ia responsabilizando o homem como o \u00fanico culpado pela regress\u00e3o acontecida a cidade. E que o homem \u00e9 tamb\u00e9m respons\u00e1vel pelo progresso e que deve lutar por isso, sem ficar se escondendo atr\u00e1s de uma lenda, usando-a para querer justificar tudo de ruim que acontece.<\/p>\n<h1 style=\"text-align: center\"><em>Refer\u00eancias:<\/em><\/h1>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>ANTONIO\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Guedes\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 de\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Brito.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dispon\u00edvel\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 em<\/p>\n<p>&lt;<a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Antonio_Guedes_de_Brito\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Antonio_Guedes_de_Brito<\/a>&gt;<\/p>\n<p>ARA\u00daJO, Regina Mendes de. Propriet\u00e1rias de escravos e terras da Vila do Carmo, Vila Rica e\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Vila\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 de\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jo\u00e3o Del\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Rei\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 1718-1761.\u00a0\u00a0 Dispon\u00edvel\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 em:<\/p>\n<p>&lt;<a href=\"http:\/\/www.abep.nepo.unicamp.br\/encontro2006\/docspdf\/ABEP2006_176.pdf\">http:\/\/www.abep.nepo.unicamp.br\/encontro2006\/docspdf\/ABEP2006_176.pdf<\/a> &gt;<\/p>\n<p>AS TERRAS de Guedes de Brito <em>Revista Trimestral do Instituto Geogr\u00e1fico e Hist\u00f3rico da Bahia<\/em>, 1916. Ano XXIII, Vol. XI n.42., p. 69-74<\/p>\n<p>ARANTES, Ant\u00f4nio Augusto. O que \u00e9 cultura popular. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2007.<\/p>\n<p>BRAND\u00c3O, Carlos Rodrigues. <em>Os Deuses do Povo<\/em>: um estudo sobre a religi\u00e3o popular. Brasiliense, 1986<\/p>\n<p>BURKE, Peter<em>. A Escrita da Hist\u00f3ria<\/em>: novas perspectivas. S\u00e3o Paulo: UNESP, 1992<\/p>\n<p>CARTA\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 de\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sesmaria.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dispon\u00edvel\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 em:<\/p>\n<p>&lt;<a href=\"http:\/\/www.filologia.org.br\/scripta_philologica\/01\/Carta_de_Sesmaria\">http:\/\/www.filologia.org.br\/scripta_philologica\/01\/Carta_de_Sesmaria<\/a>\u00a0 &gt;<\/p>\n<p>CASCUDO, Luiz da C\u00e2mara. <em>Dicion\u00e1rio do Folclore Brasileiro<\/em>. 4\u00aa Ed. rev.e aum. S\u00e3o Paulo. Melhoramentos,[Bras\u00edlia]: INL, 1979. p. 62-63<\/p>\n<p>CODIGO CRIMINAL Do Imp\u00e9rio Do Brazil. Parte Primeira. Dos Crimes e das Penas. Art.<\/p>\n<ol start=\"28\">\n<li>Dispon\u00edvel em<strong>: <\/strong>&lt;<a href=\"http:\/\/www.Ciespi.Org.Br\/Base_Legis\/Legisla\u00e7\u00e3o.\/COD11a.Html\">http:\/\/www.Ciespi.Org.Br\/Base_Legis\/Legisla\u00e7\u00e3o.\/COD11a.Html<\/a>&gt; Acesso em: 13out 2009<\/li>\n<\/ol>\n<p>DOUTORES da Igreja. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Doutores_da_Igreja\">http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Doutores_da_Igreja<\/a>&gt;<\/p>\n<p>DURAND, Gilbert. <em>O imagin\u00e1rio<\/em>: ensaio acerca das ci\u00eancias e da filosofia da imagem. 3\u00aa ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2004.<\/p>\n<p>DURKHEIM, \u00c9mile. <em>As formas elementares de vida religiosa<\/em>: o sistema tot\u00eamico na Austr\u00e1lia<em>. <\/em>S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1989<\/p>\n<p>GINZBURG, Carlo<em>. O queijo e os vermes: <\/em>o cotidiano e as id\u00e9ias de um moleiro perseguido pela Inquisi\u00e7\u00e3o<em>. <\/em>S\u00e3o Paulo: Companhia das letras, 1987<\/p>\n<p>HALBWACHS, Maurice. <em>A mem\u00f3ria coletiva<\/em>. S\u00e3o Paulo: Centauro, 2006.<\/p>\n<p>LAPLANTINE, Fran\u00e7ois; TRINDADE, Liana S\u00e1lvia. <em>O que \u00e9 imagin\u00e1rio<\/em>. S\u00e3o Paulo; Brasiliense, 2003.<\/p>\n<p>MARQUES, Nonato. <em>Santo Ant\u00f4nio das Queimadas<\/em>. S. l.: s. n. 1984<\/p>\n<p>MEIHY, Jos\u00e9 Carlos Sebe Bom. <em>Manual de hist\u00f3ria ora<\/em>l. 5\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2005<\/p>\n<p>MOTT, Luiz. Cotidiano e viv\u00eancia religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA. Laura de Melo; NOVAIS. Fernando (orgs). <em>Hist\u00f3ria da Vida Privada no Brasil: cotidiano e vida privada na Am\u00e9rica portuguesa. <\/em>S\u00e3o Paulo: Companhia da Letras, 1997.<\/p>\n<p>PALLARES- BURKE, Maria L\u00facia Garcia. Introdu\u00e7\u00e3o. In: <em>As muitas faces da hist\u00f3ria. Nove entrevistas<\/em>. S\u00e3o Paulo: UNESP, 2000.<\/p>\n<p>PRESO O SANTO, ESTA CIDADE DEU PRA TR\u00c1S. <em>Jornal da Bahia. <\/em>Salvador, 13 de jun 1972, p.3<\/p>\n<p>PRIS\u00c3O DE SANTO FOI MALDI\u00c7\u00c3O PARA QUEIMADAS E \u00c1GUA FRIA. <em>Jornal da<\/em><\/p>\n<p><em>Bahia <\/em>Edi\u00e7\u00e3o Especial, 13 de jun 1976, p.?<\/p>\n<p>QUEIMADAS. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/wikimapia.org\/653868\/pt\/Queimadas-Bahia-Brasil\">http:\/\/wikimapia.org\/653868\/pt\/Queimadas-Bahia-Brasil<\/a><em>&gt; <\/em>RIO S\u00e3o Francisco. Dispon\u00edvel em: &lt; <a href=\"http:\/\/www.wikipedia.org\/wiki\/Rio_S\u00e3o_Francisco\">www.wikipedia.org\/wiki\/Rio_S\u00e3o_Francisco<\/a><em>&gt; <\/em>SANTO ANT\u00d4NIO \u2013 CORONEL. A Tarde, 13 de jun. 1970, p.?<\/p>\n<p>SILVA, Louren\u00e7o Pereira. <em>Mem\u00f3ria Hist\u00f3rica e Geogr\u00e1fica de Bonfim<\/em>. [s.l]: [s.ed], 19&#8230;<\/p>\n<p>VARIEDADE Hist\u00f3rica: A patente de Santo Ant\u00f4nio. <em>Revista Trimestral do Instituto Geogr\u00e1fico e Hist\u00f3rico da Bahia<\/em>. Ano VI, Vol. VI, n. 21. Setembro de 1899. Variedade Hist\u00f3rica: A patente de Santo Ant\u00f4nio. P. 469-472.<\/p>\n<p>VASCONCELOS, Suani de Almeida. <em>Carta de Sesmaria- Seculo XIX: Edi\u00e7\u00e3o Semidiplom\u00e1tica e Estudo Hist\u00f3rico. <\/em>Disponivel em : &lt;http:\/\/ <a href=\"http:\/\/www.filologia.org.br\/scripta\">www.filologia.org.br\/scripta<\/a> <u>philologica\/01\/\/Carta_de_Sesmaria_\u2013_S\u00e9culo_XIX_<\/u> Acesso em: 22 julh. 2009<\/p>\n<p>WUNENBURGER, Jean-Jacques. <em>O imagin\u00e1rio<\/em>. S\u00e3o Paulo. Loyola, 2007.<\/p>\n<p><strong><em>Fonte: Ariene Pinto G\u00f3es Matos<\/em><\/strong> &#8211; UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA \u2013 UNEB DEPARTAMENTO DE EDUCA\u00c7\u00c3O \u2013 CAMPUS XIV &#8211;\u00a0LICENCIATURA EM HIST\u00d3RIA &#8211; Concei\u00e7\u00e3o do Coit\u00e9 Fevereiro de 2010<\/p>\n<p>https:\/\/saberaberto.uneb.br\/server\/api\/core\/bitstreams\/eba46abf-dbcd-4566-b648-8fc27eade774\/content<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><em><strong>Colabora\u00e7\u00e3o: Mainar L\u00edrio Coelho &#8211; Queimadas Ba<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><strong><em>Blog do Florisvaldo \u2013 Informa\u00e7\u00e3o Com Imparcialidade <\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Igreja 1: Autoria: Rosa Ramos, 1980. Acervo de D. Minita. Queimadas Ba &#8211;\u00a0\u00a0Igreja 2: Igreja de Santo Ant\u00f4nio. Queimadas-Ba. Foto: Ariene G\u00f3es &#8211; Queimadas-Ba NOTA DO EDITOR: Com a devida autoriza\u00e7\u00e3o da autora, Ariene Pinto G\u00f3es Matos, compartilho na \u00edntegra seu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso, apresentado ao curso de Licenciatura em Hist\u00f3ria como requisito<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":20505,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,1,4],"tags":[],"class_list":{"0":"post-20500","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil","8":"category-destaques","9":"category-opiniao"},"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>SANTO ANTONIO DAS QUEIMADAS - \u201cQUE A JUSTI\u00c7A DE \u00c1GUA FRIA TE CONDENE\u201d - O JULGAMENTO DE UM SANTO NO SERT\u00c3O BAIANO - Blog do Florisvaldo<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/portaldenoticias.net\/ffsantos\/20500-2\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"SANTO ANTONIO DAS QUEIMADAS - \u201cQUE A JUSTI\u00c7A DE \u00c1GUA FRIA TE CONDENE\u201d - O JULGAMENTO DE UM SANTO NO SERT\u00c3O BAIANO - Blog do Florisvaldo\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Igreja 1: Autoria: Rosa Ramos, 1980. 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