DO JUMENTO AO JATINHO – COMO O TEMPO REINVENTOU O LUXO EM UAUÁ
DO JUMENTO AO JATINHO – COMO O TEMPO REINVENTOU O LUXO EM UAUÁ
Nos anos 1950, enquanto o Brasil se urbanizava sob o governo Vargas, o semiárido baiano escrevia sua própria epopeia. Em Uauá, município então com pouco mais de 10 mil habitantes, governado por nosso saudoso Jerônimo Rodrigues Ribeiro (PSD, 1948-1959), a produção girava em torno de duas riquezas principais. A mandioca, planta adaptada ao regime de chuvas da nossa região e o bode, animal que demudava a caatinga em sustento. Nessa economia de subsistência, onde sequer 3% das propriedades rurais tinham veículos motorizados, (IBGE, 1950), o transporte era uma ode de suor.
Homens como Rosalvo Dantas de Souza, meu querido pai, tornavam-se heróis anônimos dessa saga. Órfão de mãe aos 4 e de pai aos 12 anos, iniciou aos 13 anos, como ajudante da perigosa jornada de tanger boiadas a pé por 120 km até o “Cumbe” hoje, Euclides da Cunha, sob sol inclemente, estradas de barro e veredas que engoliam os seus “rolós”. “Caminhávamos três dias com 60 cabeças de bode, dormindo ao relento dos umbuzeiros, com farofa de rapadura e fubá de milho pisado como único sustento”, me contou ele. Enquanto isso, na região de Caldeirão da Serra, zona das terras mais férteis, as tropas de burros carregavam toneladas de mandioca para as raras casas de farinha – em 1955, Uauá produzia 12 mil toneladas do produto, mas sequer tinha energia elétrica. As casas de farinha eram manuais, e as filas para processar a mandioca enormes, já que a prioridade era do proprietário, dos amigos e só depois dos conhecidos.
Para o transporte humano, reinavam os lendários “paus-de-arara”, caminhões Ford 1940 adaptados que, uma vez por semana, empilhavam até 40 pessoas entre sacas de farinha. A viagem semanal para Juazeiro levava 5 horas de sol a pino. Já a migração para São Paulo era uma odisseia mensal sob lonas esburacadas, onde viajantes dormiam sobre suas próprias malas. Paradoxalmente, esses mesmos caminhões que simbolizavam pobreza nos anos 1950 hoje são peças cobiçadas em museus, a mesma dialética que transformou cavalos, outrora ferramenta de trabalho, em símbolo de status para milionários, alguns sendo vendidos por até 80 milhões.
Setenta e cinco anos depois, Uauá agora com 36 mil habitantes, exibe sua transformação, ruas antes marcadas por cascos de jumentos hoje zumbem com 8.500 motocicletas, uma para cada três habitantes. Até um jatinho particular integra nossos meios de transporte. A mandioca cedeu espaço à caprinocultura com 350 mil cabeças produzidas ao ano, enquanto o umbu, antes alimento dos animais seca, virou commodity exportada em caminhões refrigerados. Os paus-de-arara, deram lugar aos micro-ônibus que vão de hora em hora a juazeiro ou aos ônibus climatizados da Rota Transportes que, em 2 horas, ligam Uauá ao Vale do São Francisco. Para chegar à São Paulo, basta acordar às 5 horas, tomar uma van até Juazeiro, um Uber até Petrolina e um voo de 2 horas colocam o “new” imigrante na “terra da garoa” antes do almoço, ironia cruel para quem um dia viajava 15 dias na carroceria empoeirada de uma “gaiola de papagaios”
Nesse vai-e-vem histórico, os símbolos trocaram de lugar, ter um cavalo hoje, menos de 50 registros no município, é privilégio de ricos, enquanto motos Honda dominam as porteiras do Semi Árido. As mesmas estradas que nos anos 1950 levavam embora nosso povo para a “Cidade de Concreto” agora traz turistas em busca do “autêntico sertão” do São João animado, do doce azedinho do umbu, das corridas de bicicleta e inclusive para cavalgadas ecológicas a 500,00 reais o dia.
Esta é a lição que Uauá ensina, o valor não reside nos objetos, mas no olhar das eras. O que hoje parece indispensável como os carros que substituíram cavalos, talvez amanhã seja nostalgia. O luxo, afinal, é apenas a escassez vestida de desejo e o tempo, o maior alfaiate de todas as vaidades humanas.
Uauá Bahia, 09 de fevereiro de 2025.
FONTE: Robson Rodrigues de Souza
José Deusimar Loiola Gonçalves Técnico em Agropecuária (Funcionário Publico Aposentado- Extensionista do Governo do Estado de nossa linda e extensa Bahia); Graduado em Administração de Médias e Pequenas Empresas; Licenciado em Biologia; Pós Graduado Em Gestão Educação Ambiental, e Tecnólogo em Apicultura e Meliponicultura. Zap: (75) 99998-0025 (Vivo) . Blog: https://www.portaldenoticias. net/deusimar