No cenário político nacional uma tradição está consagrada ao longo do tempo, com rigor quase matemático: o ritual das urnas! Após o processo regular de recepção do voto secreto de cada eleitor, inicia-se uma nova etapa do pleito eleitoral com a apuração dos votos, em seguida os resultados são proclamados e os mandatos devidamente legitimados.
O que surpreende a todos, é que outra etapa se inicia com duração de três anos e meio, quando se instala um silêncio incômodo que contrasta com o barulho das promessas feitas durante a campanha. É a fase dos eleitores esquecidos! Mas, mesmo esquecidos, quando os acordes tocam anunciando mais uma campanha eleitoral, lá vem eles defendendo ferrenhamente seus candidatos.
No meio do eleitorado um comentário bastante recorrente afirma “que os políticos agora só retornarão para um novo contato ou mesmo para visitá-los em casa, quando se aproximarem as próximas eleições”. Sim, decorrido esse prazo, volta a marcar presença o aperto de mão, o forte abraço e o sorriso aberto e entusiasmado. Vale lembrar, que a dona de casa logo será cobrada por aquele gostoso cafezinho “que só a comadre sabe fazer”! Quanta falsidade! Eis a verdade…
Esse afastamento não é apenas simbólico; ele se materializa em caráter permanente e se incorpora conceitualmente nas relações entre candidato e eleitor. As demandas urgentes – saúde, segurança, educação, emprego e custo de vida – cedem espaço às articulações de bastidores, disputas por cargos e rearranjos partidários. Todos nesse mesmo balaio, e não sobra ninguém que possamos dizer: esse é sério. Geralmente se diz que são farinha do mesmo saco, ainda que não seja.
O eleitor detentor de muitas necessidades é lembrado apenas como número estatístico. Convocado a cada ciclo eleitoral, mas rapidamente esquecido quando se trata da execução de políticas públicas eficazes. A política, assim, deixa de ser percebida como instrumento de transformação coletiva e passa a ser vista como território de privilégios e autopreservação dos interesses.
Ao ignorar esse descompasso, os representantes que foram eleitos pelo voto não apenas desconsideram os seus eleitores, mas estimulam a descrença no sistema democrático. Prova disso, é a crescente abstenção, votos nulos e brancos!
Na proporção em que os sistemas partidários vão se fragmentando, e as coligações políticas e os mandatos vão se diluindo provocados pelos interesses múltiplos, logo se percebe um processo de enfraquecimento da noção de responsabilidade direta. E quando ninguém se sente plenamente responsável, o eleitor também não sabe a quem cobrar. O resultado é uma democracia formalmente ativa, mas visivelmente esvaziada.
O sistema político atualmente vigente no Brasil precisa ser repensado. O estado de abandono do eleitor e seus problemas entre uma eleição e outra, é um procedimento desrespeitoso. A comunicação moderna através das redes sociais, atualmente muito praticada pelos políticos, não reduz o distanciamento entre eleitos e eleitores. Inclusive esses senhores e senhoras, também, somem totalmente do contato meramente digital onde ninguém ver ninguém.
É impositivo que haja coerência entre o discurso e a prática, transparência nas relações e disposição real para ouvir. O que não é aceitável é governar fingindo escutar o clamor das pessoas, enquanto se ignora a base que sustenta o mandato.
Enquanto os votos contados garantem legitimidade jurídica do mandato, as vozes ouvidas constroem a legitimidade política. A democracia não se esgota no ato de votar; ela se reafirma diariamente na capacidade dos representantes de compreender, respeitar e responder às expectativas da sociedade. Resta saber se eles sabem disso!
Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – Aposentado do Banco do Brasil-Salvador-BA.
Contribuição do: Blog do Florisvaldo – Informação Com Imparcialidade




