*DOS SECULARES UMBUZEIROS AO CENTENÁRIO DE UAUÁ*
O *umbuzeiro* (Spondias tuberosa) é uma árvore emblemática da Caatinga, com altura entre 3 e 6 metros e copa que pode atingir 20 metros de diâmetro. Seu sistema radicular superficial (cerca de 30 cm de profundidade) se estende por até 60 metros do tronco, formando uma rede de raízes com *xilopódios* — estruturas que armazenam água e nutrientes. Alguns exemplares acumulam mais de mil litros de água, permitindo que frutifiquem mesmo durante secas prolongadas.
Este artigo, baseado em *20 anos de observações, vivências e pesquisas* sobre os umbuzeiros no território de Uauá, alia saberes tradicionais a evidências científicas para propor, de forma clara e acessível , estratégias de conservação. Às vésperas do centenário de emancipação política do município, propomos reflexões sobre a relação entre produção rural e preservação ecológica, dividindo a análise em três partes. Nessa *Primeira Parte*, abordaremos aspectos geográficos e ambientais. Na *Segunda Parte* sobre as lições e experiências realizadas. E na *Terceira Parte* tratarei sobre a economia e rumos a serem tomados.


*Parte I: O Umbuzeiro em Números e suas principais Ameaças*
– Estima-se *1,2 milhão de umbuzeiros* em Uauá, média de *4 árvores por hectare*. Abaixo do ideal no bioma.
– *86% dos indivíduos têm mais de 100 anos*, indicando colapso na renovação.
– Distribuição geográfica:
– Maior densidade na região *leste* (6,5 ind/ha).
– Menor densidade no *sul e sudeste* (1,2 ind/ha), áreas afetadas por desmatamento e alta densidade demográfica.
*Ameaças à conservação*
– *68% dos umbuzeiros* estão em *Fundos de Pasto* — sistema ancestral de uso coletivo da terra para agropecuária. Entretanto, a falta de manejo do pastoreio (com estimados *600 mil ruminantes* no município) três vezes o recomendado por pesquisadores, ameaça a regeneração natural da espécie, encaminhando o umbuzeiro para a extinção em menos de 50 anos.
– *Caprinovinocultura desregulada*: Principal risco aos umbuzeiros, pois cabras e ovelhas consomem brotos nascidos naturalmente e mudas plantadas, impedindo o crescimento de novas árvores.
– *Áreas particulares*: 18-20% dos umbuzeiros estão em propriedades cercadas, mas também sem práticas de conservação ou manejo adequado dos rebanhos.
*Refúgios de regeneração*
– *Cercados de palma*: Pequenos quintais (1 a 5 tarefas) onde produtores cultivam palma forrageira e, involuntariamente, permitem o crescimento de umbuzeiros. Durante a pré-estação chuvosa, sementes de umbu — presentes no esterco animal(adubo tradicionalmente usado na manutenção da palma) — germinam nesses locais protegidos. Assim, muitos cercados abrigam árvores jovens (5 a 30 anos). Mesmo sendo um número ínfimo, nos dá a esperança da sua recomposição.
– *Iniciativas isoladas*: Alguns produtores, com apoio da EMBRAPA Semiárido e da Coopercuc, implantaram pomares de umbuzeiro. Contudo, são casos raros.
*Parte II: Experiências e Lições Aprendidas*
Em 2010, a *Associação dos Patrulheiros Ambientais Guardiões da Caatinga, em parceria com a Coopercuc e comunidades locais, implementou um projeto piloto nos Fundos de Pasto de *Testa Branca* e *Serra da Besta* (Uauá) e *Caxaqui* (Curaçá).
*Metodologia*:
– Implantação de viveiros protegidos por telas, cactos e macambiras.
– Plantio de centenas de mudas em mutirões comunitários.
– Financiamento parcial via recursos que arrecadei com exposições fotográficas na Europa.
*Resultados*:
– Produção e replantio de mudas em cercados de palma e canteiros de tela em áreas coletivas evitando a predação.
– *Desafios*: Falta de continuidade devido à escassez de recursos e desinteresse de instituições locais.
Apesar das dificuldades, o projeto demonstrou que é possível regenerar a espécie com *proteção física* e *engajamento comunitário*.
*Parte III: Potencial Econômico e Caminhos Sustentáveis*
O umbuzeiro é *produtivo* e *estratégico* para a economia local:
1. *Frutífera*:
– *50 árvores em pomares adensados* geram renda equivalente a um salário mínimo durante os meses da safra (primeiro trimestre do ano) se comercializados in natura.
– *Processamento do fruto* (como na Coopercuc): 4 toneladas de umbu garantem sustento anual para uma família de 5 pessoas.
2. *Forrageira*:
– Folhas com 12% de proteínas bruta e frutos abundante em vitamina C são suplementos nutritivos para caprinos e ovinos, aliviando a escassez alimentar na época mais agonizante, a seca.
*Umbuzeiros, Bodes e o Centenário de Uauá*
À medida que Uauá se aproxima de seus 100 anos, enfrenta o desafio de conciliar produção rural e preservação. A relação atual — *2 umbuzeiros para cada bode* — simboliza a tensão entre tradição e sustentabilidade. Está lançada a provocação!
*recomendações sugeridas:*
– Adotar tecnologias de manejo (como cercas vivas e rotação de pastos).
– Revitalizar projetos de reflorestamento com apoio governamental e comunitário.
– Valorizar o umbuzeiro não apenas como “árvore sagrada”, mas como *ativo econômico e ecológico*.
Se hoje somos a *Capital do Bode*, precisamos também assumir a responsabilidade por sermos a *Terra dos Umbuzeiros*. A sobrevivência da Caatinga — e de Uauá — depende dessa equação.
É imperioso que juntos, somemos forças para nos adequar, o quanto antes, a estes requisitos. Seja pela tecnologia cientifica, pelos saberes populares tradicionais ou pela força de vontade política, precisamos agir, e agir rápido.
Rumo ao centenário com mãos à obra!
Uauá Bahia, 02 de fevereiro de 2025.
Fonte:
Presidente da ABLACC
José Deusimar Loiola Gonçalves Técnico em Agropecuária (Funcionário Publico Aposentado- Extensionista do Governo do Estado de nossa linda e extensa Bahia); Graduado em Administração de Médias e Pequenas Empresas; Licenciado em Biologia; Pós Graduado Em Gestão Educação Ambiental, e Tecnólogo em Apicultura e Meliponicultura. Zap: (75) 99998-0025 (Vivo) . Blog: https://www.portaldenoticias. net/deusimar